Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 91 de 101

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Jaqueta Branca

88. Açoitamento pela esquadra

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Açoitamento pela esquadra

 

O como Ushant, a maioria

dos homens de terra verá com repulsa. Mas, embora dadas as

circunstâncias específicas, houvesse muita indignação entre o

povo do navio, diante do caso em si os homens calaram. Os

marinheiros de um navio de guerra são tão acostumados ao que

homens de terra firme considerariam excessivas crueldades que

se mostram praticamente insensíveis a severidades menores.

E aqui, embora se tenha debuxado o assunto da punição na

Marinha em capítulos anteriores; embora se trate, a despeito da

perspectiva adotada, algo absolutamente desagradável e

angustiante a respeito do qual se estender; e embora me custe

muita força e coragem escrever sobre ele; um sentimento de

dever me compele a adentrar um ramo do assunto até agora

indiscutido. Não gostaria de ser o homem que, vendo um sujeito

abandonado morrendo à beira da estrada, virasse ao amigo e

dissesse: “Vamos atravessar a rua; minha alma padece ao ver

uma coisa dessas; não consigo suportá-la”.

Há certos males neste mundo flutuante que não raro garantem

a impunidade por seu próprio excesso. Pessoas ignorantes

muitas vezes deixarão de remover permanentemente a causa de

uma malária mortal temendo uma disseminação temporária de seus sintomas. Não ajamos dessa forma. Quanto mais

repugnante e repulsivo, maior o mal. Deixemos nossas mulheres

e filhos e adentremos sem entraves esse Gólgota.429

Anos atrás, havia uma punição que se infligia nos navios

britânicos e, creio eu, na Marinha americana, chamada arrasto

pela quilha — expressão ainda utilizada por marinheiros de

fragata quando se referem a uma extraordinária vingança contra

um inimigo pessoal. A prática ainda existe na Marinha francesa,

embora esta de forma alguma se valha dela tão frequentemente

quanto no passado. Ela consiste em amarrar talhas às duas

extremidades da verga grande e passar a corda sob o casco do

navio. Numa ponta da corda o criminoso fica amarrado; e seus

próprios companheiros de convés têm de fazê-lo atravessar toda

a parte exterior do navio, primeiro num costado, depois noutro —

arrastado pelo casco do navio debaixo da água e, finalmente

içado, sem sentidos e ofegante, ao ar.

Mas, embora essa barbaridade seja hoje abolida das Marinhas

britânica e americana, resta outra prática que, para dizer o

mínimo, é ainda pior do que o arrasto pela quilha. Remanescente

da Idade Média, ela é conhecida na Marinha como açoitamento

pela esquadra. Não é jamais infligida exceto pela autoridade de

uma corte marcial contra criminoso violento, julgado culpado de

terrível infração. Nunca, que eu saiba, foi infligida por um navio

de guerra americano em estação naval. A razão, provavelmente,

é que os oficiais reconhecem que tal espetáculo produziria

revolta em qualquer porto americano.

Segundo o Artigo dos Artigos de Guerra, uma corte marcial

não determinará “por nenhum crime que não seja capital” uma punição para além de cem chibatadas. Em casos “que não sejam

capitais”, essa lei pode ser e tem sido citada em justificações

judiciais de imposição de mais do que cem chibatadas. De fato,

chega a cobrir mil. Assim funciona: um único ato de um

marinheiro pode ser analisado e subdividido em dez diferentes

crimes; e para cada um deles o marinheiro pode ser legalmente

condenado a cem chibatadas a serem administradas sem

interrupção. Será notado que, em qualquer caso que se julga

“capital”, um marinheiro sob o dito artigo pode ser legalmente

açoitado até a morte.

Mas por nenhum desses Artigos de Guerra, nem por qualquer

ato do Congresso, há qualquer autorização direta para a

extraordinária crueldade do modo com que a punição é infligida,

em casos de açoitamento pela esquadra. No entanto, como em

numerosas outras circunstâncias, os agravamentos casuais

dessa punição são indiretamente suscitados por outras cláusulas

nos Artigos de Guerra. Uma delas permite às autoridades de um

navio — sem definir o caso — impor correção ao culpado

“segundo os costumes do serviço naval”.

Um dos “costumes” é o que se segue.

