Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 73 de 101

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Jaqueta Branca

70. Revista mensal ao redor do cabrestante

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Revista mensal ao redor do cabrestante

 

A e das reuniões matinais e

noturnas para as preces a bordo do Neversink, no primeiro

domingo de cada mês havia ainda uma grande “revista ao redor

do cabrestante”, quando éramos solenemente inspecionados

diante do capitão e dos oficiais, que verificavam atentamente

nossas blusas e calças para ver se estavam de acordo com o

padrão da Marinha. Em alguns navios, é solicitado que todos os

homens levem seus sacos e macas para exame.

Tal cerimônia conhece sua maior solenidade, e para um neófito

torna-se até mesmo terrível, na leitura dos Artigos de Guerra, na

voz do secretário do capitão, diante da companhia do navio

reunida. Esta, em testemunho de sua reverência forçada ao

código, permanece de cabeça descoberta até que a última

sentença seja pronunciada.

Mesmo para um simples amador, a leitura tranquila desses

Artigos de Guerra pode causar desconfortos nervosos; imagine,

então, quais não eram os meus sentimentos quando, com meu

chapéu deferencialmente em mãos, ficava diante de meu mestre

e senhor, o capitão Claret, e escutava esses artigos como a lei e

o evangelho, o infalível e inapelável código e destino sob o qual vivia, trabalhava e tinha meu ser a bordo do Neversink, fragata

da Marinha americana.

De umas vinte transgressões tipificadas nesse código —

transformadas em crime — que um marinheiro pode perpetrar,

treze são puníveis com morte. “Há de pagar com a vida!” Eis o

castigo de praticamente todos os artigos lidos pelo secretário do

capitão; pois ele parecia ter sido instruído a omitir os mais longos

e apresentar apenas os que eram breves e sucintos.

“Há de pagar com a vida!” O anúncio reiterado cai em seus

ouvidos como a descarga intermitente da artilharia. Depois de ter

sido repetido inúmeras vezes, você escuta o leitor enquanto

deliberadamente começa um novo parágrafo; escuta o

envolvente, compreensível e claro arranjo da frase, detalhando

todos os possíveis particulares do crime descrito e, perdendo o

fôlego, espera se aquele parágrafo também será concluído pela

descarga do terrível canhão do luto. É quando, ai!, ele mais uma

vez explode em seu ouvido — há de pagar com a vida! Não há

exceções ou contingências; nem a mais remota promessa de

perdão ou suspensão da pena; nem um vislumbre de comutação

da sentença; toda esperança e consolo estão excluídos — há de

pagar com a vida! Esse é o simples fato que você precisa digerir;

e o bocado é mais indigesto, acredite em Jaqueta Branca quando

o diz, do que uma bala de canhão de quarenta e duas libras.

Mas há um lampejo de alternativa ao marinheiro que infringe

esses Artigos. Alguns deles assim terminam: “Há de pagar com a

vida, ou mediante punição a ser determinada por uma corte

marcial”. Mas isso não sugere um castigo ainda mais sério?

Talvez signifique “morte, ou punição pior”.

Excelentíssimos senhores da Inquisição espanhola, Loyola e

Torquemada!352 Tragam, reverendíssimos cavalheiros, seus mais

secretos códigos e comparem-nos a esses Artigos de Guerra, se

forem capazes. Jack Ketch, você também é experiente nessas

artes!353 Você, que é o mais benevolente dos mortais, que se

coloca diante de nós e se pendura ao redor de nossos pescoços,

quando o resto do mundo está contra nós — diz-nos, carrasco,

que punição é essa que horrivelmente se sugere pior do que a

morte? Será ler, de estômago vazio, esses Artigos de Guerra

todas as manhãs para dar cabo da vida natural de outrem? Ou

será ser preso numa cela cujas paredes estejam cobertas, do

chão ao teto, com cópias impressas, em itálico, desses Artigos

de Guerra?

Não é preciso demorar-se sobre o leite puro e borbulhante da

bondade humana e da caridade cristã e do perdão às injúrias que

permeia esse encantador documento, tão totalmente imbuído,

como código cristão, do benévolo espírito do Sermão da

Montanha.354 Mas, como acontece no caso de praticamente

todos os principais Estados da cristandade e como é

nacionalmente declarado por esses Estados, tais leis tornam-se,

indiretamente, um índice da verdadeira condição da atual

civilização do mundo.

Depois de, mês após mês, ficar de chapéu em mãos entre

meus companheiros de navio e escutar a leitura desse

documento, passei a pensar comigo nessas ocasiões: Ora, ora,

Jaqueta Branca, que triste passo você deu. Levante as orelhas

— aí vem outra bala de canhão. Ela o aconselha a acolher os

maus-tratos como algo bom e jamais fazer parte de qualquer assembleia pública que tenha lugar na coberta dos canhões para

a correção de injustiças e ressentimentos. Escute:

Art. : “Se qualquer pessoa na Marinha fizer ou tentar fazer qualquer assembleia

amotinadora, ela há de pagar, desde que sua culpa se determine em corte marcial,

com a vida”.

 

Meu Deus, Jaqueta Branca, você é um canhão de porte para

recuar aos extremos de sua culatra diante de tal disparo?

