Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 57 de 101

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Jaqueta Branca

54. O povo ganha “liberdade”

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O povo ganha “liberdade”

 

S , em intervalos de gentil benevolência, ou cedendo a

meros princípios políticos, reis e comodoros relaxam o jugo da

servidão, ambos cuidam de que a concessão não pareça tão

súbita ou despropositada; pois, na estima do vulgo, o mesmo

poderia significar medo ou fraqueza.

Daí que, embora o nobre Jack tenha obtido ganho de causa

em sua audiência no mastro, mais de trinta e seis horas tenham

se passado antes que qualquer oficial ouvisse falar da “liberdade”

que seus companheiros de fragata tão intrepidamente

desejavam. Alguns homens do povo começavam a grunhir e a

murmurar, descontentes.

“Era mentira, Jack”, disse um deles.

“Maldito comodoro!”, bradou outro. “Ele enrolou você, Jack.”

“Descansem os remos um instante”, respondeu Jack, “e

veremos; lutamos pela liberdade, e a liberdade teremos! Sou o

tribuno da marinhagem, rapazes, o Rienzi282 do convés. O

comodoro vai cumprir com sua palavra.”

No dia seguinte, mais ou menos à hora do desjejum, escutou-

se um forte estridor de apito e flauta na escotilha principal e, em

seguida, a voz do contramestre se ouviu. “Escutem aqui, de proa e popa! Todos do quarto de estibordo! Preparem-se para ir à

costa em licença!”

Num ataque de alegria, um jovem gajeiro de mezena, postado

então no convés, arrancou o chapéu da cabeça e atirou-o como

uma panqueca no convés. “Liberdade!”, gritou, descendo

saltitante à coberta em busca de sua sacola.

Na hora combinada, o quarto de turno se reuniu em torno do

cabrestante, diante do qual estava nosso velho primeiro lorde do

Tesouro e mestre-pagador geral, o almoxarife, com muitos e bem

fornidos sacos de pele de veado cheios de dinheiro, empilhados

sobre o cabrestante. Ele nos serviu a todos de meio punhado de

moedas ou coisa do gênero, e então os botes foram tripulados e,

como muitos Esterhazys,283 fomos conduzidos à costa por

nossos companheiros de navio. Os lordes são capazes de

consumir uma vida inteira em letargia; mas basta que seja dado

aos comuns um dia de folga, e eles se mostrarão mais senhoriais

que o próprio comodoro.

A companhia do navio estava dividida em quatro seções ou

quartos de turno; assim, apenas um ia à costa por vez, com o

restante permanecendo para guarnecer a fragata. Cada grupo

teria vinte e quatro horas de licença.

Com Jack Chase e alguns outros prudentes cavalheiros da

gávea, fui à costa no primeiro dia, com o primeiro quarto de

turno. Nosso pequeno grupo viveu momentos encantadores;

vimos muitas belas paisagens; e — como todos os marinheiros

— vivemos alegres aventuras. Embora alguns bons capítulos

pudessem ser escritos sobre tal assunto, devo mais uma vez me

conter; pois neste livro, no que toca à costa, não tenho mais a fazer do que observá-la, vez por outra, da água; apenas o mundo

de meu navio de guerra deve suprir-me do fundamental de minha

matéria; jurei manter-me sobre as águas até a última letra de

minha narrativa.

Tivessem todos sido tão pontuais quanto o grupo de Jack

Chase, todo o quarto de turno de homens em licença teria estado

a salvo a bordo da fragata no expirar de vinte e quatro horas.

Mas não foi o caso; e, durante o dia todo que se sucedeu, os

aspirantes e outros empenharam-se em desentocá-los de seus

esconderijos na costa e trazê-los ao navio em destacamentos

dispersos.