Com todos os marinheiros chamados a “testemunhar a

punição” no navio ao qual o culpado pertence, a sentença da

corte marcial que o condena é lida, quando, após as costumeiras

solenidades, parte da punição é aplicada. Para que não perca em

severidade pelo mínimo cansaço do braço do executor, um

guardião de contramestre descansado é chamado a cada série

de doze chibatadas.

Como a principal ideia é suscitar o terror entre os presentes,

desfere-se o maior número de chibatadas a bordo do próprio

navio do condenado para que se mostre como espetáculo

assustador às tripulações das outras fragatas.

Com a primeira série concluída, a camisa do condenado é

jogada sobre seu corpo; ele é colocado num bote — a “Marcha

do Patife” é executada entrementes430 — e levado ao navio

seguinte da esquadra. Todos os marinheiros daquele navio são

então convocados para subir no cordame, e outra parte da

punição é imposta pelos guardiões do contramestre daquele

navio. A camisa cheia de sangue é mais uma vez lançada sobre

o marinheiro; e, assim, ele é conduzido por toda a esquadra até

que toda a sentença seja concluída.

Noutras situações, a lancha — o maior dos botes — é

equipada com uma plataforma (como o cadafalso de um

carrasco), sobre a qual se fincam alabardas, como as usadas

pelo Exército britânico. São duas robustas lanças apontando ao

alto. Sobre a plataforma, permanece um lugar-tenente, um

cirurgião e um mestre-d’armas, além dos executores com seus

chicotes. Eles são levados de navio a navio da esquadra, até que

toda a sentença seja cumprida.

Em alguns casos, o cirurgião presente intervém

profissionalmente antes que a última chibatada seja dada,

alegando que se pode dar a morte imediata caso a remanescente

seja administrada sem intervalo. Porém, em vez de lhe serem

perdoadas as últimas chibatadas, num caso como este, o homem

é geralmente levado ao leito por dez ou doze dias; e, quando o

cirurgião oficialmente o declara apto a enfrentar o resto da sentença, ela é executada. O quinhão de Shylock se paga em

carne.431

Dizer que, depois de ser açoitado pela esquadra, as costas do

prisioneiro ficam por vezes inchadas como um travesseiro; ou

dizer que, em outros casos, é como se ela tivesse queimado até

enegrecer sobre o fogo; ou dizer que é possível seguir seu rastro

pela esquadra apenas pelo sangue na amurada de cada navio, é

apenas confirmar o que muitos marinheiros já viram.

Muitas semanas, às vezes meses inteiros, se passam antes

que o marinheiro esteja suficientemente recuperado para retomar

o trabalho. Durante a maior parte desse intervalo ele permanece

na enfermaria, gemendo dias e noites inteiros; e, a não ser que

tenha o couro e a fortaleza de um rinoceronte, jamais voltará a

ser o homem de antes; e, arrebentado e destruído até o tutano

dos ossos, definhará até a morte prematura. Há casos em que o

marinheiro morreu antes mesmo do fim da punição. Não é por

menos que o inglês dr. Granville — outrora cirurgião da Marinha

— declarou, em seu trabalho sobre a Rússia, que o bárbaro

cnute não é maior tortura do que o “gato de nove rabos” da

Marinha.432

Há alguns anos um incêndio ocorreu próximo ao paiol de

pólvora num navio americano, pertencente à esquadra ancorada

na baía de Nápoles. Soou o alerta máximo. Um grito atravessou

a embarcação de proa a popa avisando que o navio estava

prestes a explodir. Com medo, um dos marinheiros saltou para

fora do navio. Por fim, o fogo foi controlado, e o homem,

resgatado. Ele foi julgado por uma corte marcial e, culpado de

covardia, condenado ao açoitamento pela esquadra. A seu tempo, a esquadra desfraldou velas rumo à Argélia, e naquele

porto, antes ocupado por piratas, a punição foi imposta — a baía

de Nápoles, embora lavando as praias de um rei absoluto, não foi

considerada lugar adequado para tal espetáculo da lei naval

americana.

À época da passagem do Neversink pelo Pacífico, um

marinheiro americano, eleitor do general Harrison para

presidente dos Estados Unidos,433 foi açoitado pela esquadra.