Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 20 de 101

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Jaqueta Branca

17. Largar! Segundo, terceiro e quarto escaleres, largar!

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Largar! Segundo, terceiro e quarto escaleres, largar!

 

F a um desses exercícios de posto de

combate que resgatamos um salva-vidas, avistado à deriva nas

imediações do navio.

Era uma massa circular de cortiça, de aproximadamente vinte

centímetros de espessura e um metro e vinte de diâmetro,

coberta com lona alcatroada. Ao redor de toda a circunferência

prendiam-se nós de onde partiam cordas que terminavam em

curiosas cabeças de turco.118 Eram os cabos salva-vidas,

destinados aos náufragos. No miolo da cortiça havia uma vara

enfiada na transversal, menor do que uma haste de lança. Todo o

salva-vidas estava ornado de vieiras, e suas laterais

emaranhadas em algas marinhas. Golfinhos surgiam e brincavam

ao seu redor, e um pássaro branco planava em torno do topo da

vara. Havia muito tempo que devia ter sido lançado ao mar para

salvar algum pobre náufrago que provavelmente se afogou, o

salva-vidas flutuou para longe.

Os homens do castelo de proa o pescaram à vante; e a

marujada aglomerou-se em torno dele.

“Azar! Azar!”, exclamou o capitão da latrina.119 “Não vai

demorar pra gente ficar com um a menos.”

O tanoeiro do navio — cujas funções incluem verificar se os

salva-vidas estão em ordem — saiu de perto do grupo.

Nos vasos de guerra, noite e dia, semana após semana, dois

salva-vidas são mantidos pendurados à popa; e dois homens,

com machadinhas nas mãos, caminham de um lado para o outro,

preparados, ao primeiro aviso, para cortar-lhes a corda e lançá-

los ao mar. Como sentinelas em guarda, eles são rendidos a

cada duas horas. Cuidados similares não são adotados nas

marinhas mercante ou baleeira.

Profundamente atentas à preservação da vida humana são,

portanto, as regulações de um navio de guerra; e raras vezes

houve melhor ilustração de tal preocupação do que durante a

Batalha de Trafalgar, quando, depois de “muitos milhares” de

marinheiros franceses, segundo lorde Collingwood, terem sido

aniquilados e, segundo relatórios oficiais, seiscentos e noventa

ingleses terem sido mortos ou feridos, os capitães dos navios

restantes ordenaram que as sentinelas salva-vidas deixassem

seus mortíferos canhões e fossem para seus postos de

vigilância, como oficiais da Sociedade Filantrópica.120

“Ali, Batoque!”, gritou Escaramuça, um dos homens da âncora

d’esperança.121 “Tá aí um bom modelo pra você; vê se faz um

par de salva-vidas feito esse; alguma coisa capaz de salvar um

homem, não que fique cheio d’água e afunde junto com ele, feito

o que vai acontecer com esses seus barris furados assim que a

gente precisar deles. Um dia desses eu quase que caí da proa;

quando subi de volta, resolvi dar uma olhada neles. As tábuas

estavam todas abrindo. Que horror! Imagine você cair ao mar e se ver afundando em cima dos salva-vidas que você mesmo

fez… o que me diz disso?”

“Nunca subo o cordame e não pretendo cair no mar”,

respondeu Batoque.

“Cuidado com o que diz!”, devolveu o homem da âncora

d’esperança. “Vocês que ficam a passeio pelos conveses aqui e

ali estão mais perto do fundo do mar do que o marinheiro ligeiro

que solta a vela mais alta do mastro principal. Presta atenção,

Batoque… presta atenção!”

“Presto, sim”, retrucou Batoque. “Você também!”

No dia seguinte, mal nasceu o sol, despertei em minha maca

com o grito de “Marinheiros ao convés! Rizar velas!”. Subindo as

escadas, soube que, das mesas de guarnição, um marinheiro

fora ao mar;122 e, lançando um olhar à popa, pude perceber, a

partir dos gestos dos presentes, que as sentinelas haviam

lançado os salva-vidas.

Soprava uma brisa fresca; veloz, a fragata singrava as águas.

Mas os mil braços de quinhentos homens logo a viraram de

bordo e refrearam seu avanço.

“Estão vendo o homem?”, gritou o oficial do quarto de vigia

com seu porta-voz, chamando os homens da gávea do mastro

principal. “Homem ou salva-vidas, estão vendo alguma coisa?”

“Nada, senhor”, foi a resposta.

“Largar escaleres!”, foi a ordem seguinte. “Trompete! Convocar

as tripulações do segundo, terceiro e quarto escaleres.

Marinheiros ao cordame!”

Em menos de três minutos, as três embarcações estavam no

mar. Mais marinheiros foram requisitados num deles e, entre outros, embarquei para substituir a tripulação ausente.

“Agora, homens, remar! Atenção para onde apontam os remos,

e olho vivo!”, exclamou o oficial de nosso escaler. Por algum

tempo, no mais absoluto silêncio, subimos e descemos

navegando sobre a espuma dos imensos vagalhões do mar, mas

sem sucesso.

“Não adianta”, disse o oficial. “Ele se foi, seja lá quem for.

Remar, homens, remar! Logo eles vão nos chamar de volta.”

“E que se afogue!”, retrucou um dos homens ao remo. “Acabou

com a minha folga.”

“Quem era o pobre-diabo?”, perguntou outro.

“Alguém que morreu sem conhecer caixão!”, respondeu um

terceiro.

“Meus amigos, por ele ninguém jamais vai anunciar

‘Marinheiros, encomendar o morto’!”, disse um quarto.

“Silêncio”, ordenou o oficial, “e olho vivo.” Mas os dezesseis

remadores continuaram a falar; e, depois de remar por duas ou

três horas, avistamos a bandeira no topo do mastaréu de joanete

de proa nos convocando de volta e retornamos a bordo, sem

qualquer sinal mesmo dos salva-vidas.

Os botes foram içados, as vergas estaiadas, e assim seguimos

adiante — com um homem a menos.

“Toca mostra!”, foi, então, a ordem. Chamados um por um,

verificou-se que o tanoeiro era o único ausente.

“Eu disse, marujada”, falou o capitão da latrina, “disse que logo

perderíamos um homem.”

“Batoque, não é?”, devolveu Escaramuça, o homem da âncora

d’esperança. “Eu avisei que os salva-vidas dele não salvavam um homem se afogando; agora ele viu que eu tava certo!”