Eles chegavam em todos os estágios imagináveis de

embriaguez; alguns com olhos roxos e machucados na cabeça;

outros ainda mais feridos, esfaqueados em brigas com soldados

portugueses. Outros, ilesos, eram imediatamente lançados à

coberta dos canhões, entre as baterias, onde passavam todo o

resto do dia roncando. Como um considerável grau de licença é

invariavelmente permitido aos homens de um navio de guerra

“em liberdade”, e estes bem o sabem, eles ocasionalmente se

permitem o privilégio de falar francamente com os oficiais quando

cruzam o passadiço, tomando cuidado, entrementes, de

cambalear com destreza, de modo que não restem dúvidas sobre

estarem seriamente bêbados e de todo fora de si no momento. E,

embora poucos deles tenham razões para afetar a bebedeira,

nessas ocasiões alguns indivíduos suscitam a suspeita de

estarem interpretando um papel estudado. Na verdade — a julgar

por certos sintomas —, mesmo quando de fato embriagados,

alguns marinheiros determinam previamente tal conduta; como algumas pessoas que, antes de inalar gás do riso, decidem

secretamente fazer loucuras sob tal influência — as quais

consequentemente são compreendidas como se os respectivos

atores não fossem responsáveis por seus atos.

Por muitos dias, enquanto se dava licença a outros quartos de

turno, o Neversink mostrou-se um triste cenário. Era mais um

hospício que uma fragata; a coberta dos canhões reverberava na

fúria das brigas, dos gritos e da música. Todos os visitantes da

costa eram mantidos à distância de um cabo.

Tais cenas, porém, nada eram diante das que repetidas vezes

se passavam em navios de guerra americanos em outros portos.

Mas o costume de permitir a presença de mulheres a bordo

quando atracados é hoje bastante incomum, nas Marinhas

inglesa e americana, a não ser que o navio, comandado por um

capitão dissoluto, esteja em algum porto distante e estranho, nos

oceanos Pacífico ou Índico.

O Royal George, um navio de linha de batalha britânico que,

em 1782, afundou em Spithead, tinha consigo trezentas mulheres

inglesas entre as mil almas que se afogaram naquela manhã

memorável.284

Quando, por fim, passado todo o louco tumulto e disputa da

“Liberdade”, surgiram as consequências, e nossa fragata

apresentou cenário bem diverso. Os homens pareciam exaustos

e fracos, letárgicos e preguiçosos; e não foram poucos os velhos

marinheiros que, com as mãos no abdômen, convocavam o pau

da bandeira a testemunhar que havia mais gente do que madeira

pregada no convés do Neversink.

Tais são os lamentáveis efeitos de súbita e completamente

liberar o povo de um navio de guerra de uma disciplina arbitrária.

Isso mostra que, para esses homens, a “liberdade” deve, a

princípio, ser administrada em pequenas e moderadas

quantidades, aumentando-a com a capacidade do paciente de

fazer bom uso dela.

Claro que, enquanto permanecemos no Rio de Janeiro, nossos

oficiais foram à costa em busca de diversão e, de modo geral,

agiram com propriedade. É, contudo, triste dizer que, no que toca

ao lugar-tenente Mad Jack, por três dias consecutivos ele se

divertiu tão desbragadamente na cidade que, retornando ao

navio, enviou seu cartão com cumprimentos ao cirurgião,

pedindo-lhe que fosse a seu camarote na primeira oportunidade

que tivesse de passar por lá em seu caminho pela praça-

d’armas.

Mas um dos auxiliares do cirurgião, um jovem estudante de

medicina de boa família e frágil fortuna, deve ter sido, de longe, o

responsável pelas mais fortes impressões causadas entre os

fidalgos do Rio de Janeiro. Ele lera Dom Quixote e, em vez de o

livro curar-lhe o quixotismo, como deveria ter sido o caso, apenas

o agravou. De fato, existem naturezas às quais, no tocante a

seus males morais, não vale a grande máxima do sr. Similia

Similibus Curantur Hahneman,285 uma vez que, com elas, iguais

não curam iguais, apenas os tornam piores. Embora, por outro

lado, tão incuráveis são os males morais de tais pessoas que a

máxima antagônica, contraria contrariis curantur, não raro se

prova igualmente falsa.

Num dia de calor tropical, esse auxiliar do cirurgião julgou

imperioso ir à costa em sua pelerine de uniforme azul, vestindo

com ele seus cavaleirescos ombros à intrépida maneira

espanhola. Ao meio-dia, ele transpirava aos borbotões; mas sua

capa atraía todos os olhares, e isso lhe causava não pouca

satisfação. O fato, porém, de ser genuvalgo e cambaio de uma

perna aumentava drasticamente o efeito de seu aristocrático traje

— o qual, a propósito, estava ligeiramente puído no ponto em

que seu queixo roçava o tecido e, de modo geral, bastante

deteriorado, uma vez que fora utilizado como cobertor na região

do cabo Horn.

