Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 81 de 101

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Jaqueta Branca

78. Tempos funestos no rancho

78

Tempos funestos no rancho

 

F e quente calmaria que se nos

abateu na linha do Equador que um companheiro de rancho meu,

de nome Shenly, queixando-se já havia semanas, finalmente

entrou na lista da enfermaria.

Um velho subchefe de artilharia, também integrante do rancho

— Escorva, o homem do lábio leporino, que, honrando o posto,

tinha bile até a boca, pronto para explodir com um cartucho bem

socado de superstições de marinheiro —, esse subchefe regalou-

se com comentários sombrios e cruéis, estranhamente

misturados a um genuíno sentimento e pesar, tão logo se

anunciou o adoecimento de Shenly, que se deu não muito tempo

depois do acidente quase fatal do pobre Careca, capitão da

gávea de proa, outro companheiro de rancho, e do terrível

destino do gajeiro amputado, também nosso companheiro, que

enterráramos no Rio de Janeiro.

Estávamos entre canhões, sentados de pernas cruzadas

durante o almoço, quando foram trazidas as notícias

relacionadas a Shenly.

“Eu sabia, eu sabia”, disse Escorva, a sua maneira fanha. “Cês

que se exploda, mas eu avisei! Pobre homem! Mas que um raio

me parta se eu num sabia. É porque a gente é treze no rancho. Espero que ele num esteja em perigo… né? Pobre Shenly! O raio

que me parta, mas foi quando o Jaqueta Branca veio pro nosso

rancho que isso tudo começou a acontecer. Olha, acho que num

vai sobrar mais do que três até a gente chegar em casa. Mas

como ele tá agora? Algum de vocês foi lá ver ele? Que o diabo o

carregue, seu Jonas! Num sei como cê é capaz de dormir na sua

maca sabendo que fazendo número ímpar no rancho cê fez um

companheiro de rancho morrer, acabou com o Careca pro resto

da vida e emborcou o coitado do Shenly. Um raio que o parta,

você e essa jaqueta sua!”

“Meu caro companheiro de rancho”, disse eu, “não me maldiga,

pelo amor de Deus. A minha jaqueta sim… nisto, eu concordo;

mas não a mim; pois, se o fizer, não duvido que seja o próximo a

emborcar.”

“Subchefe!”, bradou Jack Chase, servindo-se de uma fatia de

carne e colocando-a entre duas bolachas grandes; “subchefe!

Jaqueta Branca é meu amigo particular, e eu compreenderia

como um favor pessoal que deixasse de incomodá-lo. É de mau

gosto, rude, indigno de um cavalheiro.”

“Cê pode desencostar dessa carreta de canhão, Jack Chase?”,

gritou em resposta Escorva, assim que Jack recostou-se nela.

“Preciso ficar o tempo todo limpando a sujeira que vocês deixam

no caminho? Que se danem! Passei uma hora nessa carreta de

canhão hoje mesmo de manhã. Mas tudo isso tem a ver com

esse Jaqueta Branca. Se num fosse por ter gente a mais, num

teria esse tumulto e esse engasgue no rancho. Antes num

tivesse esse aperto todo aqui! Vai pra frente você aí, que eu tô

sentado na minha perna!”

“Pelo amor de Deus, subchefe”, devolvi eu, “se isso o deixa

contente, eu e minha jaqueta deixaremos o rancho.”

“Acho bom…, e já vai tarde!”, respondeu ele.

“E, se ele for, você vai ranchar sozinho, subchefe”, disse Jack

Chase.

“Vai mesmo”, disseram todos.

“Desejo por Deus que todos vocês me deixem em paz!”,

grunhiu Escorva, irritado, coçando a cabeça com a bainha da

faca.

“Você é um tosco, subchefe”, disse Jack Chase.

“Sou um velho turco”, respondeu ele, prendendo entre os

dentes a lâmina plana de sua faca e, então, produzindo um

ríspido rugir.

“Deixem-no, deixem-no, homens”, disse Jack Chase. “É só

manter distância do guizo de uma cascavel, que ela não

chacoalha.”

“Atenção, então, pra ver se ela num morde”, disse Escorva,

batendo e mostrando os dentes; e assim saiu, grunhindo como

chegara.

Embora tenha feito o que pude para enfrentar o

constrangimento com ar de indiferença, preciso dizer o quanto

amaldiçoei minha jaqueta, que pareceu ser o meio de atrelar-me

à morte de um de meus companheiros e o provável falecimento

de outros dois. Pois, não fosse por ela, ainda seria membro de

meu antigo rancho e, assim, teria escapado de fazer o azarado

número ímpar entre meus companheiros de então.

Tudo que pudesse dizer em privado a Escorva não teria efeito;

embora várias vezes tivesse conversado com ele para convencê-lo da impossibilidade filosófica de eu estar ligado aos infortúnios

de Careca, ao marinheiro morto no Rio de Janeiro e a Shenly.

Mas Escorva estava convencido; nada podia demovê-lo; e depois

daquilo ele sempre me viu como os cidadãos virtuosos veem

algum conhecido porém discreto contraventor que escapou aos

grilhões da justiça.

Jaqueta! Jaqueta! A culpa é toda tua, jaqueta!