Jaqueta Branca
Glossário de termos náuticos
Nota
Jaqueta Branca é um romance particularmente marcado pela
utilização de jargão náutico e de um vocabulário técnico de
grande especificidade. É ponto fora da curva no que se refere à
carga de terminologia naval, mesmo em relação a obras
ficcionais de ambiência marítima da época. Tal característica
exige do tradutor um esforço de especialização da linguagem e
também o enfrentamento de um vocabulário não raro obsoleto.
Por isso, para a manutenção da precisão vocabular e de jargão
presente no original, recorreu-se aos muitos manuais e
glossários náuticos dos séculos e disponíveis em língua
portuguesa — literatura obrigatória para o oficialato e os
trabalhadores especializados dos conveses. De suas páginas e,
sempre que possível, de dicionários de uso contemporâneo (em
particular, o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa) extraímos
o material explicativo que acompanha os termos, procurando
também manter o sabor da prosa náutica em língua portuguesa.
Ao final do Glossário, destacamos alguns deles.
B G Adriça: cabo ou corda que serve para içar as velas, vergas,
bandeiras, flâmulas etc.
Aducha: são as voltas que se dão aos cabos, ficando umas
sobre as outras em figura circular, de pandeiro, quando se
encolhem.
Alar: exercer tração num cabo para executar qualquer manobra.
Alheta: parte recurva do costado de um navio, de um bordo e de
outro, também chamada de quartel (cf. bordo).
Alojamento dos aspirantes: situado a vante da câmara dos
oficiais (ou praça-d’armas). Sobre ele, Fonssagrives faz
detalhada análise em seu Tratado de Higiene Naval (p. 52):
“Alojamento comum onde cada qual tem por domínio o espaço
limitado da sua maca, e circunscreve a sua bagagem as
proporções acanhadíssimas do armário que o regulamento lhe
concede. É nesse local que o aspirante dorme, canta, faz o
ponto, zombeteia da autoridade, e passa alegremente as horas
que as fadigas do quarto ou os rigores disciplinares do paiol geral
lhe deixam desocupadas. No alojamento dos aspirantes, ainda
mais que em qualquer outra parte do navio, estão reunidas as
condições mais deletérias da acumulação: exiguidade extrema
de espaço; ventilação insuficiente; viciação da atmosfera
causada por emanações animais, por provisões putrescíveis,
pela luz artificial que quase constantemente ali permanece;
aproximação forçada das macas durante a noite; evaporação da
umidade da roupa, etc.”.
Amantilho: cabo que se prende na ponta das vergas para
mantê-las em posição horizontal ou para movimentá-las no sentido vertical.
Amarras: cabos destinados por sua grossura a serem talingados
(presos) nas âncoras, para, assim unidos, conservarem seguro o
navio, em qualquer ancoradouro. Podiam ser feitas de fibra
(cânhamo) ou ferro, ou ainda de uma combinação de ambos.
Âncora: Melville se refere a dois tipos de âncora, a âncora de
leva e a âncora de roça. A âncora de leva é a âncora de serviço
do navio e tem a função de fundeá-lo ou amarrá-lo. Está
colocada próximo à roda de proa, de um e de outro bordo. Já a
âncora de roça (ou âncora d’esperança, a exemplo de como era
chamada também pelos franceses) é transportada usualmente
num escovém situado por ante à ré das âncoras de leva e
fundeada somente em caso de emergência, quando as âncoras
de leva desgarram ou se perdem.
Antepara: estrutura vertical que separa os diversos
compartimentos a bordo de uma embarcação.
Arfar: movimento de balanço do navio no sentido de popa à
proa, quando se ergue ou embica.
Arganéu: peça metálica de forma circular ou, menos
comumente, triangular ou em oito, em que se engatam talhas,
amarras, correntes ou espias.
Arinque: cabo de bitola suficiente para suspender a âncora,
preso a um só tempo à cruz da âncora e a uma boia que indica o
lugar onde se acha fundeada a peça.