Quanto aos aspirantes, não há como saber o que suas mães

teriam dito sobre sua conduta na cidade. Três deles exageraram

na bebida; e, quando vieram a bordo, o capitão ordenou que

fossem costurados a suas macas, para interromper suas

violentas brincadeiras até que ficassem sóbrios.

Isso mostra quão imprudente é permitir que crianças, não mais

que adolescentes, perambulem tão longe de casa. Ainda mais

especialmente, isso ilustra a loucura de dar-lhes longos períodos

de folga em terras estrangeiras, repletas de sedutor

desregramento. Porto para os homens, clarete para os meninos,

bradava dr. Johnson. Ainda assim, os homens só deviam beber o

vinho forte da viagem; e, quanto aos meninos, antes fossem

mantidos a leite e água em casa. Aspirantes! Vocês podem até

desprezar as andadeiras que suas mães usavam em vocês, mas

elas são os guarda-mancebos, meus jovens, pelos quais muitos

rapazes firmam o passo em meio à vertigem da juventude e

poupam-se de tristes quedas. E, aspirantes!, atenção: as crianças postas de pé muito cedo crescem com as pernas tortas

e diminuídas em suas justas e belas proporções. Isso há de se

provar moralmente certeiro com alguns de vocês,

prematuramente mandados ao mar.

Tais admoestações são dirigidas apenas à mais diminuta

classe dos aspirantes — os que têm um metro e meio de altura e

pesam menos de quarenta e cinco quilos.

Na verdade, os registros dos alojamentos dos aspirantes dos

navios de guerra estão repletos dos mais tristes exemplos de

libertinagem precoce, desgraça e morte. Respondam, ó sombras

dos belos meninos que tão longe dormem de casa, na terra e na

lama de todos os climas ao redor do mundo.

Mães dos homens! Se sentiram o coração esmorecer quando

seus meninos caíram em tentação em terra firme, que dor não

sentiriam se soubessem que esses meninos tão longe estão de

seus braços, confinados e encaixotados por todas as formas de

iniquidade. Algumas dentre vocês, porém, descreem de tal

realidade. Talvez seja melhor assim.

Segurem-nos com firmeza, porém — todos os que ainda não

içaram suas âncoras para perambular com a Marinha —, e, volta

após volta, prendam neles suas andadeiras, apertem o nó de

bolina na cavilha de arganéu na coluna da lareira, e atraquem

seus meninos no melhor dos ancoradouros, o lar.

Mas, se a juventude é irrefletida, a velhice é serena; assim

como o tronco jovem, na flexibilidade de seus galhos, toca as

próprias raízes sob a brisa leve da manhã; e os troncos duros e

inflexíveis, repletos de musgo, jamais se curvam. Com orgulho e

prazer que se diga que, quanto ao nosso velho comodoro, embora pudesse conceder a si tantos “dias de liberdade” quantos

quisesse, durante nossa permanência no Rio de Janeiro

comportou-se com absoluta discrição.

Entretanto, era um homem velho; fisicamente muito pequeno;

sua espinha era como o cano de um mosquete descarregado —

não somente frágil, mas destituído do mínimo projétil; suas

costelas não diferiam das de um furão.

Ademais, era comodoro da Armada, o senhor supremo da

plebe em anil. Adequava-se a ele, portanto, erigir-se como

modelo e ensinar à coberta dos canhões o significado da Virtude.

Mas, ai!, quando a Virtude se senta ao alto, à popa de uma

fragata, quando a Virtude é coroada no camarote sob a forma de

um comodoro, quando a Virtude rege por compulsão e domina o

Vício como se este fosse um escravo — então a Virtude, não

obstante suas ordens sejam externamente cumpridas, pouco

influencia o íntimo. Para ser eficaz, a Virtude deve descer de

suas alturas, à imagem de nosso Redentor, que veio dos céus

para a redenção de todo o navio de guerra de nosso mundo,

misturando-se igualmente a seus marinheiros e pecadores.