Jaqueta Branca
23. Representações dramáticas num navio de guerra
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Representações dramáticas num navio de guerra
O N N no verão equatorial; e
agora se destinava a celebrar o Quatro de Julho no inverno139 e
em latitudes não muito distantes do frígido cabo Horn.
É por vezes o costume na Marinha americana celebrar esse
feriado nacional dobrando a dose de bebida permitida aos
homens; quer dizer, desde que o navio esteja ancorado num
porto. Os efeitos desse plano patriótico podem ser facilmente
imaginados: o navio inteiro é convertido num bar; e os
marinheiros embriagados tropeçam de um lado para o outro, em
todas as três cobertas, cantando, gritando e brigando. Esse é o
momento em que, graças à disciplina relaxada do navio, antigas
e quase esquecidas disputas são reavivadas sob o estímulo da
bebida; e, ocupando os espaços de entre os canhões — como
quisessem um lugar desimpedido com pelo menos três paredes
—, os oponentes, aos pares, lutam e extravasam seu ódio, à
maneira de soldados que, confinados e cercados em baías,
duelassem numa guarita de vigília. Em suma, têm lugar cenas
que nem por um único instante seriam toleradas pelos oficiais em
qualquer outra ocasião. Esse é o momento em que os mais
veneráveis dos contramestres e mestres-artilheiros, juntamente
com os mais jovens aprendizes e marinheiros que jamais tinham se embebedado durante a viagem — é o momento em que todos
rolam juntos no mesmo cocho enlameado da bebida.
Rivalizando com os potentados da Idade Média, alguns
capitães aumentam o estardalhaço autorizando a liberação
generalizada dos prisioneiros que, nesse auspicioso quarto dia,
estejam sob confinamento na cadeia do navio, o brigue.
Felizmente, porém, o Neversink estava livre de cenas que tais.
Além de o navio estar próximo de região perigosíssima do
oceano — o que teria feito da embriaguez dos marinheiros um
ato de loucura —, sua completa carência de grogue, mesmo para
o consumo diário, era um obstáculo incontornável, ainda que o
capitão estivesse disposto a permitir que sua tripulação
incorresse nas mais desbragadas libações.
Por muitos dias que antecederam o advento da data
comemorativa, foram frequentes as reuniões na coberta dos
canhões tratando da melancólica situação em que o navio se
encontrava.
“Triste… triste demais!”, exclamou um gajeiro. “Pensem nisso,
homens… um Quatro de Julho sem grogue!”
“Vou descer a flâmula do comodoro a meio-mastro nesse dia”,
suspirou o quartel-mestre de sinalização.
“Ah, Bandeira, meu velho, e eu vou virar do avesso meu
melhor traje de uniforme para fazer companhia à flâmula”,
respondeu, compassivo, um dos homens da guarda de popa.
“Sim, faça isso!”, fez-lhe coro um homem do castelo de proa.
“Sou capaz de chorar só de pensar nisso.”
“Sem grogue pro dia que testou as força dos homi”,140 soluçou
Luz do Sol, o cozinheiro do navio.
“Quem vai querrer ser uma djanque agorra?”, gritou um gajeiro
da gávea de proa, mais holandês que um chucrute.
“É esse os fruto que a liberdade dá?”, perguntou, comovido,
um irlandês do poço a um velho espanhol da âncora
d’esperança.
Em geral se observa que, de todos os americanos, os cidadãos
nascidos no exterior são os mais patrióticos — em especial no
que toca ao Quatro de Julho.
Mas como poderia o capitão Claret, pai de sua tripulação, ver
com indiferença a dor de seus filhos do mar? Não poderia. Três
dias antes da data — com o clima ainda bastante agradável para
aquelas latitudes —, foi tornado público que se dava permissão
para que os marinheiros organizassem a representação teatral
que desejassem, com a qual fizessem as honras ao que se
celebrava.
