Jaqueta Branca
14. Um trago num navio de guerra
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Um trago num navio de guerra
P de nossa partida do porto de Callao,
disseminou-se um rumor que aterrorizou muitos marinheiros. Eis
do que se tratava: por algum inédito descuido do almoxarife ou
alguma igualmente desconhecida negligência do responsável
pela despensa da fragata em Callao, o suprimento a bordo
daquela deliciosa bebida conhecida como grogue 94 estava
próximo do fim.
Na Marinha americana, a lei permite um quarto de pinta95 de
bebida por dia a cada marinheiro. Em duas doses, ela é servida
antes do desjejum e do jantar. Ao rufar da caixa, a marujada se
reúne ao redor de uma enorme selha ou barril repleto do líquido;
e, à medida que seus nomes são chamados por um aspirante,
cada homem dá um passo à frente e se regala com um pequeno
medidor de lata, que chamam de “dedo”. Nenhum bon-vivant
servindo-se de um tokay num aparador bem polido estala os
lábios com mais viva satisfação do que um marinheiro com seu
“dedo” de grogue. Para muitos, o pensamento em seus “dedos”
diários propicia um perpétuo panorama de extasiantes paisagens
que se afastam para todo o sempre no horizonte. É seu grande
“plano de vida”. Tire-lhe o grogue, e a vida lhes perde todo o
encanto. Parece evidente demais para ser refutável que a razão dominante para que muitos homens se mantenham na Marinha é
a confiança irrestrita no poder do governo dos Estados Unidos de
supri-los, de forma regular e infalível, de sua dose diária da dita
bebida. Conheci muitos desgraçados embarcados sem qualquer
experiência a bordo de um navio que me confessaram que, tendo
contraído um amor incontinente pela bebida, à qual não eram
capazes de renunciar, e tendo por suas débeis trajetórias
chegado à mais abjeta pobreza — a ponto de não poderem mais
satisfazer a própria sede em terra firme —, engajaram-se
desesperadamente na Marinha; entendendo-a como um refúgio
de todos os bêbados, que ali poderiam prolongar suas vidas
mediante exercício e disciplina e matar a sede duas vezes por
dia com constantes e moderadas doses de bebida.
Quando certa feita ralhei com um gajeiro ébrio sobre a tal dose
diária de bebida; quando lhe disse que ela estava acabando
consigo e aconselhei-o a parar com o grogue e receber o
dinheiro por ele, adicional a seu salário, tal como previsto por lei,
ele voltou-se a mim com um olhar irresistivelmente ardiloso e
disse: “Largar o meu grogue? Por quê? Porque está acabando
comigo? Não, não; eu sou um bom cristão, Jaqueta Branca, e
amo demais o meu inimigo para cortar relações com ele”.
Pode-se prontamente imaginar, portanto, a consternação e o
horror que tomaram conta da coberta dos canhões aos primeiros
boatos de que o grogue se acabara.
“Cabou o grogue!”, gritou um veterano da âncora d’esperança.
“Ai, Deus! Que dor no estômago!”, exclamou um gajeiro do
mastro principal.
“Pior que o cólera!”, exclamou um homem da guarda de popa.
“Era melhor que a água tivesse acabado primeiro!”, disse o
capitão do porão.
“Desde quando a gente é ganso pra viver sem grogue?”,
perguntou um cabo do regimento de fuzileiros.
“Isso, agora a gente vai matar a sede com os patos!”, concluiu
um quartel-mestre.
“Sobrou nenhum ‘dedo’?”, grunhiu um poceiro.
“Nadinha!”, suspirou um fiel do porão, do fundo de suas botas.