Batelão: consta entre as embarcações “de penão” (ou flâmula).
É embarcação aberta, usada para desfiles e cerimônias formais. Beque: a maior largura que tem a roda de proa, peça estrutural
dianteira da embarcação.
Bigotas: peças de madeira circular, com um goivado no contorno
e dotadas de três furos de face a face, usadas para prender
ovéns, brandais, estais etc.
Boca de fogo: ver canhão.
Bolina: cada um dos cabos de sustentação das velas,
destinados a orientá-las, de modo a receberem o vento
obliquamente.
Bombordo: lado direito da embarcação, olhando-se em direção
à proa do navio.
Bordo: cada uma das duas partes simétricas em que se divide
longitudinalmente o casco das embarcações.
Botões: conjuntos de voltas com que se unem e prendem (no
caso, mediante michelos) dois cabos.
Bracear: movimentar (uma verga) na horizontal em torno do
mastro por meio de braços (cabos) fixados em suas
extremidades, para orientá-la adequadamente em relação ao
vento.
Brandal: nos navios a vela, cada um dos cabos que não deixam
o mastaréu tombar para vante.
Brigue: navio de dois mastros com velas redondas e cestos de
gávea e também uma vela latina no mastro de ré; no contexto do
romance, nome que se dava ao espaço de detenção nos navios
de guerra norte-americanos.
Brióis: cabos que se fazem fixos na parte inferior da maioria das
velas redondas, a fim de ajudarem a carregar o pano de encontro
a suas vergas respectivas e assim diminuir a força ou ação do
vento sobre a vela.
Brulotes: embarcações que se enchem de matérias inflamáveis
para serem atracadas aos navios inimigos e incendiadas.
Buçarda: travessão curvo, de madeira ou ferro, colocado à proa
e à popa, por dentro do navio, para reforçá-las, no sentido de
boreste a bombordo.
Bujão: rolha de madeira que serve para tapar as bueiras,
orifícios no piso da embarcação com a função de esgotar as
águas acumuladas.
Bujarrona: a maior das velas de proa, de forma triangular, que
se enverga num dos estais do velacho.
Cabo de ala e larga: cabo auxiliar ao içamento da amarra da
âncora.
Cabos de laborar: segundo D’Amorim (p. 78), são os “braços,
amantilhos e adriças das vergas; escotas, estingues, bolinas,
sergideiras, brióis e apagapenóis das velas redondas; adriças,
carregadeiras e escotas das velas latinas”, sujeitos à tração
humana, auxiliada de gornes (nos casos de velas e vergas) ou
cabrestante (para a âncora).
Cabos fixos: segundo D’Amorim (p. 78), “aqueles que, sendo
empregados no aparelho, não gornem em parte alguma,
atezando por meio de colhedores, talhas, coseduras etc.”. Cabrestante: mecanismo (hoje movido a máquina) usado para
içar âncoras, suspender vergas e levantar pesos em geral.
Consiste num eixo vertical, fixo, em torno do qual gira um tambor
mais estreito no centro e mais largo nas extremidades; a ele
acoplavam-se as barras, empurradas pelos marinheiros para
funcionarem como alavancas.
Cabresto: cabo que segura fortemente o gurupés, pela parte
inferior, de encontro ao beque, à maneira de um estai.
Caçar a vela: usar as escotas para estender bem a vela e
oferecer uma superfície resistente ao impulso do vento.
Calabrote: cabo de bitola menor empregado em diversas
atividades do convés (p. ex. como auxiliar no içamento da amarra
da âncora); o nome também se aplica, por metonímia, ao açoite
produzido desse tipo de cabo, utilizado em punições pontuais a
bordo.
Calcês: parte do mastro ou mastaréu entre a romã, i.e., a parte
grossa, e a extremidade superior. Nele encapelam-se os ovéns
de enxárcias, os estais e os brandais; na parte superior põe-se o
ninho de pega, ou cesto da gávea.
Cambar: mudar as escotas das velas para o lado oposto, quando
se muda a direção da embarcação; bracear (manobrar) as velas
pelo lado oposto.
