Jaqueta Branca
13. O ermitão de uma fragata em meio à turba
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O ermitão de uma fragata em meio à turba
A L em capítulo anterior me leva a
tratar de nossos amigos em comum, Nord e Williams, os quais,
com o próprio Lemsford, Jack Chase e meus camaradas de
gávea, compreendem praticamente as únicas pessoas a bordo
da fragata com quem eu tinha relações sem qualquer reserva.
Pois, pouco depois de embarcar, percebi que não poderia ser
íntimo de todos. Uma proximidade indiscriminada com toda a
marujada leva a irritações inúmeras e atritos, que não raro
terminam com chibatadas no passadiço. Embora estivesse havia
mais de um ano na fragata, existia um grupo grande de homens
que me era absolutamente estranho, cujos nomes ignorava e que
dificilmente seria capaz de reconhecer se os encontrasse por
acaso nas ruas.
Nos quartinhos em alto-mar, durante a primeira parte da noite,
o convés principal mostra-se geralmente apinhado com suas
multidões de pedestres, passeando de um lado para o outro
ladeados pelos canhões como fossem pessoas procurando ar
fresco na Broadway.90 Nessas ocasiões, é curioso ver os homens
cumprimentando-se com meneios ao reconhecimento uns dos
outros (é possível que uma semana tenha se passado desde seu
último contato); trocando palavras amistosas com amigos; marcando apressadamente algum encontro para o dia seguinte
sobre os mastros, ou passando por grupos inteiros sem se dignar
à menor saudação. A bem da verdade, comparativamente
falando, não era eu o único a ter senão poucos conhecidos a
bordo, embora certamente levasse minha meticulosidade a níveis
excepcionais.
Meu amigo Nord era, arrisco dizer, figura do mais absoluto
interesse; e, se o mistério inclui aventura, era certamente muito
aventureiro. Antes de conseguir ser apresentado a ele por meio
de Lemsford, muitas vezes tive a oportunidade de observar sua
figura alta, magra, aprumada, pavoneando-se como um Dom
Quixote em meio aos pigmeus da guarda de popa, à qual
pertencia. De início, julguei-o excessivamente reservado e
taciturno; o semblante saturnino mostrava-se invariavelmente
carrancudo; e seus modos denotavam antipatia quase repulsiva.
Em suma, parecia ser seu desejo que entendêssemos que sua
lista de amigos de fragata estava já fechada, repleta e completa;
sem lugar para quem quer que fosse. Porém, observando que
Lemsford era o único marinheiro com quem Nord se relacionava,
tive a nobreza de conter meu ressentimento em relação a sua
frieza e não permiti que ele perdesse para sempre a
oportunidade de entrar em contato com alguém de minha capital
importância. Ademais, notei em seu olhar que se tratava de um
conhecedor de bons livros; apostaria minha vida que ele
compreendia o verdadeiro sentido da prosa de Montaigne.91
Percebi que Nord era um profundo pensador; mais do que
suspeitava que estivera preso ao moinho das adversidades. Por tudo isso, meu coração lhe guardava profunda simpatia; estava
determinado a conhecê-lo.
Por fim, obtive sucesso; aconteceu durante um quarto
profundamente silencioso, à meia-noite, quando o vi caminhando
a sós no poço, enquanto a maioria dos homens cochilava sobre
os reparos das caronadas.
Naquela noite, esquadrinhamos toda a pradaria de nossas
leituras; mergulhamos no mais íntimo dos autores para trazer-
lhes à tona os corações; e naquela noite Jaqueta Branca
aprendeu mais do que jamais aprendera numa única noite desde
então.
O homem era um portento. Ele me espantava — tanto quanto
Coleridge o fizera com os soldados entre os quais se alistara.92 O
que teria levado um homem como aquele a embarcar numa
fragata? As razões me eram insondáveis. Da mesma forma, era
um mistério como ele conseguia manter a dignidade, tal como
mantinha, em meio àquela turba. Ele não era marinheiro; tão
ignorante de um navio quanto os homens o são das nascentes
do rio Níger.93 Os oficiais, porém, respeitavam-no; e a marujada
o temia. Isso se notava pelo fato de invariavelmente declinar de
quaisquer funções especiais que lhe fossem atribuídas; e ter a
sorte de jamais se expor ou sujeitar-se à reprimenda. Sem
dúvida, sua postura diante do problema era compartilhada por
outros marinheiros; e desde o início decidiu se portar de forma tal
que jamais corresse o risco de ser açoitado. E deve ter sido isso
— além de qualquer dor incomunicável que nele porventura
houvesse — que fez de Nord um recluso vira-mundos, mesmo
cercado pelo tumulto de um navio de guerra. Provavelmente sua maca não balançava havia muito no convés quando constatou
que, para garantir-se livre daquilo que o amedrontava, precisava
estar disposto a tornar-se, de um modo geral, um misantropo,
expatriando-se socialmente de muitas coisas que lhe teriam
tornado a vida mais suportável. Não obstante, muitos devem ter
sido os acontecimentos que o amedrontaram com o pensamento
de que, por mais que se isolasse e enterrasse, a improbabilidade
de ser submetido àquilo que mais temia jamais atingiria a
infalibilidade do impossível.
Em meu contato com Nord, ele jamais fez alusão a sua vida
pregressa — assunto sobre o qual a maioria dos desgarrados de
estirpe numa fragata é bastante prolixa, relatando aventuras na
mesa de jogo, a indiferença com que perderam fortunas inteiras
numa única rodada, suas esmolas generosas e gratificações a
carregadores e parentes pobres, e, acima de tudo, indiscrições
de juventude e as donzelas de coração partido que deixaram
para trás. Nord não contava quaisquer histórias do gênero. No
que toca a seu passado, este era cerrado e trancado como os
cofres de dinheiro em espécie do Banco da Inglaterra. Pois, a
contar com tudo que dele escapava, nenhum de nós poderia
cravar que tivesse qualquer existência anterior àquele momento.
De qualquer forma, era uma figura do mais absoluto interesse.
Meu outro amigo, Williams, era um típico ianque do Maine,
mascate e, de ofício, professor. Desfiava todo tipo de história
sobre pequenos divertimentos interioranos e arrolava uma
infindável lista de namoradas. Era honesto, esperto, engenhoso,
cheio de alegria e bom humor — um sorridente filósofo. Era uma
inestimável ajuda contra o tédio; assim, visando a estender as vantagens de sua companhia ao saturnino Nord, apresentei-os;
na mesma noite, porém, este ignorou-o por completo, quando
partimos de entre canhões para uma caminhada no convés
principal.