Algumas semanas antes de o Neversink partir em viagem —
aproximadamente três anos antes do período aqui tratado —,
alguns dos marinheiros tinham se unido para comprar, num
esforço coletivo, um conjunto de figurinos de teatro com o
objetivo de diversificar a monotonia da permanência em portos
estrangeiros por semanas com ocasionais apresentações no
palco — embora, se algum dia houve um teatro contínuo no
mundo, com representações noite e dia e sem quaisquer
intervalos entre atos, um navio de guerra é esse teatro, e suas
tábuas o próprio palco.
Os marinheiros com quem o plano se originara tinham servido
em outras fragatas americanas, nas quais se concedia à
tripulação o privilégio de encenar peças. Qual não foi sua frustração quando, fazendo petição ao capitão, num porto
peruano, para a encenação do muito admirado O grumete
gatuno141 sob a patronagem pessoal do próprio, tal dignatário
garantiu-lhes que já eram muitos os grumetes gatunos a bordo e
que não era necessário aumentar-lhes o número fazendo-os
surgir da coxia.
Assim, os figurinos foram guardados no fundo das sacolas dos
marinheiros, que, à época, mal poderiam imaginar que eles um
dia sairiam dali enquanto o capitão Claret estivesse no comando.
Mas imediatamente após o anúncio do fim do embargo, uma
vigorosa preparação foi iniciada para celebrar o Quatro de Julho
com particular alegria. Destinou-se um espaço ao teatro logo
abaixo do espardeque, a meia-nau, e o quartel-mestre de
sinalização recebeu ordens de emprestar suas bandeiras para
decorá-lo à maneira mais patriótica.
Como a parte da tripulação mais afeita ao teatro ensaiara
trechos de variadas peças com alguma frequência, durante a
viagem, para espantar o tédio das vigílias, já não era necessário
tempo para o aperfeiçoamento dos papéis.
Assim, na mesma manhã em que a concessão fora feita pelo
capitão, o seguinte anúncio, um cartaz em letras garrafais, foi
encontrado preso ao mastro principal na coberta dos canhões.
Era como se um programa da Drury Lane142 tivesse sido pregado
no Monumento de Londres.143
TEATRO CABO HORN
* * * * * * * *
Grande celebração do Quatro de Julho
A VELHA CARRUAGEM TOMBADA!
. . . . .
Oportunidade única
O VERDADEIRO MARINHEIRO IANQUE
Os gerentes do Teatro Cabo Horn pedem licença para informar aos habitantes do
Pacífico e do Atlântico Sul que, na tarde do dia 4 de julho de 184-, terão a honra de
apresentar o admirável drama
A VELHA CARRUAGEM TOMBADA!
Comodoro Flâmula — Tom Brown, do traquete
Capitão Monóculo — Ned Estai, da guarda de popa
Timoneiro do comodoro — Joe Beliche, da lancha
Velho Bolina — Contramestre Ataúde
Prefeito — Maré-alta, do castelo de proa
P M — J C
Srta. Perdida de Amor — Cabeleira, da guarda de popa
Toddy Moll — Frank Jones
Sall Gin com Açúcar — Dick Flecha
Marinheiros, fuzileiros, atendentes de bar, policiais, soldados, recrutadores,
vereadores, gente de terra firme em geral.
* * * * * * * *
V ! // E .
* * * * * * * *
Encerramento com a canção muito admirada de Dibdin, modificada para servir a todos
os marinheiros americanos e intitulada
O VERDADEIRO MARINHEIRO IANQUE
O Verdadeiro Marinheiro Ianque (caracterizado), Patrick Flinegan, capitão da latrina
A apresentação começa com “Salve, Colúmbia”, executada pela banda de metais.
Chamada para as atividades aos três toques, à tarde.
Marinheiros não serão admitidos em mangas de camisa. Respeito à ordem requerido.
O mestre-d’armas e os cabos estarão presentes para a manutenção da ordem.