Canhão (e suas partes): os canhões, distribuídos pelas
cobertas, eram a peça de artilharia por excelência dos navios de
guerra — seu número determinava a designação de um navio (o
Neversink, por exemplo, será chamado de “74”, por suas 74 bocas de fogo). As partes do canhão são, basicamente: 1) boca,
entrada da alma da peça; 2) alma, interior oco do cilindro da
arma, que vai da parte anterior da câmara da carga até a boca;
3) marca de mira; 4) munhão, eixo transversal da peça, que
preso à carreta permite que esta se movimente para o alto e para
baixo (nas caronadas, o munhão é substituído pelo rabo de
macaco); 5) ouvido, nas armas de fogo e peças de artilharia,
orifício por onde se deita fogo à pólvora; 6) culatra, parte
posterior e/ou fecho do cano de arma de fogo; e 7) carreta,
suporte móvel de boca de fogo.
Para cada canhão, são destacados um chefe de peça,
encarregado dos comandos de manobra, um subchefe e seus
serventes, que devem operar em sincronia segundo suas
atribuições específicas. As vozes de comando são 1) desatracar
(desembaraçar a peça da amarração que a prende à amurada);
escorvar (composição que se aplica ao ouvido da peça para
comunicar o fogo à carga); 2) apontar (estabelecer a linha de
mira); 3) fogo; 4) limpar (usando um soquete e lanada); 5) calcar
(introduzir a carga na boca de fogo, ajustando-a bem ao fundo da
alma); 6) em bateria; e 7) atracar (os dois últimos, procedimentos
de recolhimento da peça).
Capitânia: qualquer tipo de navio em que viaje o chefe de uma
força naval ou onde esteja içado o seu pavilhão, mesmo estando
o chefe ausente.
Carangueja: verga de vela latina quadrangular, disposta
obliquamente em relação ao mastro e voltada para ré.
Carlinga: peça grossa de madeira fixada na sobrequilha do
navio, tendo na parte superior uma abertura pela qual passa a
extremidade inferior do mastro.
Caronada: canhão curto e de grosso calibre.
Castelo de proa: superestrutura na parte extrema da proa,
acompanhada de elevação da borda.
Cavilha: haste de metal ou madeira, que une peças da
construção de um navio.
Cesto da gávea: ponto de observação instalado nos mastaréus
e vergas que espigam logo acima dos mastros reais. Gávea é o
mastaréu que se ergue acima do mastro real, a verga que o
cruza ou a vela que a ele se prende.
Chaleira: lugar nas baterias do navio em que se guardam as
balas, planquetas, cachos de metralha e latas de espalhafato
(peça de artilharia antiga). Também chaleiras são umas
pequenas prateleiras que têm os camarotes, paióis, dispensas
etc. para acomodar coisas de mão.
Chalupa: embarcação de manejo simples com um só mastro,
mas que navega barra fora — espécie de cúter, porém de
estrutura mais elevada.
Clíper: veleiro comprido e estreito, de grande superfície de velas,
veloz, três ou mais mastros altos e pano redondo nos mastros
principais.
Cobertas: espaços entre os conveses situados abaixo do convés
principal. A coberta das macas abriga o alojamento dos marujos,
onde se estendem suas macas. Na coberta dos canhões, espaço imediatamente abaixo do convés principal e acima da coberta de
alojamento da marujada, abriga-se essa artilharia, disposta ao
longo dos costados do navio.
Colhedores: são cabos delgados, com os quais se prendem as
enxárcias, estais, cabrestos, brandais etc.
Colher cabo: arrumar um cabo em aducha, a fim de que ele não
fique enrascado e tenha sempre os chicotes (isto é, as pontas)
livres.
Coxim: tecido com que se cobrem os colhedores das enxárcias,
a fim de não serem cortados pelos cabos de laborar.
Cunhos: as partes das vergas quadradas ou oitavadas que
formam as encapeladuras onde assenta o vergueiro do pano e
mais aparelho da verga.
