Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 65 de 101

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Jaqueta Branca

62. Uma junta de cirurgiões de fragata

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Uma junta de cirurgiões de fragata

 

P , quando têm lugar

os preparativos de qualquer operação importante em seu

departamento, e não há outras questões que absorvam sua

atenção profissional, convidar seus irmãos cirurgiões, se

disponíveis no momento, para uma cerimoniosa consulta sobre o

caso. E isso, como forma de cortesia, os irmãos cirurgiões

esperam.

Seguindo tal costume, portanto, os cirurgiões dos navios de

guerra americanos ancorados próximos ao Neversink foram

chamados a visitar a fragata em grupo para o aconselhamento

concernente ao caso do gajeiro, cuja situação ficara, então,

crítica. Eles se reuniram a meia-nau e logo tiveram a companhia

de seu respeitado veterano, Cutícula. Quando ele se aproximou,

o grupo inteiro curvou-se e dirigiu-se ao cirurgião com deferência.

“Cavalheiros”, disse Cutícula, sentando-se

despretensiosamente num banco de acampamento que lhe fora

trazido por seu pajem, “temos aqui um caso muito interessante.

Todos viram o paciente, creio eu. A princípio, tinha esperança de

que seria capaz de fazer uma incisão até a bala e removê-la;

mas o estado do paciente não me permitiu. Desde então, a

inflamação e a necrose têm sido acompanhadas de copiosa supuração, grande perda de substância, extrema debilidade e

emaciação. Isso me leva a crer que a bala se rompeu e necrosou

o osso, jazendo cravada no canal medular. Com efeito, não resta

dúvida de que o ferimento é incurável, e a amputação, a única

saída. Mas, cavalheiros, sinto-me numa situação muito delicada.

Garanto aos senhores que não tenho qualquer desejo

profissional de realizar a operação. Peço seu aconselhamento, e,

se vierem mais uma vez visitar o paciente comigo, podemos

então retornar e decidir o melhor a ser feito. Mais uma vez,

gostaria de dizer que não sinto qualquer desejo pessoal de usar

a faca.”

Os cirurgiões reunidos ouviram tais palavras com grande

atenção e, conforme a vontade de seu superior, desceram à

enfermaria, onde o paciente permanecia em estado grave.

Concluído o exame, retornaram a meia-nau, e mais uma vez se

deu a consulta.

“Cavalheiros”, começou Cutícula, sentando-se novamente,

“acabaram de avaliar o membro; viram que não há saída que não

seja a amputação; e agora, cavalheiros, o que dizem? Cirurgião

Bandagem,304 do Mohawk, poderia dar sua opinião?”

“O ferimento é muito grave”, disse Bandagem, um homem

corpulento com uma testa alta e germânica, balançando a

cabeça solenemente.

“Alguma coisa pode salvá-lo, além da amputação?”, perguntou

Cutícula.

“Sua debilidade física é extrema”, observou Bandagem, “mas

já vi casos mais perigosos.”

“Cirurgião Cunha, do Malay”, disse Cutícula, com ares mal-

humorados, “fique à vontade para dar sua opinião; e que ela seja

definitiva, eu peço”, completando com um olhar de reprovação na

direção de Bandagem.

“Se eu pensasse”, começou Cunha, um homem seco e alto,

elevando-se ainda mais sobre a ponta dos pés, “que a bala

tivesse estilhaçado e dividido o fêmur em sua inteireza, incluindo

os trocânteres maior e menor, a linha áspera, a fossa trocantérica

e a intertrocantérica, eu certamente seria favorável à amputação;

mas, senhor, permita-me observar que essa não é minha

opinião.”

“Cirurgião Serra, do Buccaneer”, disse Cutícula, recolhendo

seu fino lábio inferior com irritação e voltando-se a um homem de

rosto arredondado, franco, corado e de olhar sensível, cujo paletó

do uniforme lhe servia belissimamente, enfeitado com uma

quantidade invulgar de galões dourados; “Cirurgião Serra, do

Buccaneer, escutemos sua opinião, por favor. A amputação não

é a única saída, senhor?”

“Desculpe-me”, disse Serra, “oponho-me decididamente a ela;

pois se, até agora, o paciente não se mostrou forte o bastante

para suportar a extração da bala, não vejo como se possa

esperar que passe por uma operação ainda mais severa. Como

não há perigo imediato de gangrena, e o senhor diz que a bala

não pode ser alcançada sem uma grande incisão, eu

recomendaria ao paciente, por ora, tônicos e leves anti-

inflamatórios aplicados na região do ferimento. De forma alguma

eu recorreria à amputação até que outros sintomas se

apresentassem.”

“Cirurgião Patela, do Algerine”, disse Cutícula, com uma

irritação mal contida, virando-se abruptamente na direção do

homem a quem se dirigia, “teria a bondade de dizer se o senhor

não pensa que a amputação é a única solução?”

Patela era o mais jovem do grupo, um homem modesto, cheio

da mais profunda reverência pela ciência de Cutícula e desejoso

de ganhar sua boa opinião, ainda que não quisesse

comprometer-se com uma resposta direta, embora, como o

cirurgião Serra, fosse claramente contra a operação.

“O que o senhor observou, sr. cirurgião da esquadra”, disse

Patela, respeitosamente hesitante, “no que toca à perigosa

condição do membro, parece bastante claro; a amputação

certamente significaria a cura do ferimento; por outro lado, não

obstante sua presente debilidade, o paciente parece ser provido

de forte constituição e pode, assim mesmo, se recuperar e, por

seu tratamento científico, sr. cirurgião da esquadra” — curvando-

se —, “colocar-se mais uma vez inteiro, sem sofrer uma

amputação. De qualquer forma, é um caso bastante delicado, e a

amputação pode ser indispensável; e, se ela precisa ser feita,

que seja sem qualquer demora. Essa é minha opinião sobre o

caso, sr. cirurgião da esquadra.”

“Cavalheiros, o cirurgião Patela”, disse Cutícula, voltando-se a

todos em triunfo, “é claramente da opinião que a amputação deve

ser imediatamente levada a cabo. De minha parte…

individualmente, digo, sem levar em conta o paciente… sinto

muito por tê-lo assim decidido. Mas isso encerra o caso,

cavalheiros… em minha própria opinião, porém, ele tinha se

encerrado anteriormente. Amanhã, às dez horas, será feita a operação. Ficarei feliz de encontrá-los todos na ocasião, assim

como seus garotos”, disse, referindo-se aos cirurgiões

assistentes, ali ausentes. “Bom dia, cavalheiros; às dez horas,

não se esqueçam.”

E Cutícula retirou-se à praça-d’armas.