Jaqueta Branca
63. A operação
63
A operação
N , na hora marcada, os cirurgiões chegaram
juntos. Vieram acompanhados de seus assistentes, jovens cuja
idade variava entre os dezenove e os trinta anos. Como os
cirurgiões veteranos, esses jovens cavalheiros trajavam
uniformes azuis da Marinha, exibindo uma profusão de botões
brilhantes e largas faixas de galão dourado na altura da cintura.
Honrando a ocasião, vestiam seus melhores trajes. Todos
ostentavam excessiva glória.
O grupo inteiro imediatamente desceu a meia-nau, onde os
preparativos para a operação tinham sido feitos. Estendeu-se
uma grande bandeira de praça-forte,305 atravessando o navio
próximo ao mastro principal como um biombo que isolasse o
espaço. Este incluía toda a extensão, à popa, do anteparo do
camarote do comodoro, a cuja porta um fuzileiro montava
guarda, de cutelo na mão.
Sobre duas carretas de canhão, arrastadas a meia-nau, a
prancha funeral (usada para sepultamentos em alto-mar) foi
horizontalmente colocada e coberta por uma velha varredoura de
mastaréu de sobrejoanete. Na ocasião, para que cumprisse com
sua função, como mesa de amputação, ganhou a extensão de
uma tábua adicional. Dois barris de pavio, próximos, colocados um sobre o outro, serviam de suporte para cada ponta de outra
tábua, separada da mesa, onde estavam dispostas serras e
facas de várias e peculiares formas e tamanhos; e também um
afiador de ferro, ao lado de longas agulhas de pontas curvadas
para fechar as artérias, grandes agulhas de cerzir, além de linha
e cera de abelha para fechar a ferida.
Na ponta mais próxima da mesa maior havia uma tina de ferro
cheia de água, cercada de pequenas esponjas, distribuídas a
intervalos precisos. Sobre um soquete de canhão, disposto na
horizontal — fixado em seu lugar habitual, ao alto —, estavam
penduradas toalhas com as iniciais “U.S.” bordadas nos cantos.
Todos esses preparativos tinham sido feitos pelo comissário do
cirurgião, pessoa de cujas importantes funções num navio de
guerra trataremos amplamente em capítulo futuro. Na presente
ocasião, ele estava agitadíssimo, caminhando de um lado para o
outro, ajeitando ininterruptamente facas, agulhas e o trinchador,
como um cioso mordomo inquieto diante da mesa de jantar antes
da entrada dos convidados.
De longe, porém, o mais espantoso objeto a ser visto por trás
da bandeira era um esqueleto humano de articulações unidas por
arames. Por um rebite no topo do crânio, ele se prendia a um
gancho de maca fixado num caibro acima. Por que esse objeto
estava ali, saberemos na sequência; mas por que ele estava
colocado imediatamente ao pé da mesa de amputação, apenas o
cirurgião Cutícula poderia dizer.
Enquanto os preparativos finais eram feitos, Cutícula
permaneceu conversando com seus convidados, os cirurgiões e
assistentes reunidos.
“Cavalheiros”, disse ele, tomando de uma das facas reluzentes
e passando com esmero artístico o afiador por ela; “cavalheiros,
embora sejam cenas muito desagradáveis e, em certos estados
de espírito, eu diria, repulsivas para mim… quão melhor será
para nosso paciente ter os ferimentos e lacerações, com todos os
seus perigosos sintomas, convertidos numa incisão limpa, livre
de tais objeções e ocasionando muito menos preocupação
subsequente para si e para o cirurgião. Sim”, acrescentou,
passando com delicadeza o dedo pelo fio da lâmina, “a
amputação é a única saída. Não é, cirurgião Patela?”, voltando-
se àquele cavalheiro, como se contasse com uma espécie de
consentimento, ainda que obstado por divergências.
“De fato”, disse Patela, “a amputação é a único procedimento a
se adotar, sr. cirurgião da esquadra; quero dizer, se o senhor está
completamente convencido de sua necessidade.”