Cúter: embarcação de um só mastro e vela latina.
Dar bordo (ou bordejar): manobra que se pratica para ganhar
barlavento, empregando força nos cabos de sustentação das
velas com o vento soprando em direção oblíqua à embarcação,
ora em uma, ora em outra amura alternadamente, quando, por
exemplo, se quer parar a embarcação ou navegar apesar do
vento contrário.
Defensa: trançado de cabos, com recheio de materiais variados
(borracha, cortiça, pedaços de cabo etc.), geralmente de forma
cilíndrica, usado do lado de fora do navio, na altura do verdugo,
para protegê-lo no encontro com o cais.
Desamantilhar as vergas: manobra que se executa em sinal de
sentimento pelo falecimento de pessoas ou do proprietário do navio. Consiste em colocar as vergas desorientadas — isto é,
fora da posição em relação ao vento —, alando os amantilhos de
umas contra as outras.
Enfrechate: cada um dos degraus de uma enxárcia, geralmente
roliços, feitos de cabo grosso, madeira ou ferro.
Enxárcias: cabos fixos que, de um e outro lado ou bordo do
navio, seguram os mastros e mastaréus, correspondendo aos
cabos de sustentação dos três mastros de um navio.
Enxertários: cabos que atracam folgadamente as vergas aos
seus mastaréus, com a propriedade de as conservarem no
sentido horizontal mesmo na ação de as içar e arriar pelo
comprimento dos mesmos mastaréus.
Escaler: tipo de embarcação de pequeno porte movida à força
de remos.
Escotas: nas velas redondas são cabos de laborar, que se fixam
nos punhos inferiores, formados pelo encontro das testas
(laterais de cima para baixo) com a esteira (parte inferior).
Escotilhão: escotilha de pequenas dimensões que dá acesso ao
paiol e a outros compartimentos.
Escovéns: grandes furos circulares na proa, revestidos de
chumbo, por onde se passam as amarras da âncora. O forro de
chumbo serve para que elas não peguem fogo com a velocidade
com que correm para o fundo, em virtude do peso do ferro.
“Começar a vida pelos escovéns” é iniciar-se na vida naval pelos
postos mais baixos.
Espardeque: superestrutura central de navio que não se estende
de borda a borda.
Espia: cabo grosso usado para amarrar uma embarcação a
outra, ao cais, a uma boia etc.
Estai: cada um dos cabos que sustentam a mastreação para
vante.
Estibordo: lado esquerdo da embarcação, olhando-se em
direção à proa do navio.
Estingue: cabo que, fixado a cada um dos punhos inferiores —
isto é, os ângulos que todas as velas redondas e latinas formam,
onde se aguentam as adriças, empuniduras, escotas e amuras
—, trabalha em sentido contrário à escota; seu efeito é diminuir a
ação do vento sobre a vela, ajudando-a a carregar de encontro à
sua respectiva verga.
Estropo: pedaço de cabo ou de lona com que se envolve um
objeto para içá-lo.
Exercícios de pano: treinamentos relacionados às manobras de
peças de artilharia e de vela e verga.
Ferrar: colher vela amarrando-a com cabos a uma verga, estai
ou vergueiro.
Forrar: pôr forro de coxins nos lugares em que a fricção pode
facilmente cortar os cabos.
Ganchos e talhas: utensílios utilizados na caça baleeira — o
primeiro se prende ao corpo dos animais mortos, e o segundo, o aparelho de força constituído de um sistema de polias utilizado
no içamento do animal ao costado do navio.
Gaxeta: trança de fio de carreta que serve para michelos, rizes,
palanques e outros fins.
Giba: vela situada à proa e presa a pau próprio (pau de giba).
Sua função, a exemplo das chamadas velas de estai e da
bujarrona, é cobrir os espaços entre velas redondas.
Gorne: abertura na caixa de um poleame, onde trabalha a roda
pela qual o cabo passa.