Sim, a informação fatal provou-se verdadeira. Não se ouviu
mais o rufar da caixa que levava os homens à selha, e um
profundo abatimento e depressão desceram ao convés como
uma nuvem. O navio parecia uma grande cidade tomada de uma
terrível calamidade. Os homens permaneciam em grupos, uns
distantes dos outros, discutindo sua dor e consolando-se. Nas
noites tranquilas de luar já não se ouviam as canções das altas
gáveas; e poucas e espaçadas eram as histórias contadas. Foi
durante esse intervalo de tempo, tão pavoroso para tantos, que,
para a estupefação da marujada, denunciou-se ao mestre-
d’armas dez homens embriagados. Eles foram levados ao
mastro, e sua aparência dissipou mesmo as dúvidas dos mais
céticos; entretanto, onde tinham encontrado bebida, isso nenhum
deles dizia. Observou-se, porém, que os contraventores todos
cheiravam a lavanda, como muitos dândis.
Depois de serem examinados, foram todos levados ao brigue,
a cadeia instalada entre dois canhões no convés principal onde
são mantidos os prisioneiros. Ali permaneceram por algum
tempo, estirados, hirtos e impassíveis, com os braços cruzados sobre o peito como as muitas efígies do Príncipe Negro em seu
monumento na catedral da Cantuária.96
Findos os primeiros cochilos, a sentinela que permaneceu a
vigiá-los fez o que estava a seu alcance para manter à distância
a multidão ávida de descobrir como, em tempo de tamanha
carência, os prisioneiros tinham conseguido bebida o bastante
para esquecerem-se de si mesmos. A seu tempo, todos
acabaram liberados, e o segredo logo vazou.
Ao que tudo indica, de súbito ocorrera a um empreendedor
dentre seus pares, a quem a privação compartilhada causava
terríveis padecimentos, uma brilhante ideia. Tornara-se de seu
conhecimento que o comissário do almoxarife trazia consigo um
grande suprimento de eau-de-cologne, clandestinamente
embarcada no navio com o objetivo de vendê-la por conta própria
onde aportasse; porém, provando-se o suprimento maior do que
a demanda e não conhecendo outros consumidores a bordo da
fragata além do lugar-tenente Michelo, ele então levava de volta
no retorno para casa mais de um terço do carregamento inicial.
Para encurtar o caso, tal funcionário, convidado a uma conversa
sigilosa, foi prontamente convencido a partilhar uma dúzia de
garrafas, com cujo conteúdo o grupo embriagado se regalara.
As notícias correram amplamente entre a marinhagem,
mantendo-se o segredo apenas em relação a oficiais e
subalternos; e naquela noite as longas garrafas de água-de-
colônia, com seu pescoço comprido, tilintaram por cantos e
recantos dos conveses, sendo esvaziadas e de pronto lançadas
ao mar. Com o açúcar mascavo tomado às caixas de rancho e a
água quente implorada aos cozinheiros do navio, os marinheiros produziram toda sorte de ponche, coquetel e mistura, às quais se
acrescia uma gota de alcatrão, como se faz com pão torrado, à
guisa de se obter sabor. Claro que tudo se administrou no mais
absoluto sigilo; enquanto transcorreu a noite que lhes cobria os
festins, os farristas permaneceram, em grande medida, livres de
detenção; e os que tinham se entregado amplamente à orgia
tinham doze longas horas para retornarem à sobriedade antes
que a luz do sol irrompesse.
No dia seguinte, a fragata cheirava a quarto de donzela de
uma ponta a outra; mesmo os barris de alcatrão recendiam a
fragrância; e da boca de não poucos dentre os encanecidos e
carrancudos subchefes de artilharia emanava o mais delicioso
aroma. Assombrados, os lugares-tenentes iam de um lado ao
outro farejando a essência do vendaval; e, pela primeira vez,
Michelo não precisou agitar seu lenço perfumado. Era como se
estivéssemos navegando nas imediações de uma costa odorífera
numa primavera repleta de violetas. Perfumes de Sabá!97
Encontrando por léguas dilatadas,
Risonho e perfumado, o velho Oceano.98
Mas, ai!, todo esse perfume não podia ter sido desperdiçado
por nada; e o mestre-d’armas e os cabos navais, reunindo
informações aqui e ali, logo desvendaram o mistério. O
comissário do almoxarife foi convocado a dar explicações, e
ponches de lavanda e drinques de água-de-colônia não foram
mais bebidos a bordo do Neversink.