Os outros cirurgiões nada disseram, mantendo um ar um tanto
reservado, como se tivessem consciência de não ter qualquer
autoridade efetiva sobre o caso, não importando quais fossem
suas próprias opiniões; porém, pareciam dispostos a observá-lo
e, uma vez chamados, ajudar no procedimento, já que não
podiam evitá-lo.
Os jovens, seus assistentes, pareciam muito animados e
lançavam frequentes olhares de admiração ao distintíssimo
médico que era o venerável Cutícula.
“Dizem que ele é capaz de cortar uma perna em um minuto e
dez segundos, desde o momento em que a faca a toca”,
sussurrou um deles para o outro.
“Veremos”, foi a resposta, e quem o disse levou a mão à
algibeira, para ver se o relógio estaria ali quando requisitado.
“Estão todos prontos?”, perguntou Cutícula, aproximando-se
de seu comissário. “Esses sujeitos ainda não terminaram?”,
disse, apontando aos três homens do grupo do carpinteiro, que
colocavam pedaços de madeira sob as carretas de canhão que
davam suporte à mesa principal.
“Acabam de terminar, senhor”, respondeu respeitosamente o
comissário, levando a mão à testa como se houvesse a aba de
um quepe ali.
“Tragam o paciente, então”, disse Cutícula.
“Jovens cavalheiros”, acrescentou ele, voltando-se para a
fileira de assistentes cirurgiões, “vê-los aqui me traz lembranças
das turmas de estudantes que outrora estiveram sob minha
instrução na Faculdade da Filadélfia para Médicos e Cirurgiões.
Ah, que dias felizes!”, ele suspirou, levando uma das pontas de
seu lenço a seu olho de vidro. “Desculpem as emoções de um
homem velho, jovens cavalheiros; mas quando penso em todos
os casos que então ficavam sob meus cuidados não consigo
deixar de dar vazão a meus sentimentos. A vila, a cidade, a
metrópole, jovens cavalheiros, é o lugar para estudantes; pelo
menos na modorra dos tempos de paz, quando o Exército e a
Marinha não oferecem, para um jovem ambicioso, incentivos de
ascensão em nossa honrada profissão. Aceitem o conselho de
um velho homem, e, se a guerra que hoje se insinua entre os
Estados Unidos e o México deflagrar-se,306 troquem suas
comissões na Marinha por comissões no Exército. Por não ter
Marinha militar, o México sempre estará na retaguarda quanto ao fornecimento de indivíduos para as mesas de amputação das
Marinhas estrangeiras. A causa da ciência se esvai em suas
mãos. O Exército, jovens cavalheiros, é a melhor escola; fiem-se
nele. Acredite no que digo, cirurgião Bandagem”, voltando-se
àquele cavalheiro, “esse é meu primeiro caso importante de
cirurgia em quase três anos de viagem. Tenho vivido, neste
navio, quase que totalmente confinado à prática de prescrever
medicamentos para febres e resfriados. Verdade: noutro dia um
homem caiu da verga de gata; mas era apenas um caso grave de
destroncamentos e ossos quebrados e estraçalhados. Ninguém
lhe teria feito uma amputação sem qualquer dano à consciência,
naquela situação. E a minha… posso garantir, cavalheiros, sem
qualquer presunção… é particularmente sensível.”
E, assim dizendo, deixou a faca e o afiador penderem
ternamente ao lado do corpo, e permaneceu por um instante
preso a um doce devaneio; porém uma comoção se fez ouvir do
outro lado da cortina, e ele voltou a si; e, vigorosamente
cruzando e recruzando faca e afiador, bradou:
“Ah, aí vem nosso paciente; cirurgiões, deste lado da mesa,
por favor; jovens cavalheiros, um pouco mais afastados, por
gentileza. Comissário, tire meu paletó… sim; agora, meu lenço;
preciso estar com os movimentos perfeitamente desobstruídos,
cirurgião Patela, ou não consigo fazer o que quer que seja.”
