Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 30 de 101

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Jaqueta Branca

27. Alguns pensamentos suscitados pela recusa de Mad Jack em obedecer a ordens superiores

27

Alguns pensamentos suscitados pela recusa de

Mad Jack em obedecer a ordens superiores

 

E , como a agulha diante do ímã, a

obediência em geral adere ao mais bem preparado para o

comando, sem se importar com hierarquias e patentes. A

verdade disso pareceu demonstrada no caso de Mad Jack

durante a tempestade e, em especial, no temerário instante em

que ele contrariou as ordens do capitão ao leme. Toda a

marinhagem sabia, na ocasião, que a ordem do capitão era

absolutamente descabida; ou talvez pior do que descabida.

Os dois comandos dados, pelo capitão e seu lugar-tenente,

mostravam-se em contradição com suas posições. Ao ordenar

todo o leme a estibordo, o capitão pretendia deixar-nos com o

vento à popa; isto é, fugir da tempestade. Já Mad Jack queria

enfrentá-la cara a cara. É desnecessário dizer que, em quase

todos os casos de vendavais e borrascas similares, a segunda

decisão, embora levada a termo por semblantes mais

amedrontados, é, em verdade, a mais segura das duas e

geralmente a mais tomada.

Manter o vento em popa transforma o navio em escravo das

rajadas, que o carregam impetuosamente adiante; mas navegar

contra o vento possibilita, de certa forma, controlá-lo. Com o vento em popa, a parte mais fraca do casco se expõe à

tempestade; a direção contrária dá ao temporal a proa, que é a

mais forte. Navios são como homens — aquele que vira as

costas ao inimigo lhe dá vantagem; enquanto nossos peitos, tão

cheios de costelas quanto o casco de uma fragata, são como o

anteparo para conter uma investida inimiga.

Naquela noite, diante da arfagem no cabo, o caráter do capitão

Claret ficou a nu, expondo-se em suas verdadeiras cores num

momento em que sua coragem foi testada. Algo que a marujada

havia muito suspeitava provou-se, então, verdadeiro. Até aquele

momento, ao caminhar pelo convés e lançar olhares aos

homens, o repouso curiosamente opaco dos olhos do capitão,

seus passos desnecessariamente metódicos, lentos, constantes,

e a firmeza forçada de seus modos como um todo, ainda que

para um observador de ocasião pudessem parecer a expressão

da consciência do comando, bem como de um desejo de impor

submissão à tripulação, para algumas mentes eram apenas

supostas indicações do fato de que o capitão Claret, enquanto se

abstinha cuidadosamente de notórios excessos, mantinha-se a

todo tempo num equilíbrio incerto entre a sobriedade e seu

inverso; uma vez que o equilíbrio fosse passível de destruição ao

primeiro e mais agudo revés.

E, embora essa seja apenas a conjectura de alguém com

algum conhecimento de conhaque e humanidade, Jaqueta

Branca arrisca dizer que, fosse o capitão Claret um verdadeiro

abstêmio, talvez jamais tivesse dado a tão imprudente ordem de

colocar todo o leme a estibordo. Tanto ele poderia ter mantido a

calma e permanecido em sua cabine, assim como Sua Graciosa Majestade, o comodoro, quanto antecipado a ordem de Mad Jack

e vociferado: “Todo leme a bombordo”.

Para mostrar quão pouca verdadeira influência as mais

severas e restritivas leis por vezes têm, e quão espontâneo é o

instinto do discernimento em algumas mentes, deve-se ainda

registrar que, embora Mad Jack tivesse, no calor da hora,

contradito a ordem de um superior diante deste, os severos

Artigos de Guerra jamais foram aplicados contra ele, não

obstante ali se configurasse uma ofensa. No que fosse do

conhecimento de qualquer integrante da tripulação, o capitão

nunca ousou repreendê-lo por sua ousadia.

Foi dito que o próprio Mad Jack era afeito à bebida forte. De

fato. Mas aqui acabamos de ver nada menos que a virtude de se

estar numa posição que exige frieza constante e nervos de aço, e

o pesar de ocupar um posto que nem sempre exige tais

qualidades. Tão exata e metódica em todas as coisas era a

disciplina a bordo da fragata que, até certo ponto, o capitão

Claret estava dispensado de presenciar muito do que no navio

tinha lugar e, assim, talvez permanecesse aninhado em

segurança, deliciosamente a sotavento de seu licoreiro.