Gurupés: mastro que aponta para vante, colocado no bico de
proa dos veleiros. Nele vão presas velas triangulares (bujarrona,
cevadeira), enfunadas quando o navio viaja sob bons ventos.
Lais: o extremo das vergas, geralmente do cunho para fora.
Lambaz: espécie de vassoura constituída por um molho de fios
de carreta, usada a bordo para enxugar os conveses, as
anteparas etc.
Lanada: instrumento para limpar o interior de peças de artilharia
que consiste em uma haste com um chumaço de lã de carneiro
numa das extremidades.
Leme: peça plana, localizada na parte submersa da popa de
uma embarcação, gira em um eixo e determina a direção em que
aponta a proa.
Lancha: é a maior e mais possante das embarcações miúdas,
que os navios levam necessariamente pela utilidade, que resulta
de auxiliar nos trabalhos para o atracamento da embarcação, buscar água e suprimentos ou, em caso de acidente, salvar a
tripulação.
Lanterneta: projétil de artilharia em forma de um cilindro feito de
folha metálica cheio de munição miúda, pedaços de ferro, cacos
e sucata em geral, empregado no passado para tiro de metralha.
Lastro: nos navios mercantes e de carga em geral, era a carga
pesada arrumada no porão para manter o equilíbrio da
embarcação; nos navios de guerra, que não conduziam carga, os
lastros eram linguados de ferro ou de chumbo, pedra etc.
Maca: cama de lona, tipo rede, em que dormiam os marinheiros
a bordo.
Malagueta: cavilha de madeira ou pino de metal que se enfia nos
fusos da amurada, da meia-nau, dos mastros etc., para receber
as voltas dos cabos de laborar.
Massame: conjunto de cabos existentes no aparelho de
navegação de um navio.
Mastros: estruturas verticais que se instalam na quilha dos
navios e se erguem para além do convés. Guarnecidos de
vergas, os mastros têm, além disso, a função de sustentar os
cestos de gávea (pontos de observação) e uma infinidade de
outros pequenos utensílios necessários às atividades a bordo.
Subindo desde a quilha, à qual está presa pela carlinga, em
direção ao convés principal do navio, os mastros atravessam os
diferentes conveses pelas enoras (passagens abertas
exclusivamente para a instalação do mastro). A partir de seu
número se distinguem os tipos de embarcação. Alguns tipos de mastro são: mastro de traquete, mastro vertical localizado na
região da proa; mastro grande ou principal, localizado no centro
do navio; mastro de mezena ou gata, instalado na popa. Cada
mastro é composto por três seções, da base para o alto: o mastro
real, o mastaréu da gávea e o mastaréu de joanete; cada uma
das partes está ligada à outra por meio das pegas e recebe as
vergas.
Meia-nau: a parte que fica entre o mastro grande e o traquete.
Mesas das enxárcias: grossas pranchas de madeira presas
horizontalmente aos costados do navio, de um bordo a outro,
cuja função consiste em dar maior abertura às peças de madeira
(fusos) que recebem as pontas dos cabos (bigotas) das
enxárcias dos mastros.
Mialhar: cordinha delgada que serve para forros, coxins etc.
Michelo: gaxetas grossas, tendo em média uma braça e meia ou
duas de comprimento (três a quatro metros), que servem para
ligar o cabo de ala e larga com a amarra.
Moitão: caixa de madeira ou metal em formato oval munida de
uma roldana, pela qual passa o cabo de laborar, que trabalha na
movimentação horizontal das vergas.
Molinete: guincho de eixo horizontal, usado para suspender
amarra de âncora ou para puxar espia e cabo de laborar.
Olho de boi: abertura no convés ou numa antepara, fechada
com vidro grosso, para dar claridade a um compartimento. Pode
também designar especificamente o escotilhão do paiol de
pólvora.
Orçar: apontar a proa da embarcação contra o vento.
Ostagas: cabos empregados nas manobras de içar e arriar
horizontalmente as vergas de gávea; nos navios baleeiros são
mais comumente chamados de ostaxas e indicam cabos
utilizados nos arpões com o intuito de conservar o animal
atingido sob o controle da tripulação do bote.
