Jaqueta Branca
5. Jack Chase num tombadilho espanhol
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Jack Chase num tombadilho espanhol
N , e contar uma história
sobre Jack, que, embora esbarre em sua honra e integridade,
tenho certeza não irá diminuí-lo na estima de qualquer homem de
coração. Na presente viagem da fragata Neversink,37 Jack
desertara e, passado certo tempo, fora capturado.
Mas qual teria sido o motivo de sua deserção? Fugir à
disciplina naval? Entregar-se à diversão e aos excessos em
algum porto de perdição? O amor de alguma signorita sem valor?
De forma alguma. Ele abandonou a fragata, sim, por mais altos,
nobres e gloriosos motivos. Embora respeitoso da disciplina
naval a bordo, em terra firme era um defensor obstinado dos
direitos do homem e das liberdades do mundo. Jack decidiu
desembainhar a espada da causa numa insurreição civil no
Peru,38 abraçando, de corpo e alma, o que julgava ser o justo.
Na época, seu desaparecimento causou enorme surpresa
entre os oficiais, que não alimentavam suspeitas de postura
desertora em relação a ele.
“O quê? Jack, meu grande homem da gávea principal, um
desertor?”, surpreendeu-se o capitão. “Não quero acreditar
nisso.”
“Jack Chase dando no pé!”, exclamou um aspirante com
tendências ao romance e à aventura. “Só pode ter sido por amor;
foram as signoritas que lhe viraram a cabeça.”
“Jack Chase não foi encontrado?”, bradou um veterano
resmungão da âncora d’esperança, um daqueles maliciosos
profetas de acontecimentos passados: “Pensei nisso; eu sabia;
podia até jurar… é o tipo de sujeito que zarpa de fininho. Sempre
esperei isso dele.”
Meses se passaram sem qualquer notícia de Jack; até que, por
fim, a fragata veio a ancorar na costa, ao lado de uma chalupa de
guerra peruana.
Intrepidamente vestido em uniforme peruano e ostentando
largas passadas, nas quais se misturavam os estilos naval e
marcial, avistou-se a figura portentosa e alta de um oficial de
barba longa caminhando pelo tombadilho da nau estrangeira; e
supervisando as saudações que, em tais ocasiões, são trocadas
entre navios de diferentes bandeiras nacionais.
Mirando nosso capitão, esse belo oficial tocou o chapéu
adornado à maneira mais cortês; e aquele, depois de devolver-
lhe o cumprimento, observou-o com certa indiscrição, tomando
do monóculo.
“Por Deus!”, ele gritou por fim. “É ele… ele não consegue
disfarçar aquele jeito de andar… é a barba; eu o reconheceria na
Cochinchina… Homens ao primeiro bote! Lugar-tenente Blink,
quero que vá a bordo daquela chalupa e me traga aquele oficial.”
Todos ficaram assustadíssimos. O quê? Com os Estados
Unidos e o Peru vivendo em calorosa paz, mandar um
destacamento armado a bordo de uma chalupa peruana e capturar um de seus oficiais em plena luz do dia? Nefasta
infração das Leis Internacionais! O que Vattel diria?39
Mas ao capitão Claret era preciso obedecer. E lá se foi o bote,
com todos os homens armados até os dentes, o lugar-tenente em
exercício investido de instruções secretas, e os aspirantes a
bordo ostentando ar de presciente sagacidade, embora, em
verdade, não fossem capazes de dizer o que estava por vir.
Chegando à chalupa de guerra, o lugar-tenente foi recebido
com as devidas honras; mas, àquela altura, o oficial alto e
barbado desaparecera do tombadilho. O lugar-tenente mandou
chamar o capitão peruano; e, após ser conduzido até a cabine,
informou-lhe que a bordo de sua embarcação havia um indivíduo
pertencente ao USS Neversink e que tinha ordens de levá-lo
imediatamente.
O capitão estrangeiro enrolou as pontas do bigode, surpreso e
indignado, e deu a entender um chamado aos postos, em
resposta àquela demonstração de insolência ianque.
Porém, mantendo uma das mãos enluvadas sobre a mesa e
brincando com a borla presa a sua espada, o lugar-tenente, não
sem branda firmeza, repetiu a ordem. Por fim, com o caso todo
esclarecido, e o indivíduo em questão descrito com precisão —
incluindo uma mancha no rosto —, nada restou além de uma
imediata concórdia.
Assim, o alinhado oficial de bastas barbas, que erguera
cortesmente o chapéu a nosso capitão porém desaparecera à
chegada do lugar-tenente, foi chamado à cabine diante de seu
superior, que assim lhe dirigiu a palavra:
“Don John, este cavalheiro declara que, por direito, você
pertence à fragata Neversink. É verdade?”
“Sim, dom Sereno”, respondeu Jack Chase, levando ao peito
os galões dourados das mangas de seu fardão, “e, não havendo
resistência à fragata, entrego-me… Lugar-tenente Blink, estou
pronto. Adeus, don Sereno, e que a Madre de Dios o proteja!
Como amigo e capitão, o senhor sempre foi um cavalheiro.
Espero que esmague seus sórdidos inimigos.”
Com isso, ele se virou e, embarcando no bote, foi levado à
fragata e adiantou-se ao tombadilho do navio, onde o capitão
Claret estava.
“Às suas ordens, meu caro don”, disse o capitão, erguendo
ironicamente o chapéu, porém ao mesmo tempo mirando Jack
com um olhar de intenso descontentamento.
“Seu mais devoto e penitente capitão de gávea grande, senhor;
alguém que, em sua mais contrita humildade, ainda tem o
orgulho de reconhecer no capitão Claret seu comandante”,
respondeu Jack, produzindo uma gloriosa mesura e, então, num
gesto trágico, lançando sua espada peruana ao mar.
“Reintegrem-no imediatamente”, bradou o capitão Claret.
“Agora, senhor, ao trabalho; se cumprir bem com suas funções
até o final da viagem, não mais será lembrado de sua fuga.”
Assim, Jack avançou em meio à multidão de admiradores,
marujos que depositavam toda a confiança naquela barba
castanha, que crescera e se expandira espantosamente durante
sua ausência. Os marinheiros dividiram entre si seu chapéu
agalonado e o uniforme; e sobre os ombros o carregaram em
triunfo pela coberta dos canhões.