Jaqueta Branca
90. O recrutamento das equipagens
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O recrutamento das equipagens
“A ” velho ditado do mar; e,
entre as maravilhosas gravuras de Hogarth, nenhuma permanece
mais verdadeira nos dias de hoje do que uma dramática cena na
qual, depois de dormir com prostitutas e jogar sobre túmulos, o
Aprendiz Vadio, com a cabeça baixa de um criminoso, é por fim
representado rumando ao mar, com um navio e um cadafalso à
distância. Hogarth, no entanto, devia ter convertido os mastros do
navio em forcas e, assim, com o oceano por fundo, encerrado a
carreira de seu herói. Tal fim teria conhecido a força dramática da
ópera de Don Juan, que, depois de dar curso ímpio a suas
aventuras, é varrido de nossa vista num tornado de demônios.436
Pois o mar é a verdadeira Tofete, o poço sem fundo de muitos
devotos da iniquidade; e, como os místicos alemães representam
uma suposta Geena dentro de Geena,437 os navios de guerra
são costumeiramente conhecidos entre os marinheiros como
“infernos flutuantes”. E como o mar, segundo o velho Fuller, é o
estábulo de bestas monstruosas, vogando de um lado para o
outro em hordas indescritíveis, ele é também o lar de muitos
monstros morais que, com propriedade, dividem seu império com
a serpente, o tubarão e o verme.438
Tampouco os marinheiros, e em especial os marinheiros de um
navio de guerra, são de todo cegos a uma verdadeira
consciência dessas coisas. “Equipado pelo almoxarife,
condenado pelo padre” é um ditado de marinheiro na Marinha
americana, quando o aprendiz veste pela primeira vez o linho da
blusa e a jaqueta azul, devidamente costurada para ele numa
cadeia estadual de terra firme.
Não surpreende que, atraídos por algum recrutador a um
serviço tão duro e, talvez, perseguidos por um lugar-tenente
vingativo, alguns marinheiros arrependidos se lancem ao mar
para escapar a seu destino ou se coloquem à deriva no vasto
oceano sobre gradis de madeira sem bússola ou leme de
direção.
Num caso, um jovem, depois de ser praticamente transformado
em comida de cachorro no passadiço, encheu seus bolsos de
chumbo e saltou pela amurada.
Anos atrás, eu estava num navio baleeiro ancorado num porto
do Pacífico com três fragatas francesas próximas.439 Numa noite
escura e soturna, um grito abafado se ouviu da superfície das
águas e, ao que pensaram se tratar de um afogado, desceu-se
um bote, quando dois marinheiros franceses foram resgatados,
quase mortos de exaustão e praticamente estrangulados por
trouxas de roupas amarradas a seus ombros. Eles tentavam
dessa forma escapar de sua fragata. Quando os oficiais
franceses saíram em sua perseguição, esses marinheiros,
lutando contra a exaustão, lutaram como tigres e resistiram à
captura. Embora essa história diga respeito a uma fragata francesa, ela não é menos aplicável, em grau, às de outras
nações.
Conte quantos são os estrangeiros misturados aos marinheiros
de uma fragata americana, embora seja contra a lei empregá-los.
Praticamente um terço dos oficiais subalternos do Neversink
nasceu a leste do Atlântico. Por que isso? O mesmo princípio
que impede que americanos empenhem a si mesmos como
serviçais também os impede, em grande parte, de assumir
voluntariamente servidão ainda pior na Marinha.440 “Marinha
procura marinheiros” é um anúncio comum pelas docas de
nossos portos. A Marinha sempre os “procura”. Provavelmente,
deve-se em parte à escassez de marinheiros de fragata que, há
não muitos anos, escravos negros fossem frequente e
regularmente vistos em meio às equipagens dos navios de
guerra mediante pagamento a seus senhores. Isso aconteceu em
enfrentamento a uma lei do Congresso que proibia escravos na
Marinha. Essa lei diz, implicitamente, escravos negros; nada,
porém, se diz em relação aos escravos brancos. Mas, diante do
que John Randolph de Roanoke disse sobre a fragata que o
levou à Rússia e diante do que são as fragatas armadas em sua
maioria nos dias de hoje, a Marinha americana não é de todo um
lugar inapropriado para cativos hereditários. De qualquer forma, a
situação de encontrá-los numa fragata é de tal natureza que,
para alguns, a sensação é de estupefação. A incredulidade de
tais pessoas, porém, deve ceder ao fato de que, a bordo do
Neversink, durante a presente viagem, havia um escravo da
Virgínia empregado regularmente como marinheiro; ao
proprietário cabia seu pagamento. Guinéu — esse era seu nome entre os marujos — pertencia ao almoxarife, um cavalheiro do
Sul; seu trabalho consistia em servi-lo. Eu jamais sentia tão
vivamente minha condição de marinheiro de fragata como
quando via Guinéu circulando livremente pelos conveses em
roupas de civil; ademais, através da influência de seu senhor, ele
estava praticamente livre por inteiro da degradação disciplinar da
tripulação caucasiana. Comia suntuosamente na praça-d’armas;
brilhante e redondo, seu rosto de ébano reluzia de
contentamento, sempre alegre e divertido; sempre pronto para rir
e brincar — aquele escravo africano era, sim, invejado por muitos
marinheiros. Havia momentos em que eu mesmo o invejava.
