Jaqueta Branca
83. Faculdade num navio de guerra
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Faculdade num navio de guerra
E , a vida entra por um passadiço, e
por outro a morte vai ao mar. Sob o açoite na fragata,
imprecações e lágrimas se misturam; e os suspiros e soluços
fornecem o baixo para a oitava estridente daqueles que riem para
afogar as mágoas enterradas em si mesmos. No momento do
enterro de Shenly, o jogo de damas era jogado no poço; e,
enquanto o corpo afundava, um jogador vencia a partida. As
bolhas na superfície do mar mal tinham se desfeito quando toda
a marinhagem foi convocada ao apito do contramestre, e as
velhas piadas se fizeram ouvir, como se o próprio Shenly
estivesse ali para escutá-las.
Não escapei de endurecer na vida na fragata. Não posso parar
para lamentar a morte de Shenly; não seria verdade na vida que
retratei; sem véus de luto, retomo o propósito de retratar nosso
mundo flutuante.
Entre os muitos outros ofícios, todos levados ao seio do
convés do Neversink, havia o de mestre-escola. Eram duas as
academias a bordo. Uma compreendia os aprendizes, que, em
certos dias da semana, eram doutrinados nos mistérios da
cartilha por um cabo inválido dos fuzileiros, homem magro, de rosto seco e vincado, que recebera educação liberal numa escola
primária.
A outra escola era muito mais pretensiosa — uma espécie de
seminário de Exército e Marinha combinados, no qual místicos
problemas matemáticos eram resolvidos pelos aspirantes, e
grandes navios de carga eram conduzidos sobre cardumes
imaginários a partir de feéricas observações da lua e das
estrelas, e palestras eruditas acerca de grandes canhões,
pequenas armas, e as parábolas traçadas pelas balas no ar eram
dadas.
Professor era o título concedido ao douto cavalheiro que
conduzia esse seminário, e unicamente por ele era conhecido de
todo o navio. Ele vivia na praça-d’armas e circulava por ali em
igualdade com o almoxarife, o cirurgião e outros não
combatentes e quacres. Por ser elevado à dignidade de um igual
na praça-d’armas, ciência e saber eram enobrecidos na pessoa
desse Professor, assim como a teologia era honrada na figura do
capelão, que desfrutava da condição de par espiritual.
Em tardes intercaladas, em alto-mar, o Professor reunia seus
pupilos a meia-nau, próximo aos longos canhões de vinte e
quatro libras. Um bumbo fazia-lhe as vezes de mesa, e seus
pupilos formavam um semicírculo ao seu redor, sentados em
caixas de munição e barris de pavio.
Eles ainda viviam o sumo informe da juventude, e esse erudito
Professor derramava em seus suscetíveis corações todas as
mais gentis máximas explosivas da guerra. Presidentes das
Sociedades de Paz e Superintendentes das Escolas de Catecismo, não acham que é uma das visões mais
interessantes?
Mas o próprio Professor era figura notável e digna de
comentário. Um homem alto, magro e de óculos, contando seus
quarenta anos, com os ombros abaulados como os de um
estudante e pantalonas incrivelmente curtas, as quais deixavam
à mostra uma indevida proporção de suas botas. Quando jovem,
fora cadete na Academia Militar de West Point;398 porém,
quedando com a visão bastante deficiente; e, portanto,
praticamente desqualificado para a ação no campo de batalha,
desistiu de ingressar no Exército e aceitou o posto de professor
na Marinha.
Seus estudos em West Point o haviam dotado de sólido saber
em artilharia; e, como não fosse pouco pedante, era divertido às
vezes, enquanto os marinheiros praticavam seus exercícios de
posto de combate, escutá-lo criticar-lhes as evoluções nas
baterias. Ele citava o Tratado do dr. Hutton sobre o assunto,
assim como O artilheiro francês, no original, fechando com
passagens italianas extraídas da Prattica Manuale
dell’Artiglieria.399
Embora não fosse requerido pelas normas da Marinha instruir
seus alunos em nada além da aplicação da matemática à
navegação, além disso — bem como da introdução à teoria da
artilharia —, o Professor também procurava fundamentá-los na
teoria das táticas de fragata e esquadra. A bem da verdade, ele
próprio não sabia como coser um cabo ou ferrar uma vela; e,
devido a seu gosto por café forte, tendia a ficar bastante nervoso
quando disparávamos os canhões em saudação; isso, porém, não o impedia de dar palestras sobre canhonadas e sobre
“romper as linhas inimigas”.
Ele chegara a tal conhecimento sobre estratégia de guerra por
estudo silencioso e solitário e profunda meditação no isolado
retiro de seu camarote. Seu caso era, de certa forma, similar ao
do escocês — John Clerk, Esq., de Eldin — que, embora jamais
tivesse estado no mar, escreveu um tratado in-quarto sobre
batalhas navais, permanecendo até hoje um importante autor
escolar; além de ter originado uma manobra náutica que deu
muitas vitórias à Inglaterra sobre seus inimigos.400
Havia uma enorme lousa, algo como um alvo de canhão — à
diferença deste, porém, quadrada —, que, durante as palestras
do Professor, era posta de pé na coberta dos canhões, apoiada
na face traseira por três paus de carga. Nela, ele desenhava a
giz diagramas de grandes batalhas entre esquadras; fazia
marcações, como solas de sapatos, no lugar dos navios, e
desenhava um catavento a um canto para denotar a direção
presumida do vento. Feito isto, com um cutelo ele indicava todos
os pontos de interesse.
