Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 24 de 101

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Jaqueta Branca

21. Uma razão pela qual os marinheiros dos navios de guerra vivem geralmente tão pouco

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Uma razão pela qual os marinheiros dos navios de

guerra vivem geralmente tão pouco

 

N das macas sem fazer menção a

uma injustiça entre os marinheiros digna de desagravo.

Num navio de guerra no mar, os marinheiros permanecem em

regime de quartos alternados; isto é, num intervalo de vinte e

quatro horas, eles entram e saem de serviço a cada quatro. Ora,

o toque de tirar as macas das trincheiras (o espaço aberto para

guardá-las, que corre sobre os balaústres da amurada) soa um

pouco depois do pôr do sol; e o toque de arrumá-las, quando o

turno da manhã é chamado, às oito horas; de modo que, durante

o dia, elas permanecem inacessíveis enquanto leito. Não haveria

qualquer problema com isso, caso os marinheiros tivessem uma

noite completa de sono; porém, noite sim, noite não, seus turnos

permitem apenas quatro horas de sono nas macas. Na verdade,

deduzindo o tempo dado ao turno seguinte para lhe render, e

para você suspender a própria maca e nela subir e dormir de

fato, pode-se dizer que, noite sim, noite não, você tem, quando

muito, três horas de sono. Tendo, portanto, estado sobre o

convés por dois turnos de quatro horas, às oito da manhã é

chegado o seu turno de folga na coberta das macas, e você fica

livre de atribuições até o meio-dia. Sob tais circunstâncias, um marinheiro mercante vai para o beliche e tira proveito de boas

horas de sono. Num navio de guerra, porém, não existe tal

possibilidade; sua maca está guardada na trincheira, e ali

permanecerá até o cair da noite.

Mas talvez haja um canto para você nalgum lugar ao longo das

baterias da coberta dos canhões, onde possa desfrutar de

aprazível cochilo. Como não é permitido recostar-se a bombordo

da coberta de canhões (área reservada como passagem para os

oficiais que seguem para seu salão de fumantes no resbordo da

proa), resta aos marinheiros apenas a área a estibordo. No

entanto, boa parte desse espaço é ocupada por carpinteiros,

veleiros, barbeiros e tanoeiros. Em suma, são tão poucos os

cantos onde se pode dormitar durante o dia numa fragata que

nem mesmo um dentre dez homens de quarto, que

permaneceram oito horas sobre o convés, tiram um cochilo que

seja até a noite seguinte. Repetidas vezes, depois de, por sorte,

ter conseguido um lugar, fui dele despejado por algum

funcionário destacado para mantê-lo safo.

Nas imediações do cabo Horn, o que fora desconfortável

tornou-se de fato uma provação. Totalmente encharcado pela

surriada das águas à noite, por vezes dormi de pé no espardeque

— tremendo enquanto dormia —, à falta de sono em minha

maca.

Durante três dias dos mais tempestuosos, foi-nos dado o

privilégio da coberta (noutras ocasiões terminantemente

interditada), onde se permitiu que estendêssemos as jaquetas e

cochilássemos pela manhã depois de oito horas de exposição

noturna. Esse privilégio, contudo, era risível. Para não falar em nossas jaquetas — usadas como cobertor — completamente

ensopadas, a surriada descia pelas escotilhas e mantinha as

tábuas do assoalho da coberta molhadas; tivessem nos permitido

pendurar as macas, teríamos balançado por sobre a inundação.

De qualquer maneira, tentamos permanecer tão aquecidos e

confortáveis quanto nos fosse possível, sobretudo nos mantendo

próximos e, na ausência do calor de uma fogueira ao lado,

produzindo um pouco de vapor. Talvez vocês já tenham visto

como se encaixotam os corpos dirigidos à ilustração das aulas de

um professor-cirurgião. Assim permanecíamos — pés e cabeças

alinhados, rostos sempre às costas, encaixados uns nos outros

na altura das coxas e dos joelhos. A umidade de nossas

jaquetas, assim densamente reunidas, logo começava a

evaporar. Contudo, era como se despejassem água quente para

que não congelássemos. Era como se estivéssemos “embalados”

nos lençóis ensopados das águas medicinais de uma casa

terapêutica.

Essa posição não podia ser preservada por um considerável

período de tempo sem uma mudança de lado. Três ou quatro

vezes durante as quatro horas que se seguiram fui despertado de

meu cochilo molhado pelo grito áspero de um sujeito que fazia as

vezes de cabo na ponta posterior de minha fileira. “Dorminhocos,

atenção! Preparar para girar!”, e, num duplo movimento, todos

virávamos juntos e nos víamos de frente para o corrimão de

popa, em vez do gurupés. Porém, por mais que você virasse, seu

nariz acabava grudado às costas vaporosas tanto de um quanto

do outro, em ambos os flancos. A mudança de odores advinda do

movimento trazia-nos algum alívio.

Mas por que razão, depois de labutar por oito tempestuosas

horas no convés, à noite, não se permite à tripulação de um

navio de guerra a humilde recompensa de um cochilo seco de

quatro horas no dia seguinte? Por quê? O comodoro e o capitão,

bem como o primeiro lugar-tenente, o capelão, o comissário de

bordo e muitos outros, todos têm a noite inteira recolhidos, como

se estivessem hospedados num hotel em terra firme. E os

aspirantes a lugar-tenente têm seus catres à disposição sempre

que queiram, e mais do que isso — como apenas um deles é

exigido à frente do turno, e eles são muitos, de modo que podem

dividir entre si tal dever, tais oficiais permanecem no convés

apenas quatro a cada doze horas de repouso. Em alguns casos,

a proporção é ainda maior. Enquanto, com o povo, são quatro

horas sim, quatro horas não, continuamente.

Por que razão, então, os marinheiros comuns têm de passar

tão maus bocados nesse quesito? Seria a coisa mais simples do

mundo deixá-los armarem suas redes para um cochilo durante o

dia. Mas não; tal procedimento seria um atentado à integridade

dos acontecimentos diários de um navio de guerra. Parece

indispensável ao efeito pitoresco do espardeque que as macas

permaneçam invariavelmente guardadas do nascer ao pôr do sol.

Mas a principal razão — razão que tem sancionado muitos

abusos neste mundo — é que “não há precedentes”. Marinheiros

dormindo em suas macas durante o dia, depois de oito horas de

exposição a uma tempestade madrugada adentro, é coisa que

praticamente escapa aos registros da Marinha. Façamos, no

entanto, justiça à memória imortal de alguns capitães: registram

os autos da Marinha que, nas imediações do cabo Horn, eles concederam macas à tripulação pela manhã. Que Deus abençoe

tais oficiais de bom coração; e que eles e seus descendentes —

em terra firme ou alto-mar — tenham um sono bom e agradável

enquanto viverem, e uma sesta jamais sonhada quando

morrerem.

É no tocante a coisas como as que perfazem o assunto deste

capítulo que decretos especiais do Congresso são exigidos.

Saúde e conforto — tanto quanto possam ser obtidos segundo as

circunstâncias — deveriam ser legalmente garantidos à

tripulação dos navios de guerra; e não deixadas ao capricho e

juízo de seus comandantes.