Jaqueta Branca
54. O povo ganha “liberdade”
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O povo ganha “liberdade”
S , em intervalos de gentil benevolência, ou cedendo a
meros princípios políticos, reis e comodoros relaxam o jugo da
servidão, ambos cuidam de que a concessão não pareça tão
súbita ou despropositada; pois, na estima do vulgo, o mesmo
poderia significar medo ou fraqueza.
Daí que, embora o nobre Jack tenha obtido ganho de causa
em sua audiência no mastro, mais de trinta e seis horas tenham
se passado antes que qualquer oficial ouvisse falar da “liberdade”
que seus companheiros de fragata tão intrepidamente
desejavam. Alguns homens do povo começavam a grunhir e a
murmurar, descontentes.
“Era mentira, Jack”, disse um deles.
“Maldito comodoro!”, bradou outro. “Ele enrolou você, Jack.”
“Descansem os remos um instante”, respondeu Jack, “e
veremos; lutamos pela liberdade, e a liberdade teremos! Sou o
tribuno da marinhagem, rapazes, o Rienzi282 do convés. O
comodoro vai cumprir com sua palavra.”
No dia seguinte, mais ou menos à hora do desjejum, escutou-
se um forte estridor de apito e flauta na escotilha principal e, em
seguida, a voz do contramestre se ouviu. “Escutem aqui, de proa e popa! Todos do quarto de estibordo! Preparem-se para ir à
costa em licença!”
Num ataque de alegria, um jovem gajeiro de mezena, postado
então no convés, arrancou o chapéu da cabeça e atirou-o como
uma panqueca no convés. “Liberdade!”, gritou, descendo
saltitante à coberta em busca de sua sacola.
Na hora combinada, o quarto de turno se reuniu em torno do
cabrestante, diante do qual estava nosso velho primeiro lorde do
Tesouro e mestre-pagador geral, o almoxarife, com muitos e bem
fornidos sacos de pele de veado cheios de dinheiro, empilhados
sobre o cabrestante. Ele nos serviu a todos de meio punhado de
moedas ou coisa do gênero, e então os botes foram tripulados e,
como muitos Esterhazys,283 fomos conduzidos à costa por
nossos companheiros de navio. Os lordes são capazes de
consumir uma vida inteira em letargia; mas basta que seja dado
aos comuns um dia de folga, e eles se mostrarão mais senhoriais
que o próprio comodoro.
A companhia do navio estava dividida em quatro seções ou
quartos de turno; assim, apenas um ia à costa por vez, com o
restante permanecendo para guarnecer a fragata. Cada grupo
teria vinte e quatro horas de licença.
Com Jack Chase e alguns outros prudentes cavalheiros da
gávea, fui à costa no primeiro dia, com o primeiro quarto de
turno. Nosso pequeno grupo viveu momentos encantadores;
vimos muitas belas paisagens; e — como todos os marinheiros
— vivemos alegres aventuras. Embora alguns bons capítulos
pudessem ser escritos sobre tal assunto, devo mais uma vez me
conter; pois neste livro, no que toca à costa, não tenho mais a fazer do que observá-la, vez por outra, da água; apenas o mundo
de meu navio de guerra deve suprir-me do fundamental de minha
matéria; jurei manter-me sobre as águas até a última letra de
minha narrativa.
Tivessem todos sido tão pontuais quanto o grupo de Jack
Chase, todo o quarto de turno de homens em licença teria estado
a salvo a bordo da fragata no expirar de vinte e quatro horas.
Mas não foi o caso; e, durante o dia todo que se sucedeu, os
aspirantes e outros empenharam-se em desentocá-los de seus
esconderijos na costa e trazê-los ao navio em destacamentos
dispersos.