Removidas tais peças, ele tirou a peruca, colocando-a sobre o
cabrestante da coberta dos canhões; em seguida, removeu as
dentaduras, depositando-as ao lado da peruca; e, por fim,
colocando seu indicador no ângulo interno da vista cega, extraiu o olho de vidro com destreza profissional, deixando-o ao lado dos
demais itens.
Assim, desfeito de praticamente todos os acessórios
inorgânicos, o que restava do cirurgião chacoalhou-se
delicadamente para ver se alguma outra coisa poderia ser
dispensada para seu benefício.
“Assistentes de carpinteiro”, bradou ele, “não vão terminar
nunca o trabalho?”
“Tá quase pronto, senhor… quase pronto”, responderam eles,
olhando ao redor à procura da voz estranha, quase incorpórea,
que se dirigia a eles; pois a ausência de dentes não melhorara de
forma alguma o tom do cirurgião da esquadra.
Com curiosidade natural, esses homens tinham
propositadamente se atrasado para ver tudo que pudessem; mas
agora, sem outras desculpas, pegaram seus martelos e cinzéis,
e, como construtores de palco debandando de uma convenção
pública na última hora, logo depois de terem completado o púlpito
para o primeiro falante, afastaram-se.
A bandeira, enorme, foi então erguida, revelando uma
brevíssima perspectiva dos marinheiros do outro lado, e o
paciente, trazido sobre os braços de dois de seus companheiros
de rancho, adentrou o espaço. Estava bastante emaciado, fraco
como uma criança; cada membro seu tremia visivelmente, ou
antes se agitava, como a cabeça de alguém com degeneração
motora. Como se uma apreensão orgânica e involuntária lhe
tivesse acometido a perna ferida, seus movimentos nervosos
eram tão violentos que um de seus companheiros de rancho foi
obrigado a manter uma das mãos sobre ela.
O gajeiro foi imediatamente estendido sobre a mesa, e os
acompanhantes prenderam-lhe os membros. Foi quando, abrindo
lentamente os olhos, o marinheiro olhou ao redor, observando as
serras e facas reluzentes, as toalhas e esponjas, a sentinela
armada à porta do camarote do comodoro, a fileira de estudantes
de olhos atentos, o cadavérico rosto da morte de Cutícula, agora
com as mangas da camisa enroladas nos braços secos, e a faca
em mãos; em seguida, deparou-se horrorizado com o esqueleto,
vibrando e balançando lentamente diante de si, acompanhando o
leve rolar da fragata na água.
“Recomendo-lhe o perfeito repouso de todos os membros, meu
marinheiro”, disse Cutícula, dirigindo-se a ele; “a precisão de uma
operação é não raro prejudicada pela irrefletida inquietude do
paciente. Mas, se levar em conta, meu bom homem”,
acrescentou, num tom quase compassivo, pressionando
discretamente com a mão a perna do marinheiro, “se tiver
consciência de quão melhor é viver com três membros do que
morrer com quatro e, sobretudo, se soubesse os tormentos a que
marinheiros e soldados estavam sujeitos antes do tempo de
Celso,307 devido à lamentável ignorância da cirurgia que se
praticava na época, certamente agradeceria a Deus do fundo de
seu coração que sua operação aguardou o período dessa era de
esclarecimento, abençoada por um Bell, um Brodie e um Lally.308
Meu caro marinheiro, antes do tempo de Celso, tamanha era a
ignorância geral de nossa nobre ciência que, para prevenir a
excessiva perda de sangue, julgava-se indispensável operar com
uma faca incandescente”, disse, produzindo um exímio
movimento na direção da coxa, “e jogar óleo escaldante sobre as partes”, prosseguiu, elevando seu cotovelo, como se tivesse uma
chaleira na mão, “para cauterizá-lo, depois de terminada a
amputação.”
“Ele está desmaiando!”, disse um dos companheiros de
rancho. “Rápido! Água!” O comissário imediatamente correu ao
gajeiro com a bacia.