Ovém: cada um dos cabos que sustentam mastros e mastaréus
para os bordos e para a ré, formando as enxárcias.
Passagem de vante: passagem que leva ao porão de vante.
Patarrás: cabo ou corrente que segura pau de surriola, gurupés
e outros paus a bordo, impedindo seu movimento horizontal.
Paus de carga: vergas de madeira ou de aço que têm uma
extremidade apoiada ao pé de um mastro ou mesa e a outra
presa ao terço ou tope de um mastro por meio de um amantilho,
formando, dessa maneira, um aparelho para içar materiais e
equipamentos pesados.
Paus de surriola: verga horizontal geralmente disparada no
costado do navio, na altura da borda, para servir de amarração
às embarcações menores quando o navio está ancorado.
Pé de carneiro: estrutura em forma de coluna de madeira ou de
aço que dá sustentação ao convés.
Pega: peça retangular de madeira grossa, chapeada de ferro na
sua periferia, na qual se abrem dois furos, um quadrado e um
redondo: o primeiro encaixa na mecha do calcês do mastro ou
mastaréu a que pertence, e o segundo serve para se enfiar por
ele o mastaréu imediatamente superior.
Perder barlavento: deixar-se descair ou inclinar para sotavento,
lado para onde sopra o vento.
Pique de vante: parte do porão de um navio próximo à proa,
usado para arrumação de carga.
Poço: espaço descoberto entre o castelo, ou o tombadilho, e a
superestrutura central.
Poleame: conjunto de peças de madeira ou ferro destinadas à
passagem dos cabos.
Portaló: abertura no casco de um navio, ou passagem junto à
balaustrada, por onde as pessoas entram e saem, e por onde se
pode movimentar carga leve.
Praça-d’armas: compartimento destinado aos oficiais onde se
localizam suas acomodações, individuais ou compartilhadas,
dispondo também de uma área comum para convivência e
refeições.
Quartos de vigia: para denominação mais específica dos
quartos, adotamos antiga nomenclatura recuperada na década
de 1940 pelo primeiro-tenente português Antônio Marques
Esparteiro: o quarto d’alva, o quarto do crepúsculo matutino, das
04:00 às 08:00; o “quarto das emendas”, das 08:00 às 12:00; o
“quarto da tarde”, das 12:00 às 16:00; o “quartinho”, das 16:00 às
20:00; o “quarto da prima”, das 20:00 às 24:00, o primeiro quarto
da noite; e, por fim, o “quarto da modorra”, das 00:00 às 04:00.
Quilha: peça estrutural básica, disposta na parte mais inferior do
casco, que serve para estabilizar a embarcação.
Rabo de macaco: alavanca ou barra utilizada para o manejo dos
canhões.
Rizar: diminuir a área da vela, e portanto o efeito do vento,
dobrando-a ou enrolando-a por meio das rizes (cabos ou linhas).
Safar: desobstruir os lugares de passagem, por exemplo o
convés.
Sobrequilhas: peça ou conjunto de madeiras que assentam e se
estendem da popa à proa sobre as cavernas (as peças curvas
perpendiculares à quilha que dão forma ao casco da
embarcação) para tornar mais firme a sua posição.
Socairo: a parte que sobra do cabo que se está colhendo em um
cabrestante; para que o cabo mantenha a tensão que permite
que seja colhido pelo instrumento, é preciso que o marinheiro a
segure tensa (aguente).
“Toca mostra!”: comando usado para chamar a tropa em
formação, para revista do equipamento dos marinheiros e de sua
vestimenta ou para presenciar a punição a infrações.
Tombadilho: superestrutura erguida na popa de um navio, toda
fechada e indo de um a outro bordo; castelo de popa.