Diante dos sinceros pedidos dos marinheiros, Lemsford, o
poeta da coberta dos canhões, deixou-se convencer e escreveu a programação. E, nessa ocasião específica, suas habilidades
literárias não foram de modo algum subestimadas, mesmo pelos
menos dotados de intelecto a bordo. Tampouco se deve omitir
que, antes de a programação ser publicada, o capitão Claret,
fazendo as vezes de censor e grão-tesoureiro, passou os olhos
numa cópia manuscrita de A velha carruagem tombada para ver
se seu conteúdo trazia qualquer coisa calculada para alimentar a
insatisfação da tripulação contra as legítimas autoridades a
bordo. Fez objeção a algumas partes, mas, por fim, autorizou-as
todas.
A manhã do Quatro de Julho — a mais ansiosamente
aguardada — despontou limpa e aprazível. A brisa era constante;
o ar, de um frio revigorante; todos os marinheiros, sem exceção,
esperavam uma tarde alegre. Mostraram-se, assim, falsas as
profecias de alguns velhos resmungões aversos às
representações teatrais, que tinham antecipado um vendaval que
colocaria abaixo todos os arranjos da coxia.
Como havia homens cujos turnos regulares, no momento da
apresentação, poderiam levá-los às gáveas ou ainda às adriças e
outros cabos de laborar de sobre o espardeque — o que lhes
vetava, portanto, participar da celebração —, foram muitas e
divertidas as cenas, pela manhã, de marujos ansiosos à procura
de quem os substituísse em seus postos. Ao longo do dia, muitos
olhares temerosos foram lançados a barlavento; mas o tempo
ainda prometia permanecer firme.
Por fim, o povo foi chamado ao almoço; o sino dobrou duas
vezes; e, logo em seguida, todos que podiam deixar seus postos
correram a meia-nau. As barras do cabrestante foram colocadas sobre caixas de munição, como nas missas de domingo,
oferecendo assentos para a audiência, enquanto um palco baixo,
equipado pelo mestre-carpinteiro e seus homens, foi construído
numa das pontas do espaço aberto. A cortina constituía-se de
uma enorme bandeira da Marinha, e as amuradas ao redor
tinham sido ornadas com as bandeiras de todas as nações. Os
dez ou doze membros da banda de metais estavam dispostos em
fila ao pé do palco, os instrumentos polidos à mão, enquanto o
pomposo capitão da banda em pessoa fora elevado sobre a
carreta de um canhão.
Precisamente aos três toques do sino, um grupo de oficiais da
praça-d’armas surgiu da escotilha à popa e sentou-se em bancos
de acampamento numa posição central, com a bandeira
nacional, de listras e estrelas, servindo-lhe de dossel. Esse era o
camarote real. Os marinheiros olharam a sua volta à procura do
comodoro; mas nem o comodoro, nem o capitão honraram o
povo com sua presença.
Ao sinal da corneta, a banda tocou “Salve, Colúmbia” sob o
acompanhamento de todos os espectadores, como em Drury
Lane quando “Deus salve o rei” é executado depois de uma
grande vitória nacional.144
Ao disparo do mosquete de um marinheiro ergueu-se a cortina,
e quatro marinheiros, pitorescamente fantasiados de marujos
malteses, tropicaram no palco em fingido estado de embriaguez.
A verdade da representação foi em muito reforçada pelo rolar do
navio.
O Comodoro, Velho Bolina, o Prefeito e Sall Gin com Açúcar
foram papéis admiravelmente interpretados e receberam a merecida salva de palmas. Mas à primeira aparição daquele que
era o favorito de todos os presentes, Jack Chase, no
cavaleiresco papel de Percy Mastaréu, todo o público levantou-se
num só movimento e o saudou com três vivas cuja força quase
arrancou a vela de mezena grande.
O Inigualável Jack, todo caracterizado, cumprimentou seguidas
vezes o público com a graça e a discrição próprios ao
tombadilho;145 e, quando cinco ou seis pedaços de corda
desenredada e punhados de estopa lhe foram jogados como
substitutos das flores, ele os tomou um a um e, com elegância,
os colocou entre os botões da jaqueta.