Cutícula tomou o pulso do gajeiro e, sentindo-o por um
instante, comentou: “Não se preocupem, homens”, dirigindo-se
aos dois companheiros de rancho. “Ele vai se recuperar logo;
esse desmaio é bastante comum.” E por um instante
permaneceu olhando tranquilamente o paciente.
Assim, o cirurgião da esquadra e o gajeiro propiciavam um
espetáculo que, para uma mente reflexiva, era melhor que um
sermão sobre a mortalidade do homem.
Ali estava um marinheiro que, quatro dias antes, estivera de
pé, ereto — um pilar da vida —, com um braço da grossura de
um mastro e uma coxa forte como um molinete. Porém, o mais
ligeiro toque de um indicador sobre um gatilho fez com que
quedasse estirado, tão fragilizado quanto um bebê recém-
nascido, com uma coxa ferida, totalmente drenada de seu tutano.
E quem era aquele que se postava diante dele como um ser
superior, falando, como se vestisse a si próprio dos atributos da
imortalidade, com indiferença sobre fazer incisões na carne
conspurcada e, desse modo, estender seus anos abreviados?
Quem era que, na condição de cirurgião, parecia interpretar o
papel de um Regenerador da vida? O seco, encolhido, caolho,
desdentado e careca Cutícula; com um tronco semimorto — a
própria visão do memento mori!309
E enquanto, naquelas desesperadas e dilacerantes
premonições da morte que se avizinha, as quais quase
invariavelmente acompanham um ferimento sério à bala, mesmo
no caso dos mais intrépidos espíritos; enquanto perecia e morria,
o olho desse gajeiro outrora robusto agora esmorecia em sua
cabeça como coberto de nuvens que eclipsassem a lua na
Lapônia; já Cutícula, que por anos vivia no tabernáculo
decadente de seu corpo — Cutícula, sem dúvida partilhando das
autoilusões da velhice —, Cutícula deve ter sentido seu quinhão
de vida tão seguro quanto estaria no abraço implacável de um
urso-pardo. De fato, a vida é mais terrível que a morte; e que
homem algum — ainda que seu coração bata dentro de si como
um canhão — que ele não se apegue demais à vida que traz
dentro de si; pois, nas predestinadas necessidades das coisas,
essa vida cingida não está um mínimo mais segura do que a vida
de um homem em seu leito de morte. Hoje, inspiramos o ar com
pulmões sempre elásticos, e a vida corre através de nós como
mil Nilos; mas amanhã podemos entrar em colapso com a morte,
e todas as nossas veias estiolarem como o córrego do Cédron310
durante a seca.
“E agora, jovens cavalheiros”, disse Cutícula, voltando-se aos
cirurgiões assistentes, “enquanto o paciente volta à vida,
permitam-me descrever-lhes a operação muitíssimo interessante
que estou prestes a iniciar.”
“Sr. cirurgião da esquadra”, disse o cirurgião Bandagem, “se
está prestes a palestrar, permita-me entregar-lhe os dentes; eles
tornarão suas palavras mais facilmente compreensíveis.” E, assim dizendo, Bandagem, com uma mesura, colocou os dois
semicírculos de mármore nas mãos de Cutícula.
“Muito obrigado”, disse Cutícula, levando o mármore ao seu
lugar.
“Em primeiro lugar, jovens cavalheiros, permitam-me dirigir sua
atenção à excelente peça anatômica que está diante dos
senhores. Tirei-a de sua caixa e a trouxe para cá de meu
camarote, onde ela ocupa a maca sobressalente; e tudo isso
para seu expresso benefício, jovens cavalheiros. Obtive este
esqueleto pessoalmente com o departamento hunteriano da Real
Faculdade de Cirurgiões em Londres.311 É uma obra de arte.
Mas não temos tempo para examiná-la. A delicadeza proíbe que
eu me estenda numa situação como esta”, comentou, lançando
quase que um olhar benigno na direção do paciente, que então
começava a abrir os olhos. “Mas permitam-me indicar neste
fêmur”, prosseguiu, desencaixando-o do esqueleto, com uma
gentil torção, “o ponto preciso onde pretendo realizar esta
operação. Aqui, jovens cavalheiros, aqui é o ponto. Percebam
que é bem próximo do ponto de articulação com o tronco.”