Porém, no que concerne a Mad Jack, era-lhe preciso cumprir

os quartos regulares de vigia e caminhar pelo convés à noite,

mantendo olhos vigilantes a barlavento. Daí que, no mar, Mad

Jack tratasse com zelo a necessidade de manter-se sóbrio,

embora, em tempo muito bom, por vezes conhecesse recaídas e

bebesse demais. Com o cabo Horn diante de si, porém, foi fiel a

seu juramento de temperança, até que o perigoso promontório

estivesse bem distante à popa.

O principal incidente da tempestade convida inevitavelmente à

questão: existem oficiais incompetentes na Marinha americana?

Isto é, incompetentes para a devida realização dos deveres que

lhes sejam delegados? Será possível que naquela intrépida

Marinha, que, durante a guerra passada, granjeou tanto daquilo

que se chama glória, existam hoje oficiais incompetentes?

Como nos acampamentos de terra firme, nos conveses de alto-

mar: os trompetes de uma vitória afogam os tambores abafados

de mil derrotas. Em certa medida, tal ideia faz justiça àqueles

eventos de guerra que são neutros em sua natureza e não dão

ensejo a renome ou desgraça. Ademais, assim como uma longa

fileira de números, conduzidos por um único numeral, se

estende, por mera força de aproximação, numa imensa soma

aritmética, em algumas magníficas batalhas uma multidão de

oficiais, cada qual ineficiente por si, congrega renome quando

reunidos e encabeçados por um número da grandeza de Nelson

ou Wellington.160 E a fama de tais heróis, sobrevivendo a si

mesmos, descende como herança a seus subordinados

sobreviventes. Um grande cérebro ou um amplo coração têm

virtude suficiente para magnetizar uma armada ou exército

inteiros. E se todos os homens que, desde o começo do mundo,

contribuíram enormemente para os sucessos ou reveses de

guerra fossem agora postos juntos, ficaríamos surpresos ao

contemplar apenas um punhado de heróis. Pois não há heroísmo

em tão somente aproximar ou afastar um canhão de uma

portinhola, encoberto de fumaça ou vapor, ou disparar mosquetes

em pelotão ao primeiro sinal de comando. Esse tipo de coragem

meramente mecânica não raro nasce de trêmulas agitações do coração. Existem homens que, individualmente covardes, podem,

unidos, exibir até mesmo audácia. De qualquer forma, seria falso

negar que, em alguns casos, os mais baixos soldados já se

comportaram com ainda mais bravura do que seus comodoros. O

verdadeiro heroísmo não está nas mãos, mas no coração e na

cabeça.

Mas existem oficiais incompetentes na valorosa Marinha

americana? Para um americano, a questão não é de tipo

aprazível. Jaqueta Branca deve novamente contorná-la,

referindo-se a um fato da história de uma Marinha irmã, que, por

seu longo prestígio e grandeza, fornece muito mais exemplos de

toda sorte do que a nossa própria. E essa é a única razão pela

qual é continuamente referida nesta narrativa. Agradeço a Deus

por estar livre de toda hostilidade nacional.

Registra-se, indiretamente, nos autos do almirantado inglês

que, no ano de 1808, depois da morte de lorde Nelson, quando

lorde Collingwood comandava o posto mediterrâneo, e a saúde

fragilizada o levava a solicitar uma licença, não foi encontrado um

oficial sequer dentro de uma lista de mais de cem almirantes

qualificado a render o requerente sem prejuízo do país.