“Hurra! Hurra! Hurra!” “Continuem! Continuem!” “Parem de
gritar!” “Hurra!” “Parem de gritar!” “Hurra!”, era o que se ouvia de
todos os lados, até que, por fim, notando que o entusiasmo de
seus admiradores não teria fim, o Inigualável Jack deu um passo
à frente e, com seus lábios se movendo como os de um mímico,
mergulhou no momento decisivo de sua personagem. O silêncio
logo se fez, mas foi cinquenta vezes quebrado por incontroláveis
explosões de aplauso. Por fim, quando se representou a cena
mais emocionante, na qual Percy Mastaréu salva quinze
marinheiros oprimidos no posto policial, aprisionados por um
grupo de guardas, o público ficou de pé, virou as barras do
cabrestante, e todos, sem exceção, lançaram ao palco seus
chapéus, em delírio. Ah, Jack, você acertou em cheio!
A comoção não podia ser maior; toda a disciplina pareceu
desaparecer por completo; os lugares-tenentes corriam em meio
aos homens, o capitão surgiu imediatamente da cabine, e o
comodoro perguntava nervosamente às sentinelas armadas à porta de sua cabine que diabos se passava com o povo. A
corneta do oficial do convés, ordenando que se rizassem as
velas de joanete, foi completamente encoberta pela algazarra. As
nuvens negras de uma tempestade vinham da popa a barlavento,
e os guardiões do contramestre berravam roucos como touros na
escotilha principal. Não se sabe o que teria se passado, não
tivesse o bumbo sido subitamente ouvido, convocando todos a
seus postos, chamado que não podia ser negado. Os
marinheiros ergueram as orelhas ao escutá-lo, como cavalos ao
estalar de um chicote, e, tropeçando uns nos outros, subiram as
escadas rumo a seus postos. No momento seguinte era tudo
silêncio, exceto o vento, uivando no cordame como mil demônios.
“Prontos para rizar todas as três velas de sobrejoanete!…
Folgar adriças!… Alar velas!… Rápido!… Ao alto, homens da
gávea! Rizar!”
Foi, então, em tempestade e tormenta que o dia de teatro
acabou. Mas os marinheiros jamais se recuperaram do
desapontamento de não ter ouvido “O verdadeiro marinheiro
ianque” na voz do capitão da latrina irlandês.
E aqui Jaqueta Branca deve tecer alguns comentários
moralizantes. O inusitado espetáculo da fileira de oficiais da
praça-d’armas misturando-se ao povo enquanto aplaudia um
simples marinheiro como Jack Chase encheu-me na ocasião das
mais prazerosas emoções. É maravilhoso, pensei, ver esses
oficiais, afinal, em humana irmandade conosco; é maravilhoso
notar seu cordial apreço aos méritos viris de meu Inigualável
Jack. Ah! Eles são todos nobres sujeitos; eu não sabia e os
julgava mal em meus pensamentos.
Foi também com sentimentos igualmente prazerosos que
testemunhei a ruptura temporária da dura disciplina do navio em
decorrência do tumulto da peça. Pensei comigo: tudo agora está
como deveria ser. É bom nos livrarmos, vez por outra, desse jugo
de aço que nos cinge os pescoços. E depois de terem uma vez
permitido a nós, marinheiros, sermos sem qualquer perigo ou
afronta um pouco barulhentos — na turbulência de nossa alegria
—, os oficiais não podiam, sem má-fé, ser tão excessivamente
severos ou inflexíveis como antes. Comecei, por fim, a imaginar
um navio de guerra como um “navio de paz e boa vontade”. Mas,
ai!, logo veio a decepção.
Na manhã seguinte a mesma cena de todos os dias teve lugar
no passadiço. E contemplando a fileira de oficiais de semblante
inflexível ali reunidos com o capitão para testemunhar um castigo
— os mesmos oficiais que tinham demonstrado tão alegre
disposição durante a noite —, um velho marinheiro tocou-me o
ombro e disse: “Olha só, Jaqueta Branca, todos de novo a bordo
com suas máscaras de tombadilho. É assim que as coisas
funcionam”.
Depois descobri que essa era uma velha expressão de
marinheiros de fragata, bastante expressiva da facilidade com
que um oficial da Marinha retoma toda a severidade de sua
posição após sua suspensão temporária.146