“Sim”, interpôs à guisa de comentário o cirurgião Cunha,
subindo na ponta dos pés, “sim, jovens cavalheiros, o ponto de
articulação do os innominatum312 com o acetábulo.”
“Onde está seu Bell,313 Dick?”, sussurrou um dos assistentes
ao estudante ao lado. “Cunha passou a manhã toda debruçado
nele, trabalhando só com os nomes difíceis.”
“Cirurgião Cunha”, disse Cutícula, olhando ao redor com
severidade, “poupe-nos de seus comentários no momento, por
favor. Agora, jovens cavalheiros, percebam que, sendo o ponto de operação tão próximo do tronco e dos órgãos vitais, o
procedimento se torna particularmente belo, exigindo mão firme e
um olho preciso; pois, afinal de contas, o paciente pode morrer
em minhas mãos.”
“Rápido, comissário! Água, água; ele está desmaiando de
novo!”, intercederam os dois companheiros de rancho.
“Não se desesperem por seu companheiro, marinheiros”, disse
Cutícula, voltando-se a eles. “Digo a vocês que não é incomum
para o paciente trair alguma emoção nessas ocasiões…
geralmente manifestadas em desmaios; é bem natural que assim
seja. Mas não podemos nos atrasar com a operação. Comissário,
aquela faca… Não, a seguinte… isso. Ele está acordando, acho”,
disse, sentindo o pulso do gajeiro. “Prontos, senhores?”
Essa última observação foi dirigida a um dos assistentes de
cirurgião do Neversink, um rapaz alto, magro e cadavérico,
trajando uma espécie de mortalha feita de tela branca, fechada
até a garganta e cobrindo-o inteiramente. Ele estava sentado
sobre um barril de pavio ao pé da mesa — o esqueleto balançava
próximo a sua cabeça —, pronto para agarrar o membro, como
imitasse o momento em que uma tábua é serrada por um
carpinteiro e seu aprendiz.
“As esponjas, comissário”, disse Cutícula, tirando pela última
vez os dentes e dobrando ainda mais suas mangas. Então,
tomando o paciente pelo pulso: “Preparem-se, marinheiros;
segurem os braços de seu companheiro; prendam-no.
Comissário, coloque a mão na artéria; começarei tão logo o pulso
começar a… agora, agora!”. Deixando cair o pulso, tateando com
cuidado a coxa e curvando-se sobre ela um instante, ele passou a faca fatal sem hesitação pela carne. Assim que ela tocou o
membro, a fileira de cirurgiões simultaneamente abaixou os olhos
na direção de seus relógios, enquanto o paciente permanecia,
com os olhos horrivelmente abertos, numa espécie de transe
desperto. Não se ouvia sequer a respiração dos presentes; mas,
à medida que a carne trêmula se abria num longo e demorado
corte, uma fonte de sangue começou a empoçar entre as
paredes vivas da incisão, e dois caudalosos fluxos, em direções
opostas, começaram a descer pela coxa. As esponjas foram
imediatamente mergulhadas na piscina escarlate; todos os rostos
estavam absolutamente tensos de suspense; o membro tremia; o
homem gritava; os companheiros de rancho o seguravam;
enquanto na circunferência da perna se abria o impiedoso corte.
“A serra!”, disse Cutícula.
Num instante, ela estava em suas mãos.
Totalmente absorvido pela operação, ele estava prestes a
empregá-la, quando, olhando para cima e voltando-se aos
assistentes, ele perguntou: “Algum de vocês, jovens cavalheiros,
gostaria de aplicar a serra? Um caso esplêndido!”.
Muitos foram os voluntários; quando, elegendo um, Cutícula
entregou-lhe o instrumento, dizendo: “Não se apresse. Firmeza!”.