Lemsford, certa feita, o demonstrou sem reservas. “Ah, Guinéu!”,
ele suspirou. “Você vive em paz; jamais abriu a cartilha pela qual
tenho de rezar.”441
Certa manhã, quando todos os marinheiros eram chamados a
testemunhar uma punição, o escravo do almoxarife, como
sempre, foi visto a descer rapidamente as escadas na direção da
praça-d’armas; em seu rosto, via-se o peculiar azul agastadiço
que, no negro, corresponde à palidez causada pela agitação
nervosa no branco.
“Aonde vai, Guinéu?”, bradou o oficial do convés, um
cavalheiro bem-humorado, que por vezes se divertia às custas do
escravo do almoxarife e bem conhecia a resposta que dele
receberia. “Aonde vai, Guinéu?”, repetiu ele. “Meia-volta; não
escutou o chamado, senhor?”
“Desculpa, sinhô!”, respondeu o escravo, com uma discreta
saudação. “Num guento; num guento, sinhô.” E, assim dizendo,
desapareceu além da escotilha. Guinéu era a única pessoa a bordo, com exceção do comissário do hospital e dos doentes da
enfermaria, dispensada da presença aos açoitamentos.
Acostumado à luz e ao trabalho leve desde o nascimento e feliz
de ter encontrado apenas bons e gentis senhores, Guinéu —
que, embora cativo, era passível de, como um cavalo, ser
vendido na amortização de uma hipoteca —, com seus grilhões
de borracha, desfrutava das liberdades do mundo.
Embora o proprietário de seu corpo e sua alma, o almoxarife,
jamais tenha, de forma alguma, me dado atenção enquanto
estive a bordo da fragata e jamais me tenha prestado bons
serviços de qualquer tipo (não estava em seu poder), por seus
modos indulgentes, agradáveis e gentis para com seu escravo,
sempre lhe imputei coração generoso e alimentei disposição
amistosa em relação a ele. Quando encerramos nossa viagem, o
tratamento que concedeu a Guinéu, sob circunstâncias
particularmente calculadas para provocar o ressentimento de um
proprietário de escravos, ainda mais aumentou minha estima do
bom coração do almoxarife.
Menção se fez ao número de estrangeiros na Marinha
americana; mas não é apenas na Marinha americana que
estrangeiros surgem em tão grande proporção em relação ao
restante da equipagem, embora em Marinha nenhuma, talvez,
tenham chegado a tão grande número quanto na nossa.
Segundo uma estimativa inglesa, os estrangeiros a serviço dos
navios do rei contavam, a certa altura, a oitava parte de todo o
corpo de marinheiros. A situação da Marinha francesa, não
conheço com precisão; mas repetidas vezes naveguei com
ingleses que nela serviram.
Um dos efeitos da livre introdução de estrangeiros em qualquer
Marinha não pode ser suficientemente lamentado. Durante o
período em que vivi no Neversink, assustou-me repetidas vezes
a falta de patriotismo em muitos de meus companheiros de
convés. De fato, eram em sua maioria os estrangeiros que sem
nem ao menos corar declaravam que, não fosse pela diferença
no pagamento, eles tão prontamente se apresentariam aos
canhões de uma fragata britânica quanto aos de uma fragata
americana ou francesa. Não obstante, era evidente que, no
tocante a qualquer sentimento patriótico mais estridente, este era
comparativamente — e na melhor das hipóteses — bem pouco
demonstrado por nossos marinheiros em geral. Colocada sob
reflexão, tal observação não é digna de surpresa. Por sua vida
errante e a dissolução de todos os vínculos domésticos, muitos
marinheiros mundo afora são como os “cavaleiros mercenários”
que, há alguns séculos, vagavam pela Europa prontos a lutar por
qualquer príncipe que lhes pagasse a espada. O único
patriotismo é nascido e alimentado no lar, diante de uma imóvel
lareira; mas o marinheiro de uma fragata, embora em suas
viagens tenha costurado os polos e unido as Índias — passe ele
por onde quer que seja, sempre levará consigo seu único lar; e
este é sua maca. “Nascido debaixo de um canhão e educado no
gurupés”, segundo frase que lhe é própria, o marinheiro de um
navio de guerra rola pelo mundo como um vagalhão, pronto a se
misturar com qualquer mar ou ser sugado pelo turbilhão de
qualquer guerra.
