Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 22 de 101

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Jaqueta Branca

19. A jaqueta no alto do mastro

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A jaqueta no alto do mastro

 

D chamar atenção a minha jaqueta branca,

que na mesma época quase me levou à morte.

Meu humor tende ao reflexivo, e no mar eu costumava subir à

gávea à noite, sentar-me numa das vergas superiores, cobrir-me

com minha jaqueta e perder-me em pensamentos. Em alguns

navios em que fiz isso, os marinheiros costumavam pensar que

eu fosse algum estudioso da astronomia — o que, em certa

medida, era realmente o caso — e que meu objetivo em subir à

gávea era ter uma melhor perspectiva das estrelas, supondo,

evidentemente, que eu fosse míope. Alguns dirão se tratar de

uma ideia bastante estúpida, mas não é o caso — pois, decerto,

a vantagem de se aproximar sessenta metros de um objeto não

deve ser subestimada. Estudar as estrelas sobre a amplidão

infinita do mar é tão divino quanto era aos magos caldeus, que

observavam as revoluções celestes da planície.124

E é um sentimento bastante reconfortante, que nos funde com

o universo das coisas e nos transforma em parte do Todo, pensar

que, por onde quer que nós, peregrinos dos oceanos,

naveguemos, teremos as mesmas, vetustas e gloriosas estrelas

a nos fazer companhia; que elas continuarão a brilhar a nossa

frente e para todo o sempre, lindas e luzentes, seduzindo-nos, com cada um de seus raios, para nelas nos perdermos e nelas

conhecermos a glória.

Sim! Sim! Nós, marinheiros, não navegamos em vão.

Expatriamo-nos para ganhar cidadania do universo; e, em todas

as nossas viagens ao redor do mundo, ainda somos

acompanhados daquelas velhas circum-navegadoras, as

estrelas, companheiras de bordo e de faina — singrando o azul

do céu como nós o azul dos mares. Que os mais afetados façam

pouco de nossas mãos calejadas, de nossas unhas sujas de

alcatrão — eles alguma vez apertaram mãos mais verdadeiras

que as nossas? Que sintam nossos valorosos corações batendo

como o malho nas bigornas quentes que são nossos peitos; que

com o âmbar nos punhos de suas bengalas sintam nossos

nobres corações e constatem que estes batem com a explosão

de canhões de trinta e duas libras.

Oh! Quem me dera tivesse novamente a vida do aventureiro

pelos mares — o júbilo, a emoção, a ação! Quem me dera mais

uma vez te sentisse, velho mar!, mais uma vez sobre a tua sela.

Estou cansado dos aborrecimentos e preocupações de terra

firme; cansado da poeira e da fuligem das cidades. Que mais

uma vez escutasse o estrépito do granizo sobre os icebergs e

não o esforço arrastado dessa gente mole que abre

penosamente seu caminho tedioso do berço ao caixão. Quem me

dera sentir teu perfume, brisa do mar!, e gritar de alegria no

espargir de tuas águas. Permiti-me, deuses do mar! Intercedei

por mim junto a Netuno, ó doce Anfitrite, que nenhum torrão

desta aborrecida terra caia sobre o meu caixão!125 Que meu seja

o túmulo que engoliu o Faraó e suas hostes;126 que no fundo do

mar eu descanse ao lado de Drake.127

Mas, quando Jaqueta Branca fala sobre a vida do aventureiro,

ele não se refere à vida num navio de guerra, que, com suas

formalidades marciais e milhares de vícios, fere como uma adaga

no coração a alma leve dos mais nobres navegantes.