Enquanto os demais assistentes olhavam para seu
companheiro com inveja, ele se entregava com timidez ao
trabalho. Cutícula, que o observava com seriedade, subitamente
lhe arrancou a serra da mão. “Saia, açougueiro! É uma desgraça
para a profissão. Olhe como eu faço!”
Por alguns instantes fez-se ouvir o som assustador da serra
contra o osso; e, então, o gajeiro pareceu partido em dois no quadril, enquanto a perna deslizou lentamente nos braços do
pálido assistente amortalhado, que imediatamente a tomou para
si e a enfiou, longe dos olhos, sob um dos canhões.
“Cirurgião Serra”, disse Cutícula, voltando-se com cortesia ao
cirurgião do Buccaneer, “gostaria de continuar o procedimento
com as artérias? Elas estão a sua disposição, senhor.”
“Vai, Serra; aproveita”, disse o cirurgião Bandagem.
Serra aquiesceu; e enquanto, com modéstia, conduzia a
operação, Cutícula, voltando-se à fileira de assistentes, disse:
“Jovens cavalheiros, agora prosseguiremos com sua instrução.
Passe aquele osso, comissário”.
E, pegando o fêmur com as mãos ainda cheias de sangue e
segurando-o conspicuamente diante de sua plateia, o cirurgião
da esquadra começou:
“Jovens cavalheiros, poderão perceber que, precisamente
neste ponto… aqui… ao qual chamava anteriormente sua
atenção… no ponto correspondente, mais especificamente… a
operação foi executada. Nesta região, jovens cavalheiros, aqui”,
disse, elevando a mão alguns centímetros acima do osso, “mais
ou menos aqui estava a grande artéria. Mas, como puderam
notar, não usei o torniquete; jamais uso. O indicador de meu
comissário é muito melhor do que um torniquete, visto que, muito
mais maleável, permite que as veias menores fiquem
descomprimidas. Mas fui informado, jovens cavalheiros, de que
um certo Seignior Seignioroni, cirurgião de Sevilha,314
recentemente inventou um admirável substituto para o antigo e
desajeitado torniquete. Como o entendo, é algo semelhante a um
compasso de calibre que funciona com um pequeno parafuso de Arquimedes… uma invenção muito sagaz, sob qualquer ponto de
vista.315 Pois as pontas almofadadas no fim dos arcos”, disse,
formando um arco com o indicador e o dedão, “podem ser, então,
aproximadas de tal modo que… mas não estão prestando
atenção a mim, jovens cavalheiros”, interrompeu-se, de súbito.
Mais interessados nos procedimentos do cirurgião Serra, que
agora passava uma linha na agulha para costurar o recobrimento
do coto, os jovens cavalheiros não tiveram qualquer escrúpulo
em desviar sua atenção do palestrante.
Passados mais alguns instantes, o gajeiro, desmaiado, foi
removido à enfermaria. Depois que o paciente desapareceu,
enquanto a cortina voltava à posição inicial, Cutícula, ainda
segurando o fêmur do esqueleto nas mãos ensanguentadas,
prosseguiu com seus comentários; e, após a conclusão,
acrescentou:
“Agora, jovens cavalheiros, uma consequência não menos
interessante dessa operação será encontrar a bala, que, no caso
da não amputação, teria se extraviado mesmo à busca mais
cuidadosa. A bala, jovens cavalheiros, deve ter seguido uma rota
das mais complexas. Em casos em que a direção da bala é
oblíqua, não é incomum que isso aconteça. De fato, o erudito
Hennen316 nos oferece um notável… eu diria quase incrível…
caso do pescoço de um soldado, onde a bala, penetrando no
ponto chamado pomo de adão…”
“Sim”, disse o cirurgião Cunha, elevando-se, “o pomum
Adami.”
