Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 56 de 101

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Jaqueta Branca

53. Homens do mar particularmente sujeitos ao clima — os efeitos deste sobre o capitão de um navio de guerra

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Homens do mar particularmente sujeitos ao clima —

os efeitos deste sobre o capitão de um navio de

guerra

 

F , em certos casos, alguns aspirantes são culpados

de inescrupulosas práticas contra os marinheiros de uma fragata.

Mas parece incrível que, tendo a princípio recebido a altiva

educação liberal dos cavalheiros, tais aspirantes sejam capazes,

sem exceção, de descer à baixeza de dispor pessoalmente de

maldade contra ser tão comumente degradado quanto um

marinheiro. É, de fato, inacreditável. Mas, quando todas as

circunstâncias são consideradas, não parecerá extraordinário

que alguns deles lancem descrédito a seus certificados. Títulos,

patentes, riqueza e educação não podem desfazer a natureza

humana, a mesma para comodoro e pajem; a diferença reside

apenas nos diferentes modos de desenvolvimento.

No mar, uma fragata abriga e serve de lar para quinhentos

mortais num espaço tão exíguo que estes mal conseguem se

mover sem tocar uns aos outros. Alijados de todos os

passageiros espetáculos que ocupam os olhos, línguas e

pensamentos dos homens de terra firme, os internos de uma

fragata estão entregues a si mesmos e uns aos outros, e todas

as suas reflexões são introspectivas. Uma morbidez da mente é a consequência, sobretudo em longas viagens, acompanhadas

de clima desagradável, calmarias ou ventos contrários. No que

toca a essa nefasta influência, não existem exceções de patente

a bordo. A bem da verdade, as altas posições parecem ainda

mais sensíveis a isso, já que, quanto mais alta a patente, menos

companhia há.

É repugnante, odioso e ingrato discorrer sobre assunto como

esse; no entanto, é preciso dizer que, mediante essas

desagradáveis e hostis experiências, mesmo o capitão de uma

fragata é, em alguns casos, indiretamente induzido a ministrar

castigo corporal a um marinheiro. Nunca navegue sob as ordens

de um capitão que suspeita ser dispéptico ou com tendências

constitutivas à hipocondria.

A manifestação desse tipo de coisa é, por vezes,

impressionante. Na parte inicial da viagem, enquanto se fazia um

longo e tedioso deslocamento de Mazatlán a Callao em mar

aberto, interrompido por ventos contrários e frequentes e

intermitentes calmarias, quando todos os marinheiros estavam

profundamente aborrecidos pelo mar tórrido e monótono, um

bem-humorado gajeiro do traquete, que atendia pela alcunha de

Doce — uma curiosa personagem, à sua maneira —, estando no

poço em meio a uma multidão de marinheiros, tocou-me e disse:

“Tá vendo o velho ali, Jaqueta Branca, caminhando pela popa?

Não parece que ele tá querendo chibatar alguém? Olha lá.”

Para mim, pelo menos, não havia tais indicações visíveis nos

modos do capitão, embora as pancadas que dava contra o baú

de armas com o brando da adriça de pena da vela de ré o tornavam suspeito. Mas qualquer um poderia fazer o mesmo

para matar o tempo de uma calmaria.

“Pode acreditar”, disse o gajeiro, “ele deve ter pensado, não sei

como, que eu tava tirando sarro dele um tempo atrás, quando eu

tava só imitando o velho Escorva, o subchefe de artilharia. Olha

pra ele mais uma vez, Jaqueta Branca, enquanto finjo que

recolho essa corda aqui; se não tiver uma dúzia de chibatadas

atrás das lanternas do olho do capitão, pode me chamar de

‘fuzileiro a cavalo’.280 Se eu pudesse ir até lá cumprimentar ele e

jurar pela Bíblia que eu tava só imitando o Escorva, não ele, ele

não ia ficar pensando essas coisas de mim. Mas não posso fazer

isso; ele acha que eu quis insultar ele. Bom, não posso evitar;

acho que preciso ficar de olho na dúzia do padeiro pra logo.”

Dei uma risada incrédula ao ouvi-lo. Dois dias depois, contudo,

quando estávamos içando a varredoura do sobrejoanete

principal, e o lugar-tenente do quarto repreendia a multidão de

marinheiros nas adriças por sua preguiça — pois o langor dos

homens, induzido pelo calor, fazia a vela parecer rastejar até sua

posição —, o capitão, que caminhava impaciente pelo convés,

subitamente parou e, disparando seu olhar na direção dos

homens, estacou num ponto e bradou: “Doce, maldito seja! Não

consegue levantar nem uma pena, seu canalha! Fique de pé

naquele canhão, senhor; quero lhe ensinar a sorrir desse jeito

diante de um cabo sem fazer o menor esforço. Guardião do

contramestre, onde está a sua chibata? Descarregue uma dúzia

nesse sujeito”.

Tirando o chapéu, o guardião do contramestre olhava para

dentro dele estupefato; a corda enrolada, geralmente guardada ali, não foi encontrada; no instante seguinte, porém, ela deslizou

do topo de sua cabeça, caindo ao chão. Pegando-a e

endireitando-a, ele avançou na direção do marinheiro.

“Senhor”, disse Doce, tocando sucessivas vezes o chapéu na

direção do capitão, “eu estava puxando, senhor, tanto quanto os

demais; eu estava, senhor.”

“De pé naquele canhão”, gritou o capitão. “Guardião, cumpra

com o seu dever.”

Tinham-se ido três chibatadas quando o capitão ergueu o

dedo. “Seu –––,281 ousa ficar de chapéu para receber as

chibatadas! Tire-o já!”

Doce o deixou cair sobre o convés.

“Prossiga, guardião.” E o marinheiro recebeu suas doze

chibatadas.

Com a mão nas costas ele chegou até mim, que estava entre

as testemunhas mais próximas, dizendo: “Ai Deus, ai Deus! Esse

guardião tinha as maldade dele contra mim; ele sempre pensou

que fui eu que espalhei no convés aquela história da mulher dele

em Norfolk. Ai Deus! Passa a mão debaixo da minha camisa,

Jaqueta Branca. Tá vendo? Ele não tinha coisa contra mim, pra

deixar elas marcada desse jeito? E minha camisa toda cortada…

não tá, Jaqueta Branca? Duvido que o almoxarife não leve o dele

com essas chibatadas. Mas eu disse… o diabo que carregue ele,

se não disse… que ele pensou que tinha sido com ele, não com

o Escorva”.