Como disse, eu tinha o hábito de subir à gávea e lá ficar

refletindo; e assim fiz na noite que se seguiu ao desaparecimento

do tanoeiro. Antes que fosse rendido em meu turno no topo do

mastro principal, me recostei na verga de sobrejoanete. A jaqueta

branca envolvia-me como o sobretudo congelado em torno de sir

John Moore.128

O sino dobrava as oito,129 meus companheiros de turno se

apressavam ao encontro de suas macas, o outro quarto ocupava

seus postos, a gávea abaixo de mim estava repleta de estranhos,

mas trinta metros acima deles eu estava em transe; ora

cochilando, ora sonhando; ora pensando em coisas passadas,

ora ocupando-me da vida futura. O último tema mostrou-se

bastante oportuno, pois a vida porvir estava muito mais próxima

de me surpreender do que eu então podia imaginar. Por fim,

talvez já estivesse mais ou menos consciente de uma voz

trêmula gritando da gávea na direção do sobrejoanete. Porém, se

assim aconteceu, a consciência logo voou para longe de mim,

deixando-me no Lete.130 Mas quando, como num relâmpago, a

verga cedeu sob mim e, instintivamente, agarrei-me com ambas

as mãos ao amantilho, voltei a mim num piscar de olhos e senti

como que uma mão apertando minha garganta. Por um instante

pensei que a corrente do Golfo131 em minha cabeça me engoliria num torvelinho rumo à eternidade; mas no instante seguinte vi-

me de pé; a verga fora arriada à altura da pega; sacudindo-me

em minha jaqueta, senti que saíra ileso e vivo.

Quem teria feito aquilo? Quem teria atentado contra a minha

vida?, pensei comigo, enquanto descia o cordame.

“Aí vem ele!… Deus do céu! Aí vem ele! É branco feito uma

maca.”

“Quem está vindo?”, gritei, saltando para dentro da gávea.

“Quem é branco feito uma maca?”

“Meu pai santíssimo, Bill, é o Jaqueta Branca… mais uma vez

esse inferno de gente!”

Aparentemente, eles tinham avistado um ponto branco

movendo-se no topo e, como sói aos marinheiros, tomaram-me

pelo fantasma do tanoeiro; e depois de terem me chamado e

pedido que descesse, para testar minha materialidade, sem obter

resposta, decidiram, por medo, largar a adriça.

Furioso, tirei a jaqueta e a lancei ao convés.

“Jaqueta”, disse eu, enérgico, “precisas mudar de aparência!

Precisas correr aos responsáveis pela tinta e te tingir, caso

contrário, não sobreviverei. Tenho só uma vida, jaqueta, e não

posso perdê-la. Não posso consentir ser assim atingido em teu

nome, mas em meu nome precisas ser tingida. Podes ser tingida

muitas vezes sem qualquer prejuízo; mas eu, seguidamente

atingido, me exponho a perda irreparável e a correr o risco

eterno.”

Assim, pela manhã, de jaqueta em punho, me encaminhei ao

primeiro lugar-tenente e relatei-lhe o risco que correra durante a

noite. Fui enfático na descrição dos perigos mais gerais de ser confundido com um fantasma pelos marinheiros e pedi-lhe com

firmeza que por um instante relaxasse suas ordens e solicitasse

a Pincel, o capitão do paiol de tintas, um pouco de tinta preta

para que, assim, eu pintasse minha jaqueta.

“Olhe para ela”, acrescentei, erguendo-a. “O senhor já viu algo

mais branco? Imagine como brilha durante a noite, mais ou

menos como um pedaço da Via Láctea. O senhor não pode

recusar um pouco de tinta.”

“O navio não tem tinta a desperdiçar”, ele disse. “Vai ter que se

virar sem ela.”

“Senhor, toda chuva me deixa ensopado; o cabo Horn está

próximo… seis pincéis de tinta a tornariam à prova d’água; e eu

nunca mais correria risco de vida!”

“Não posso fazer nada; vai embora!”

Sinto que, chegando ao fim de minha vida, as coisas não

ficarão bem para mim; pois, se meus pecados só serão

perdoados se da mesma forma eu perdoar aquele insensível e

indiferente primeiro lugar-tenente, não haverá perdão para mim.

Quê? Recusar uma demão de tinta que transformaria um

fantasma em homem, uma rede de arenques numa gabardina?

Estou farto. Sem mais.