Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 48 de 101

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Jaqueta Branca

45. Sobre a publicação de poesia num navio de guerra

45

Sobre a publicação de poesia num navio de guerra

 

U de nossa chegada ao Rio de Janeiro, um

incidente sem dúvida divertido ocorreu a um bom conhecido meu,

o jovem Lemsford, o bardo da coberta dos canhões.

Os grandes canhões de uma fragata armada têm blocos de

madeira, chamados tapas, pintados de preto, inseridos em suas

bocas, para mantê-las livres dos borrifos do mar. Essas tapas

deslizam para dentro e para fora muito facilmente, como a tampa

de um barrilete de manteiga.

Aconselhado por um amigo e temendo o destino de sua caixa

de poemas, Lemsford passara recentemente a fazer uso de certo

canhão da coberta, em cujo cano metia seus manuscritos,

rastejando parcialmente para fora da portinhola, removendo a

tapa, inserindo os papéis, fortemente amarrados, e botando tudo

em ordem novamente.

Feito o desjejum, ele e eu estávamos reclinados contra a

gávea principal — à qual, com a permissão de meu nobre senhor,

Jack Chase, eu o convidara —, quando, de repente, escutamos

uma canhonada. Era nosso próprio navio.

“Ah!”, disse um gajeiro, “estão devolvendo a saudação de terra

firme que nos deram ontem.”

“Oh, meu Deus!”, exclamou Lemsford, “minhas Canções das

sereias!” E desceu pelo cordame rumo aos canhões; mas, assim

que chegou à coberta, o canhão no 20 — sua caixa-forte literária

—, explodiu num estrondo terrível.

“E então, meu guarda de popa Virgílio”, perguntou-lhe Jack

Chase, enquanto Lemsford retornava lentamente, subindo pelo

cordame, “conseguiu? Não precisa responder; vejo que foi tarde

demais. Mas não desanime, meu garoto: nenhum editor poderia

ter feito trabalho melhor. Essa é a melhor forma de lançar,

Jaqueta Branca”, voltando-se a mim, “atira bem no meio deles;

para cada canto do poema, uma bala de vinte e quatro libras;

arrebentando o casco dessas cabeças-duras, queiram elas ou

não. E atenção, Lemsford… quanto mais bem executado for o

tiro, menos escuta do seu inimigo. Quando morto, o homem nem

sequer balbucia.”

“Glorioso Jack!”, bradou Lemsford, subindo com pressa e

agarrando-o pela mão. “Diga de novo, Jack! Olhos nos olhos. Por

todos os Homeros, Jack, você fez minha alma ascender como

um balão! Jack, como poeta não passo de um coitado. Nem dois

meses antes de embarcar aqui publiquei um livro de poemas

bastante agressivo em relação ao mundo. Deus sabe o que me

custou. Publiquei o livro, Jack, e o maldito editor me processou

pelo prejuízo; meus amigos mostraram-se acanhados; um ou

dois que gostaram não quiseram se comprometer; e quanto à

ralé, ao populacho de cabeça oca, eles pensaram que tivessem

descoberto um idiota. Que o Diabo os carregue, Jack… O que

chamam de público é um monstro, como o ídolo que vimos no Havaí, com a cabeça de um burro, o corpo de um babuíno e o

rabo de um escorpião!”

“Não gostei disso”, disse Jack. “Quando estou em terra,

também sou parte do público.”

“Perdoe-me, Jack; não é, você é uma parte do povo, assim

como o é a bordo de nossa fragata. O público é uma coisa, Jack,

e o povo, outra.”

“Tem razão”, concordou Jack; “tem toda razão. Virgílio, você é

uma figura excelente; uma joia, meu garoto. O público e o povo!

Sim, sim, meus rapazes, vamos odiar um e nos agarrar ao outro.”