E mais. O terror da disciplina geral de um navio de guerra; o
particular horror do passadiço; o confinamento prolongado a bordo do navio, com tão poucos dias de licença; e a miséria do
pagamento (muito menos do que se pode receber no serviço
mercante) — são essas coisas que colaboram para afugentar de
todas as Marinhas nacionais a grande maioria dos melhores
marinheiros. Isso se mostra óbvio quando examinamos os
seguintes números, extraídos dos Anais do Comércio, de
Macpherson. Num único período, sob o Acordo de Paz, o número
de marinheiros empregados na Marinha britânica era de vinte e
cinco mil homens; no mesmo período, a marinha mercante
britânica empregava cento e dezoito mil novecentos e cinquenta
e dois homens. Mas, enquanto as necessidades de um navio
mercante tornam indispensável que a maior parte de sua
tripulação seja de primeiros marinheiros, as circunstâncias de um
navio de guerra permitem a ela reunir uma multidão de homens
de terra firme, soldados e garotos. Segundo afirmação de capitão
Marryat em seu opúsculo (1822) “Sobre a abolição do
recrutamento à força”, parece que, no fim das Guerras
Napoleônicas, um terço de todas as tripulações das fragatas de
Sua Majestade consistia de civis e garotos.
Longe de embarcar com entusiasmo nos navios do rei quando
seu país estava sob ameaça, o grande corpo de marinheiros
britânicos, horrorizado com a disciplina da Marinha, adotou
procedimentos inéditos para escapar às prisões para a maruja.
Alguns chegavam a esconder-se em cavernas e lugares
afastados em terra firme, temendo correr o risco de procurar uma
maca num navio mercante com viagem para o estrangeiro que os
pudesse levar para outros mares. No relato real de John Nichol,
marinheiro, publicado em 1822 por Blackwood em Edimburgo e
Cadell em Londres,442 obra que por toda a parte traz a impressão
espontânea da verdade, o velho marinheiro, da forma mais
natural, tocante e crua, diz que “vagou pelas sombras como um
bandido”, anos inteiros pelo campo nas imediações de
Edimburgo, para evitar o recrutamento forçado, furtivo como
ladrões e discípulos de Burke.443 Nessa época (das Guerras
Napoleônicas), segundo a Lista de Steel, havia quarenta e cinco
pelotões de aprisionamento para a maruja em operação na Grã-
Bretanha.444
Em situação posterior, um grande grupo de marinheiros
britânicos reuniu-se solenemente às vésperas de uma guerra
antecipada e juntos determinaram que, em caso de deflagração,
iriam em grupo fugir para os Estados Unidos para evitar o
recrutamento ao serviço militar de seu país — serviço que
degradava seus próprios guardiões no passadiço.
Noutro tempo, muito anterior a este, segundo um oficial da
Marinha britânica, o lugar-tenente Tomlinson, três mil
marinheiros, impelidos pelo mesmo motivo, fugiram em pânico
para a costa dos navios de carvão entre as estradas de Yarmouth
e o Nore.445 Noutro lugar, falando de alguns dos homens a bordo
dos navios do rei, ele diz que “eram os mais miseráveis infelizes”.
Esse comentário é perfeitamente corroborado por testemunho
referente a outro período. Ao aludir a uma lamentada escassez
de bons marujos ingleses durante as guerras de 1808, entre
outros assuntos, o autor de um opúsculo sobre “Súditos da
Marinha” diz que todos os melhores marinheiros, os mais aptos e
cordatos homens, geralmente conseguem escapar ao recrutamento. Esse escritor era, ou fora, ele próprio capitão de
uma fragata britânica.
Agora se pode facilmente imaginar qual é o caráter dos
homens que, mesmo hoje em dia, se dispõem a alistar-se num
serviço tão insuportável e ultrajante para toda a humanidade de
terra firme quanto a Marinha. Disso advém que os canalhas e
covardes de todo tipo num navio de guerra sejam não
marinheiros regulares, mas “vagabundos de porto”, homens que
embarcam na Marinha para ter direito ao grogue e matar o tempo
na infame ociosidade de uma fragata. Mas, se é tão ociosa, por
que não diminuir o número de homens na equipagem de um
navio de guerra e manter os demais empregados? Isso não pode
acontecer. Em primeiro lugar, a magnitude da maioria desses
navios requer um grande número de braços para estaiar as
pesadas vergas, içar as enormes velas de sobrejoanete e fazer
subir a imensa âncora. E, embora a ocasião para o emprego de
tantos homens seja rara, é verdade que, quando esta chega — o
que pode acontecer a qualquer instante —, tal multidão de
homens é indispensável.