“Agora, jovens cavalheiros, a lousa diante dos senhores traz a
disposição da esquadra britânica das Índias Ocidentais sob o
comando de Rodney, quando, na manhã de 9 de abril, no ano do
Senhor de 1782, ele descobriu parte da armada francesa,
comandada pelo conde de Grasse, ancorada no extremo norte
da ilha de Dominica. Diante de tal situação, o almirante deu o
sinal para os navios de linha britânicos se prepararem para a
batalha e permanecerem a postos. Entenderam, jovens
cavalheiros? Ora, com a vanguarda britânica tendo praticamente alcançado o centro do inimigo… que, é bom lembrar, estava na
amura de estibordo… e o centro e a retaguarda de Rodney ainda
sob o efeito de uma calmaria, a sotavento da ilha… a pergunta
que faço é: o que Rodney devia fazer?”401
“Mandar bala, imediatamente!”, respondeu um aspirante
confiante, que avaliara com cuidado o diagrama.
“Mas, senhor, centro e retaguarda ainda estão sob os efeitos
da calmaria, e a vanguarda ainda não está próxima do inimigo.”
“É só esperar até que fique a uma boa distância, e então
mandar bala”, disse o aspirante.
“Permita-me observar, sr. Pert, que ‘mandar bala’ não é,
estritamente falando, termo técnico; e também permita-me
sugerir, sr. Pert, maior e mais profunda ponderação sobre o
assunto antes de dar a conhecer sua opinião.”
Essa reprimenda não só desconcertou o sr. Pert como, por
alguns instantes, intimidou o restante da turma; e o Professor foi
obrigado a dar sequência e conduzir, ele próprio, a esquadra
britânica. Concluiu dando ao almirante Rodney a vitória, que
deve ter sido mais do que gratificante ao orgulho familiar dos
parentes e amigos que sobreviveram a tão ilustre herói.
“Posso limpar o quadro, senhor?”, perguntou o sr. Pert,
animando-se.
“Não, senhor; não até que tenha salvado aquele navio francês
bastante avariado ao canto. Esse navio, jovens cavalheiros, é o
Glorieuse;402 percebam que está completamente isolado de sua
esquadra, e todos os barcos britânicos o estão perseguindo. O
gurupés se foi; o leme está destruído; o casco tem mais de uma
centena de tiros de canhão; e dois terços dos marinheiros estão mortos ou morrendo. O que se deve fazer? O vento está
soprando a nordeste ou norte?”
“Bom, senhor”, disse o sr. Dash, um cavalheiresco jovem da
Virgínia, “eu não me renderia ainda; içaria minha bandeira no
mastaréu de sobrejoanete do mastro principal! Por Júpiter, eu o
faria!”
“Isso não vai salvar seu navio, senhor; ademais, o senhor
perdeu o mastro principal.”
“Eu acho, senhor”, disse o sr. Slim,403 um jovem acanhado,
“acho, senhor, que ferraria novamente o velacho.”
“E por quê? De que adiantaria, eu gostaria de saber, sr. Slim?”
“Não sei dizer exatamente, mas acho que poderia ajudar um
pouco”, foi sua tímida resposta.
“Nem um pouco, senhor… nem um mínimo; ademais, não
pode ferrar de volta seu velacho… seu mastro de traquete está
caído sobre o castelo de proa.”
“Ferrar de volta a vela de mezena do mastro principal, então”,
sugeriu outro.
“Não pode ser feito; seu mastro principal também se perdeu!”
“A mezena de gata?”, sugeriu o pequeno e dócil Rolha de
Bote.
“Sua gávea de gata, devo informar, senhor, foi derrubada no
início da batalha!”
“Bom, senhor”, exclamou o sr. Dash, “eu viraria de bordo, de
qualquer forma; acenaria com injúrias; pregaria minha bandeira
na quilha, se não houvesse outro lugar; e iria à popa e lá me
daria um tiro na cabeça!”
“Fantasia, fantasia, senhor! Pior que fantasia! Está se deixando
levar, sr. Dash, por seu ardente temperamento sulista! Saibam,
jovens cavalheiros, que este navio”, tocando-o com seu cutelo,
“não pode ser salvo.” Em seguida, largando o cutelo, disse: “Sr.
Pert, tenha a bondade de passar-me uma daquelas balas de
canhão da chaleira”.
Equilibrando a esfera de ferro com uma das mãos, o erudito
professor começou a tocá-la com os dedos da outra, como
Colombo ilustrando a rotundidade do globo diante da Comissão
Real de Sacerdotes de Castela.
“Jovens cavalheiros, retomo meus comentários sobre a
passagem de um tiro in vacuo, interrompidos ontem pelos
exercícios de posto de combate. Depois de citar aquela
admirável passagem de O artilheiro inglês, de Spearman, eu
então disse, como devem recordar, que o caminho de um tiro no
vácuo descreve uma parábola. Acrescento agora que, seguindo o
método do ilustre Newton no tocante à questão do movimento
curvilíneo, considero a trajetória ou curva descrita por um corpo
movente no espaço como composta por uma série de linhas
retas, descritas em sucessivos intervalos de tempo, e
constituindo as diagonais dos paralelogramas formados num
plano vertical entre as deflexões verticais causadas pela
gravidade e a produção da linha de movimento descrita a cada
intervalo precedente de tempo. Isso há de ser óbvio; pois, se os
senhores dissessem que a passagem in vacuo dessa bala de
canhão, agora em minha mão, descreveria outra coisa que não
as séries diagonais de linhas retas etc., então incorreriam numa reductio ad absurdum na qual as diagonais dos paralelogramas
são…”
“Homens, rizar velas de gávea!”, foi a ordem dos guardiões do
contramestre, varrendo os conveses como um trovão. A bala caiu
da mão do professor; os óculos caíram em seu nariz e a classe
se desfez em tumulto, com os estudantes subindo aos tropeções
as escadas com os marinheiros, que ouviam escondidos a aula.