“Penetrando pelo ponto chamado pomo de adão”, continuou
Cutícula, enfatizando com dureza as últimas palavras, “perfez toda a circunferência do pescoço e, saindo pelo mesmo buraco
em que tinha entrado, acertou o homem seguinte nas fileiras. Ela
foi posteriormente extraída, diz Hennen, do segundo homem, e
pedaços da pele do primeiro ainda estavam presas a ela. Mas
exemplos de substâncias estranhas que adentram o corpo numa
bala, jovens cavalheiros, são muito frequentes. Lotado, na época,
noutro navio de guerra americano, tive a oportunidade de estar
próximo ao local em que se deu a Batalha de Ayacucho,317 no
Peru. No dia seguinte à luta, vi nas barracas dos feridos um
soldado de cavalaria que, tendo sido gravemente ferido no
cérebro, enlouqueceu e, com sua própria pistola, cometeu
suicídio no hospital. A bala levou consigo para dentro um pedaço
de seu gorro de lã…”
“Em forma de cul-de-sac,318 certamente”, disse o impassível
Cunha.
“Pelo menos desta vez, cirurgião Cunha, o senhor usou o único
termo adequado; aliás, jovens cavalheiros, permitam-me o ensejo
para dizer-lhes que um homem de verdadeira ciência”,
prosseguiu, expandindo um pouco o peito franzino, “usa poucas
palavras difíceis, e essas apenas quando nenhuma mais
responda a seu propósito; enquanto os superficiais em termos de
ciência”, olhando de relance a Cunha, “pensam que por balbuciar
palavras difíceis provam que são entendedores de assuntos
difíceis. Permitam-me depositar esta reflexão no fundo de suas
mentes, jovens cavalheiros; e, cirurgião Cunha”, continuou, com
uma mesura rígida, “permita-me submetê-la a seu discernimento.
Pois bem, jovens cavalheiros, a bala foi posteriormente extraída
puxando as partes externas do cul-de-sac… uma operação simples, mas belíssima. Há um bom exemplo, de certa forma
similar, relatado em Guthrie;319 mas os senhores, é claro, já
devem ter se deparado com ela em seu muito conhecido
trabalho, o Tratado sobre ferimentos a bala. Quando, há mais de
vinte anos, eu estava com lorde Cochrane, então almirante das
fragatas deste país”,320 disse, apontando na direção da costa,
por uma portinhola, “um marinheiro do navio no qual eu estava
lotado, durante o bloqueio da Bahia, teve sua perna…”
Mas, àquela altura, a inquietação dominara completamente
seus ouvintes, principalmente os cirurgiões veteranos; e
voltando-se a eles abruptamente, ele acrescentou:
“Não quero mais detê-los, cavalheiros”, disse, olhando para
cada um deles, “provavelmente o jantar os espera a bordo de
seus respectivos navios. Cirurgião Serra, talvez queira lavar as
mãos antes de ir. Aqui está a bacia, senhor; a toalha limpa está
no soquete. Eu próprio raramente as uso”, completou, tirando seu
lenço. “Preciso deixá-los, cavalheiros”, disse, com um meneio.
“Amanhã, às dez, o membro estará sobre a mesa, e ficarei feliz
de encontrá-los todos na ocasião. Quem está aí?”, perguntou,
virando na direção da cortina, que então se movia.
“Com licença, senhor”, disse o comissário, entrando, “o
paciente está morto.”
“E o corpo também, cavalheiros, precisamente às dez horas”,
disse Cutícula, mais uma vez voltando-se a seus convidados.
“Disse que a operação poderia ser fatal; ele estava muito fraco.
Bom dia para todos.”
E Cutícula partiu.
“Ele não quer dizer, penso eu, que faremos uma autópsia,
certo?”, perguntou o cirurgião Serra, bastante animado.
“Ah, não!”, disse Patela. “É só o jeito dele; ele quer dizer, sem
sombra de dúvida, que o corpo será inspecionado antes de ser
levado a terra firme para o enterro.”
Com seus galões dourados, o grupo de cirurgiões subiu ao
convés; o segundo cúter foi chamado pelo corneteiro e, um a um,
foram deixados a bordo de seus respectivos navios.
No entardecer do dia seguinte, os companheiros de rancho do
gajeiro levaram seus restos mortais à costa e o enterraram no
sempre-verde cemitério protestante, próximo à praia do
Flamengo, perfeitamente avistável da baía.