Trim: inclinação do navio para uma ou outra extremidade, isto é,
proa e popa. No primeiro caso (com a proa tocando a água, ou
com “trim pela proa”), o navio está “abicado”; no segundo (com a
popa tocando a água, ou com o “trim pela popa”), o navio estará
apopado ou derrabado.
Trinca: corrente ou cabo resistente que prende o gurupés ao
beque.
Trincheiras: caixas nas amuradas do navio onde se abrigam
objetos miúdos, macas da guarnição etc. Nos combates navais
também era costume encher as caixas com cortiça ou algodão, a
fim de obstar ao estrago da mosquetaria.
Varredouras: velas triangulares com função suplementar ao
mastro de traquete, quando o navio navega com bons ventos.
Vaus: vigas grossas que há nas cobertas, ligadas às amuradas;
com reforço de lata, elas fortalecem, fecham e conservam com
firmeza a estrutura do navio.
Velacho: vela redonda do mastro de vante da embarcação, logo
acima da vela do traquete.
Verga: traves horizontais em que se prendem as velas. A verga
grande se fixa ao mastro real; as vergas baixa e alta, ao
mastaréu da gávea; e as vergas de joanete e sobrejoanete, no
mastaréu de sobrejoanete.
Vergueiros do pano: cabos que acompanham o comprimento
das vergas. Passam pelos laises em ambas as pontas da peça e
são unidos por meio de uma cosedura a meia verga: são
pregados em sua extensão com pedaços de couro, a fim de não
darem de si com o peso da vela.
Vigia: abertura circular no costado ou na antepara de uma
superestrutura para dar luz e ventilação a um compartimento. As
vigias são guarnecidas de gola de metal na qual se fixam suas
tampas.
Virar de bordo: passar as velas de um bordo ao outro, fazendo
com que recebam o vento pelo bordo contrário. Assim, se o vento vinha de bombordo, passará a vir de estibordo, e vice-versa. Tal
manobra exige boa comunicação e coordenação entre o trabalho
dos marinheiros no velame e o responsável pelo leme.
Virar em roda: manobra da embarcação que acompanha a
mudança de direção da rajada de vento quando o velame
passaria a recebê-lo do lado oposto ao que antes recebia. Esse
efeito pode resultar de manobra controlada (“virar de bordo”). O
risco de uma manobra mal executada é “partir para a orça” ou
“orçar”, o que pode causar acidentes.
, Maurício da Costa. Vocabulário marujo, ou
Conhecimento de todos os cabos necessários ao navio; do seu
poliame, e de todos os termos marujaes, e de alguns da
construcção naval, e artilheria; de indispensável conhecimento do
official do mar. Rio de Janeiro, 1823.
’ , João Pedro. Dicionário de marinha que aos officiaes
da Marinha portugueza O. D. e C. Lisboa: Imprensa Nacional,
1841.
, Antonio Marques, apud O. , “Os ‘quartos’ e a
tradição naval”, Revista da Armada, no 40. Lisboa: jan. 1975, p.
16.
, Jean Baptiste. Tratado de higiene naval, ou Da
influência das condições físicas e morais em que está o homem
do mar (traduzido ao português por João Francisco Barreiros,
vogal do conselho de saúde naval e do ultramar). Lisboa:
Imprensa Nacional, 1862.
, Antônio Gregório de. Novo dicionário da marinha de
guerra e mercante, contendo todos os termos marítimos,
astronômicos, construção e artilheria naval: com um appendice
instructivo de tudo que deve saber a gente do mar. Lisboa:
Imprensa Nacional, 1855.
, João Augusto Fontes Pereira de. Tratado prático do
aparelho dos navios para uso dos alumnos da companhia e real academia dos guarda-marinhas. Lisboa: 1836.
, Rodrigo Teixeira. Manual do marinheiro-artilheiro,
contendo exercícios práticos de artilheria naval e desembarque.
Lisboa, 1866.
, Joaquim Pedro Celestino. Quadros navais, ou Coleção
dos folhetins marítimos do Patriota, seguidas de uma Epopeia
Naval Portuguesa. Lisboa: Ministério da Marinha, 1971.