Eles chegavam em todos os estágios imagináveis de
embriaguez; alguns com olhos roxos e machucados na cabeça;
outros ainda mais feridos, esfaqueados em brigas com soldados
portugueses. Outros, ilesos, eram imediatamente lançados à
coberta dos canhões, entre as baterias, onde passavam todo o
resto do dia roncando. Como um considerável grau de licença é
invariavelmente permitido aos homens de um navio de guerra
“em liberdade”, e estes bem o sabem, eles ocasionalmente se
permitem o privilégio de falar francamente com os oficiais quando
cruzam o passadiço, tomando cuidado, entrementes, de
cambalear com destreza, de modo que não restem dúvidas sobre
estarem seriamente bêbados e de todo fora de si no momento. E,
embora poucos deles tenham razões para afetar a bebedeira,
nessas ocasiões alguns indivíduos suscitam a suspeita de
estarem interpretando um papel estudado. Na verdade — a julgar
por certos sintomas —, mesmo quando de fato embriagados,
alguns marinheiros determinam previamente tal conduta; como algumas pessoas que, antes de inalar gás do riso, decidem
secretamente fazer loucuras sob tal influência — as quais
consequentemente são compreendidas como se os respectivos
atores não fossem responsáveis por seus atos.
Por muitos dias, enquanto se dava licença a outros quartos de
turno, o Neversink mostrou-se um triste cenário. Era mais um
hospício que uma fragata; a coberta dos canhões reverberava na
fúria das brigas, dos gritos e da música. Todos os visitantes da
costa eram mantidos à distância de um cabo.
Tais cenas, porém, nada eram diante das que repetidas vezes
se passavam em navios de guerra americanos em outros portos.
Mas o costume de permitir a presença de mulheres a bordo
quando atracados é hoje bastante incomum, nas Marinhas
inglesa e americana, a não ser que o navio, comandado por um
capitão dissoluto, esteja em algum porto distante e estranho, nos
oceanos Pacífico ou Índico.
O Royal George, um navio de linha de batalha britânico que,
em 1782, afundou em Spithead, tinha consigo trezentas mulheres
inglesas entre as mil almas que se afogaram naquela manhã
memorável.284
Quando, por fim, passado todo o louco tumulto e disputa da
“Liberdade”, surgiram as consequências, e nossa fragata
apresentou cenário bem diverso. Os homens pareciam exaustos
e fracos, letárgicos e preguiçosos; e não foram poucos os velhos
marinheiros que, com as mãos no abdômen, convocavam o pau
da bandeira a testemunhar que havia mais gente do que madeira
pregada no convés do Neversink.
Tais são os lamentáveis efeitos de súbita e completamente
liberar o povo de um navio de guerra de uma disciplina arbitrária.
Isso mostra que, para esses homens, a “liberdade” deve, a
princípio, ser administrada em pequenas e moderadas
quantidades, aumentando-a com a capacidade do paciente de
fazer bom uso dela.
Claro que, enquanto permanecemos no Rio de Janeiro, nossos
oficiais foram à costa em busca de diversão e, de modo geral,
agiram com propriedade. É, contudo, triste dizer que, no que toca
ao lugar-tenente Mad Jack, por três dias consecutivos ele se
divertiu tão desbragadamente na cidade que, retornando ao
navio, enviou seu cartão com cumprimentos ao cirurgião,
pedindo-lhe que fosse a seu camarote na primeira oportunidade
que tivesse de passar por lá em seu caminho pela praça-
d’armas.
Mas um dos auxiliares do cirurgião, um jovem estudante de
medicina de boa família e frágil fortuna, deve ter sido, de longe, o
responsável pelas mais fortes impressões causadas entre os
fidalgos do Rio de Janeiro. Ele lera Dom Quixote e, em vez de o
livro curar-lhe o quixotismo, como deveria ter sido o caso, apenas
o agravou. De fato, existem naturezas às quais, no tocante a
seus males morais, não vale a grande máxima do sr. Similia
Similibus Curantur Hahneman,285 uma vez que, com elas, iguais
não curam iguais, apenas os tornam piores. Embora, por outro
lado, tão incuráveis são os males morais de tais pessoas que a
máxima antagônica, contraria contrariis curantur, não raro se
prova igualmente falsa.
Num dia de calor tropical, esse auxiliar do cirurgião julgou
imperioso ir à costa em sua pelerine de uniforme azul, vestindo
com ele seus cavaleirescos ombros à intrépida maneira
espanhola. Ao meio-dia, ele transpirava aos borbotões; mas sua
capa atraía todos os olhares, e isso lhe causava não pouca
satisfação. O fato, porém, de ser genuvalgo e cambaio de uma
perna aumentava drasticamente o efeito de seu aristocrático traje
— o qual, a propósito, estava ligeiramente puído no ponto em
que seu queixo roçava o tecido e, de modo geral, bastante
deteriorado, uma vez que fora utilizado como cobertor na região
do cabo Horn.