Collingwood atestou o fato com a própria vida;161 pois, sem

esperança de ser chamado de volta, morreu pouco tempo depois,

esgotado, em seu posto. Ora, se esse era o caso numa Marinha

tão aclamada quanto a da Inglaterra, o que se pode inferir acerca

da nossa própria? Mas no presente caso nenhuma grande

desgraça está implicada. Pois a verdade é que, para ser um

consumado ou habilidoso generalíssimo naval são necessárias

aptidões invulgares. Além disso, pode-se afirmar, sem sombra de dúvida, que comandar dignamente mesmo uma fragata requer

um grau de heroísmo natural, talento, discernimento e

integridade que é negado à mediocridade. Não obstante, essas

qualificações não são apenas requeridas, como exigidas; e

ninguém tem o direito de ser um capitão naval a não ser que as

possua.

No que toca a lugares-tenentes, não são poucos os Michelos e

os marinheiros inexperientes na Marinha americana. Muitos

comodoros sabem que raras vezes conduzem um navio de linha

de batalha ao mar sem se sentirem mais ou menos nervosos

quando alguns dos lugares-tenentes comandam o convés à

noite.

Segundo o último censo naval (de 1849), são sessenta e oito

os capitães na Marinha americana, os quais custam anualmente

aos cofres públicos algo em torno de trezentos mil dólares; além

destes, são duzentos e noventa e sete comandantes, ao valor de

duzentos mil dólares; e trezentos e setenta e sete lugares-

tenentes, amealhando meio milhão; e quatrocentos e cinquenta e

um aspirantes (inclusos os promovidos à lugar-tenência

probatória), cujos soldos chegam ao montante de quase meio

milhão. Considerando o que é sabido de todos, que alguns

desses oficiais nunca ou quase nunca vão ao mar, o que se deve

à Secretaria Naval estar muito ciente de sua ineficiência; que

outros são destacados ao trabalho de escritório nos

observatórios ou de calculistas no levantamento topográfico da

costa; enquanto os oficiais de fato meritórios, que se tornam

competentes marinheiros, são enviados, como se sabe, de navio

em navio, com curtíssimos períodos de licença — considerando tudo isso, não é muito dizer que boa parte desse um milhão e

meio de dólares acima mencionados são anualmente pagos a

pensionistas do Estado disfarçados, que vivem da Marinha sem

servir a ela.

Nada semelhante se pode insinuar contra os oficiais de frente

(contramestres, artilheiros etc.), oficiais subalternos (capitães de

gávea etc.) ou contra os primeiros marinheiros da Marinha. Pois,

se qualquer um desses deixar de cumprir o que lhes é exigido, é

rebaixado ou dispensado.

De fato, a experiência ensina que, sempre que há um grande

órgão nacional empregando um grande número de oficiais, o

público deve se resignar a sustentar muitos homens

incompetentes; pois tal é o favorecimento e o nepotismo que

prevalecem invariavelmente nas franjas desses órgãos que

sempre se acolhe a incompetência de alguns indivíduos em

detrimento de muitas outras pessoas de valor.

Porém, num país como o nosso, que se vangloria da igualdade

política de todas as condições sociais, é uma grande vergonha

que sejam hoje em dia praticamente desconhecidos os casos de

marinheiros comuns promovidos à posição de oficiais

comissionados em nossa Marinha. Não obstante, noutros

tempos, quando os oficiais assim chegavam a suas patentes,

eles tinham geralmente se provado de grande utilidade no

cumprimento de suas funções e às vezes refletiam sólida honra

ao país. Exemplos nesse sentido podem ser elencados.

Não é bom que nossas instituições sejam feitas de um só

bloco? Qualquer americano em terra firme pode ter a esperança

de ser presidente da União — o comodoro de nossa esquadra de estados. Da mesma forma, todo marinheiro americano poderia

ser colocado em tal posição, de modo que pudesse aspirar

livremente ao comando de uma esquadra de fragatas.

Mas, se há uma boa razão para crer que há oficiais

incompetentes em nossa Marinha, temos ainda outras e mais

abundantes razões para saber que há oficiais nos quais natureza

e arte se unem para eminentemente qualificá-los a tais posições;

e aos quais servir a Marinha não apenas é uma honra, como a

ela fazem justiça.

E o único objetivo deste capítulo é apontar, como mérito

particular dos indivíduos, aquela reputação generalizada que a

maioria dos homens, talvez, esteja pronta a atribuir de maneira

indistinta ao todo, mas que pertence a cada um dos membros de

uma instituição militar popular.