Mas além disso, e para coroar tudo, as baterias necessitam de
homens. É preciso haver homens o bastante para operarem
todos os canhões de uma só vez. E assim, para ter um número
suficiente de mortais a postos para “afundar, queimar e destruir”,
um navio de guerra — além de corromper irrevogavelmente, por
meio de seus vícios, os marinheiros e os homens de terra firme
de bons hábitos que, vez por outra, voluntariamente se alistam —
deve alimentar, às custas do erário público, uma multidão de
pessoas que, se não encontrassem um lar na Marinha, provavelmente ficariam sobre os ombros da paróquia ou
passariam seus dias numa prisão.
Entre outros, são esses os homens em cujas bocas Dibdin446
coloca seus versos patrióticos, cheios de cavalheirescas ações
navais e romance. Com a exceção da última linha, tais versos
podiam ser cantados com igual propriedade por marinheiros de
fragatas americanas e britânicas.
Pra mim, num importa tempo
Nem maré, nem fim
Nada é problema quando o dever chama;
Meu coração, eu dou pra Polly,
E meu tostão, pra quem amigo é…
Porque minha vida ao nosso rei eu dei.447
Rancor eu num conheço,
nem paixão pra ser escravo;
não sou rato, nem vil ou reclamão…448
Não faço coro com certa autoridade crítica, das mais
importantes, que julga as canções de Dibdin como “música
chula”, pois a maioria delas respira a poesia do oceano. Mas é
digno de nota que essas canções — que fariam qualquer um
pensar que os marinheiros de um navio de guerra são os mais
livres, felizes, virtuosos e patrióticos — foram compostas num
tempo em que a Marinha britânica estava equipada
principalmente de miseráveis e ladrões, como se mencionou
noutro capítulo. Ademais, essas canções estão prenhes de um
sensualismo digno de Maomé; um desprendimento em relação
ao destino e uma devoção implícita, inquestionada, digna de um
cachorro a quem quer que seja seu senhor e mestre. Dibdin era
um homem de gênio; mas não me surpreende que tenha sido pensionista do governo, com vencimentos de duzentas libras ao
ano.
Não obstante as iniquidades de um navio de guerra, por vezes
os marinheiros estão nele tão habituados à vida difícil, tão
disciplinados e adestrados pela servidão que, com uma
incompreensível filosofia, parecem alegremente resignados a seu
destino. Eles têm o bastante para comer; bebida para beber;
roupas para se aquecer; maca para dormir; tabaco para mascar;
um médico para medicá-los; um pároco para rezar por eles. Para
um homem desgarrado sem um tostão, tudo isso não parece um
maravilhoso roteiro?
Havia a bordo do Neversink um gajeiro de proa que atendia
pelo nome de Desterrado. Embora suas costas fossem
atravessadas e quadriculadas com as inapagáveis cicatrizes de
todos os açoitamentos acumulados por um marinheiro
inconsequente ao longo de dez anos a serviço da Marinha, ele
ostentava um semblante perpetuamente risonho; no que toca às
piadas e respostas rápidas, era o próprio Joe Miller.449
Apesar de ser um vagabundo do mar, esse homem não foi
criado em vão. Desfrutava da vida com o gosto de uma
adolescência eterna; e, embora confinado numa prisão de
carvalho, com sentinelas carcereiras por todos os lados,
caminhava pela coberta dos canhões como se esta fosse tão
vasta quanto uma pradaria e tão diversificada, em termos de
paisagem, quanto os vales e as colinas do Tirol. Nada jamais o
desconcertava; não era capaz de transformar seu riso em algo
como um suspiro. Aquelas secreções glandulares que noutros
cativos por vezes ensejam a formação de lágrimas, nele eram expectoradas pela boca, tingidas com o sumo dourado de uma
erva, com a qual ele aliviava e confortava seus desgraçados dias.
“Rum e Tabaco!”, dizia Desterrado, “o que mais um marinheiro
deseja?”
Sua canção favorita era “Verdadeiro marinheiro inglês”, de
Dibdin. Ela começava:
Jack canta e dança no convés…
Em terra tem amor eterno,
A felicidade atende por seu nome;
E só levanta o próprio ferro
Quando o dinheiro à míngua fica;
Assim é a vida de um marujo.