Mas atenção novamente. Aí vai outro disparo. Ele o aconselha

indiretamente a receber o mais aviltante dos insultos e não reagir

a ele:

Art. : “Nenhum marinheiro na Marinha há de desobedecer às ordens legais de seu

oficial superior, golpeá-lo, empurrá-lo ou sacar ou apontar qualquer arma contra ele

enquanto ele esteja na execução dos deveres de sua patente, sob pena de morte”.

 

Não corra à amurada, Jaqueta Branca; mantenha-se em

posição; pois aí vem mais um tiro — dessa vez para jamais cair

no sono:

Parte do Art. xx: “Se qualquer pessoa na Marinha cair no sono durante o turno, há de

pagar com a vida”.

 

Assassino! Mas então, em tempos de paz, eles não fazem

valer essas leis sedentas de sangue? Não mesmo? O que

aconteceu àqueles três marinheiros a bordo de um vaso de

guerra americano alguns meses atrás, ainda presentes na

memória, Jaqueta Branca, sim, enquanto estava a bordo dessa

fragata, o Neversink? O que aconteceu àqueles três americanos

— aqueles três marinheiros, iguais a você, que outrora estavam

vivos, mas agora jazem mortos? “Há de pagar com a vida!”,

foram as palavras que enforcaram aqueles três marinheiros.355

Tome cuidado, então, tome cuidado, se não quiser conhecer

num cabo o triste fim de sua vida; se não quiser se tornar, a

garganta negra e azul, um mergulhador falto de vida em busca

de pérolas; ou ser colocado em sono eterno, ensacado na própria

maca, no fundo do mar. E ali permanecerá, Jaqueta Branca,

enquanto Marinhas hostis brincarão de bilhar com balas de

canhão sobre o seu túmulo.

Próximo ao mastro principal, portanto, em tempo de profunda

paz, estou sujeito à degoladora lei marcial. E quando meu próprio

irmão, que por acaso vive em terra firme e não serve a seu pai

como agora o faço — quando ele está livre para dirigir-se ao

presidente dos Estados Unidos em pessoa e expressar sua

desaprovação a toda a administração nacional, aqui estou eu,

sujeito a ser a qualquer momento pendurado pelo pescoço numa

verga com um colar em que joalheiro nenhum pôs a mão!

Um caso difícil, realmente, Jaqueta Branca; não há, contudo, o

que se fazer. Sim; vive sob essa lei marcial. Mas não é verdade

que tudo ao redor silencia tal fato aos seus ouvidos? Duas vezes

por dia não salta ao seu posto sob o chamado de um tambor?

Toda manhã, no porto, não se levanta de sua maca ao som da

alvorada e se deita ao cair da noite ao toque de recolher? Todos

os domingos não recebe ordens quanto à própria vestimenta que

há de usar naquele abençoado dia? Não podem seus

companheiros beber o “dedo de grogue” deles? Ou ainda, podem

eles beber o menor copo d’água no bebedouro sem que uma

sentinela armada os vigie? Os oficiais não usam espadas no

lugar de bengalas? Você vive e caminha entre canhões de vinte e

quatro libras, Jaqueta Branca; as próprias balas de canhão são como ornamentos ao seu redor e servem para embelezar as

escotilhas; e caso venha a morrer no mar, Jaqueta Branca, ainda

assim duas balas de canhão hão de lhe fazer companhia quando

for endereçado às profundezas. Sim, por todos os métodos e

mecanismos e invenções, é momentaneamente lembrado do fato

de que você vive sob os Artigos de Guerra. E é graças a eles,

Jaqueta Branca, que, sem audiência ou julgamento, você pode,

ao piscar do capitão, ser condenado à chibata.

Isso é verdade? Então me deixe fugir!

Não, Jaqueta Branca, o horizonte sem terra o cerca.

Que uma tempestade, então, faça o mar inteiro se abater sobre

nós! Recifes e rochas escondidas, surjam e reduzam os navios a

destroços! Não nasci servo e não morrerei escravo! Rápido!

Redemoinhos, engulam-nos! Que o fim do mundo nos engula!

Não, Jaqueta Branca, ainda que essa fragata deposite os

próprios ossos quebrados nas praias antártidas da Terra de

Palmer;356 ainda que nem sequer duas tábuas mantenham-se

unidas; ainda que todos os seus canhões sejam destruídos pelas

lâminas dos peixes-espada e que tubarões de bocas

escancaradas entrem e saiam de suas escotilhas também

escancaradas — caso você escape ao naufrágio e consiga se

arrastar até a praia, essa lei marcial o encontrará e agarrará pela

garganta. Atenção!

Art. , parte da Seção 3: “Em todos os casos em que as tripulações dos navios ou

fragatas dos Estados Unidos se apartarem de sua embarcação por esta ter

naufragado, se perdido ou sido destruída, todo o comando, poder e autoridade dados

aos oficiais de tais navios e fragatas hão de permanecer tão efetivos e íntegros

quanto se tal navio ou fragata não tivesse naufragado, se perdido ou sido destruída”.

Escute, Jaqueta Branca! Não há escapatória. A bordo ou

náufrago, a lei marcial não relaxa seu jugo. E se, segundo esse

documento, fosse de fato condenado a “pagar com a vida”, ela o

caçaria pelo mundo inteiro e por toda a eternidade como uma

linha sem fim, passando pelo buraco de incontáveis agulhas, no

inevitável encalço do próprio ponto.