Quanto aos aspirantes, não há como saber o que suas mães
teriam dito sobre sua conduta na cidade. Três deles exageraram
na bebida; e, quando vieram a bordo, o capitão ordenou que
fossem costurados a suas macas, para interromper suas
violentas brincadeiras até que ficassem sóbrios.
Isso mostra quão imprudente é permitir que crianças, não mais
que adolescentes, perambulem tão longe de casa. Ainda mais
especialmente, isso ilustra a loucura de dar-lhes longos períodos
de folga em terras estrangeiras, repletas de sedutor
desregramento. Porto para os homens, clarete para os meninos,
bradava dr. Johnson. Ainda assim, os homens só deviam beber o
vinho forte da viagem; e, quanto aos meninos, antes fossem
mantidos a leite e água em casa. Aspirantes! Vocês podem até
desprezar as andadeiras que suas mães usavam em vocês, mas
elas são os guarda-mancebos, meus jovens, pelos quais muitos
rapazes firmam o passo em meio à vertigem da juventude e
poupam-se de tristes quedas. E, aspirantes!, atenção: as crianças postas de pé muito cedo crescem com as pernas tortas
e diminuídas em suas justas e belas proporções. Isso há de se
provar moralmente certeiro com alguns de vocês,
prematuramente mandados ao mar.
Tais admoestações são dirigidas apenas à mais diminuta
classe dos aspirantes — os que têm um metro e meio de altura e
pesam menos de quarenta e cinco quilos.
Na verdade, os registros dos alojamentos dos aspirantes dos
navios de guerra estão repletos dos mais tristes exemplos de
libertinagem precoce, desgraça e morte. Respondam, ó sombras
dos belos meninos que tão longe dormem de casa, na terra e na
lama de todos os climas ao redor do mundo.
Mães dos homens! Se sentiram o coração esmorecer quando
seus meninos caíram em tentação em terra firme, que dor não
sentiriam se soubessem que esses meninos tão longe estão de
seus braços, confinados e encaixotados por todas as formas de
iniquidade. Algumas dentre vocês, porém, descreem de tal
realidade. Talvez seja melhor assim.
Segurem-nos com firmeza, porém — todos os que ainda não
içaram suas âncoras para perambular com a Marinha —, e, volta
após volta, prendam neles suas andadeiras, apertem o nó de
bolina na cavilha de arganéu na coluna da lareira, e atraquem
seus meninos no melhor dos ancoradouros, o lar.
Mas, se a juventude é irrefletida, a velhice é serena; assim
como o tronco jovem, na flexibilidade de seus galhos, toca as
próprias raízes sob a brisa leve da manhã; e os troncos duros e
inflexíveis, repletos de musgo, jamais se curvam. Com orgulho e
prazer que se diga que, quanto ao nosso velho comodoro, embora pudesse conceder a si tantos “dias de liberdade” quantos
quisesse, durante nossa permanência no Rio de Janeiro
comportou-se com absoluta discrição.
Entretanto, era um homem velho; fisicamente muito pequeno;
sua espinha era como o cano de um mosquete descarregado —
não somente frágil, mas destituído do mínimo projétil; suas
costelas não diferiam das de um furão.
Ademais, era comodoro da Armada, o senhor supremo da
plebe em anil. Adequava-se a ele, portanto, erigir-se como
modelo e ensinar à coberta dos canhões o significado da Virtude.
Mas, ai!, quando a Virtude se senta ao alto, à popa de uma
fragata, quando a Virtude é coroada no camarote sob a forma de
um comodoro, quando a Virtude rege por compulsão e domina o
Vício como se este fosse um escravo — então a Virtude, não
obstante suas ordens sejam externamente cumpridas, pouco
influencia o íntimo. Para ser eficaz, a Virtude deve descer de
suas alturas, à imagem de nosso Redentor, que veio dos céus
para a redenção de todo o navio de guerra de nosso mundo,
misturando-se igualmente a seus marinheiros e pecadores.