Mas o pobre Desterrado dançava com tanta frequência sob a
chibata no passadiço quanto nos salões de marinheiro na costa.
Outra de suas canções, estruturada sobre a melodia da
conhecida canção “O rei, Deus o abençoe!”, reunia os seguintes
versos entre tantos outros de igual corte:
Oh, quando chegava são e salvo
Pros lados de Boston ou Nova York,
Oh, beber e dançar — é tudo que quero;
E enquanto o dinheiro sobrar
Jogar o copo pro ar
E beber à viagem feliz!450
Durante as muitas horas de ócio, quando nossa fragata estava
ancorada, esse homem estava ora jogando damas alegremente,
ora remendando suas roupas, ora roncando como um trompetista
a sotavento sob as retrancas. Quando caía no sono, a saudação
nacional de nossas baterias mal o fazia mexer-se. Se era
convocado ao mastro principal durante um vendaval; ou atendia
ao chamado do tambor no barril de grogue; ou subia no gradil para ser açoitado — Desterrado sempre obedecia com a mesma
e indefectível indiferença.
Seu conselho para um jovem rapaz que embarcara conosco
em Valparaíso dava corpo ao cerne daquela filosofia que permitia
a alguns marinheiros de fragata conhecer a felicidade no serviço
naval.
“Aprendiz!”, disse Desterrado, agarrando o menino pálido pelo
lenço, como se o tomasse por uma rédea. “Aprendiz, já servi ao
tio Sam… já fui marujo em vários Andrew Miller. Olha, escuta o
meu conselho e desvia de tudo que for problema. Presta
atenção, num esquece de tocá o chapéu sempre que um desses
esnobe (oficiais) falarem com você. E num importa o quanto eles
mandarem o calabrote nas suas costa, aguenta firme e num
responde… você tem que saber que eles num gosta de
marinheiro cheio de conversa; e, quando a chibata cantar, fica
firme; é só um ‘oh, senhor!’ ou dois ‘ai, meu Deus!’… e é isso. E
depois? Bom, você dorme uma ou duas noite e, no fim, tá
novinho pro seu grogue.”
Esse Desterrado era querido dos oficiais, entre os quais era
conhecido pela alcunha de João Bobo. E são justamente os
joões-bobos do tipo de Desterrado que a maioria dos oficiais da
Marinha diz admirar; um sujeito sem vergonha, sem alma, tão
morto para a menor dignidade da humanidade que mal pode ser
chamado de homem. Enquanto um marinheiro que demonstra
traços de sensibilidade moral, cujos modos apresentam alguma
dignidade, é o homem de quem eles, em muitos casos,
instintivamente desgostam. A razão é que eles sentem que um
homem como esse é uma contínua afronta para si, como se fosse mentalmente superior a seu poder. Ele não tem o que fazer
a bordo de uma fragata; eles não querem um homem desses.
Para eles há insolência em sua viril liberdade, desrespeito em
sua postura. Ele é tão insuportável quanto um africano altivo e de
costas eretas seria ao senhor de uma fazenda de escravos.
Não pense, porém, que os comentários neste capítulo e no
precedente se aplicam a todas as fragatas. Há navios de guerra
abençoados com capitães de força intelectual e paternal, oficiais
cavalheiros e fraternos e tripulações pacíficas e cristãs. Os
costumes particulares de tais fragatas discretamente suavizam
os rigores tirânicos dos Artigos de Guerra; neles, a chibata é
desconhecida. Navegando em tais navios, é difícil perceber que
se vive sob lei marcial ou que os males acima mencionados
existem em algum lugar.
E Jack Chase, o velho Ushant e muitos outros marujos de
caráter que eu poderia mencionar aqui são mais do que
qualificados para atestar que, ao menos a bordo do Neversink,
havia mais de um nobre marinheiro de navio de guerra que
praticamente redimia os demais.
Onde quer que, através desta narrativa, a Marinha americana,
em qualquer um de seus aspectos, tenha sido tema de discussão
geral, não me permiti que escapasse uma sílaba sequer de
admiração por aquilo que se julgue notável em suas realizações.
A razão é: creio que, no que toca àquilo que se chama reputação
militar, a Marinha americana não carece de elogio, mas de
História. Seria supérfluo que Jaqueta Branca dissesse ao mundo
o que ele já sabe. A tarefa que se impõe a mim é de outro tipo; e,
embora preveja e sinta que isso possa me sujeitar ao pelourinho nos duros pensamentos de alguns homens, apoiado naquilo que
Deus me deu, tranquilamente suportarei o desenrolar dos
acontecimentos, seja lá qual for.