Jaqueta Branca
9. Dos bolsos que na jaqueta havia
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Dos bolsos que na jaqueta havia
D à jaqueta que vestia.
E que se faça saber, à guisa de introdução ao que se segue,
que, para um marinheiro comum, viver a bordo de um navio de
guerra é como viver num mercado; onde você se veste na soleira
da porta e dorme no porão. Privacidade, não há; nem sequer um
momento de reclusão. Estar por algum instante sozinho é quase
uma impossibilidade física. Come-se numa enorme table
d’hôte;73 dorme-se num espaço coletivo, e a toalete se faz onde
e quando é possível. Não dá para pedir costeleta de carneiro e
uma jarra de clarete; tampouco escolher um quarto para o
pernoite; ou deixar dobradas as calças sobre o encosto da
cadeira; nem tocar a sineta numa manhã chuvosa para pedir o
café da manhã na cama. É como a vida numa enorme fábrica. O
sino toca para o almoço e, com ou sem fome, é preciso comer.
As roupas ficam comprimidas num saco grande de lona,
geralmente pintado de preto, que você pode tirar da “prateleira”
uma vez por dia, sob a penumbra da coberta, em meio à enorme
confusão de quinhentos outros sacos e quinhentos outros
marinheiros mergulhando dentro deles. Para evitar tamanho
inconveniente, muitos marinheiros dividem seus pertences entre
macas e sacos; guardando alguns suéteres e calças na primeira; de modo que possam se trocar à noite, quando se faz silêncio
nas macas. Os ganhos nessa operação, porém, são mínimos.
Não há outro lugar, num navio de guerra, para armazenar o
que quer que seja, além do saco ou da maca. Se você deixar
qualquer coisa cair e se virar por um instante, as chances de
encontrá-la a seguir são de dez para uma.
Ora, ao preparar os planos preliminares e organizar as
fundações daquela memorável jaqueta minha, pensei em todos
esses inconvenientes e decidi enfrentá-los. A ideia era que não
apenas minha jaqueta me mantivesse aquecido, mas que
também fosse projetada de tal forma que guardasse uma ou
duas camisas, um par de calças e miudezas diversas —
utensílios de costura, livros, bolachas e coisas que tais. Com
esse intento, a provi de grande variedade de bolsos, à guisa de
despensas, armário de roupa e guarda-copos.
Os principais compartimentos, em número de dois,
localizavam-se nas fraldas da jaqueta, com ampla e hospitaleira
abertura interna; outros dois, de menor capacidade, foram
projetados em ambos os lados do peito, com abas retráteis que
os separavam, de modo que, em caso de emergência, havendo
necessidade de acomodar objetos maiores, pudessem se tornar
um único bolso. Havia ainda muitos outros recessos discretos por
trás do arrás; de modo tal que minha jaqueta, como um velho
castelo, mostrava-se repleta de escadas sinuosas e alcovas
misteriosas, criptas e gabinetes; e, como uma escrivaninha
pronta a confidencialidades, cheia de pequenos e inesperados
nichos protegidos e compartimentos secretos destinados a
objetos de valor.
Além desses, eram quatro e espaçosos os bolsos externos;
dois deles para esconder livros, quando subitamente desperto de
meus estudos para atender à gávea; e outros dois para enfiar as
mãos em caráter permanente durante as frias vigílias noturnas.
Esse último expediente foi considerado inútil por um de meus
companheiros de posto, que me mostrou um projeto para luvas
marítimas que julgava muito melhor que o meu.
É preciso que se tenha em mente que os marinheiros, mesmo
sob o mais horrendo dos climas, cobrem as mãos apenas
quando estão fora de serviço; e jamais usam luvas nas gáveas,
uma vez que ali eles literalmente têm as vidas em suas próprias
mãos e nada querem entre estas e o cânhamo dos cabos ao qual
se agarram. Portanto, é desejável que, a despeito do que lhes
cubra as mãos, tal material possa ser posto e tirado num piscar
de olhos. Sim, é desejável que seja de tal natureza que, se
apressado numa noite escura — digamos, indo ao leme —, seja
possível enfiá-lo sem quaisquer impedimentos; e não como um
par de luvas de pelica especificamente costuradas para as mãos
direita e esquerda, sem jamais vestir a mão contrária à que
serve.
O projeto de meu companheiro de gávea — ele precisava tê-lo
patenteado — era este: cada luva tinha dois polegares, um de
cada lado; conveniência que dispensa comentários. Porém, se
para marinheiros de primeira viagem, cujos dedos são todos
polegares, a descrição de tais luvas cai muito bem, para Jaqueta
Branca ela não era tão atraente. Pois, quando a mão estava
dentro da luva, o polegar vazio às vezes pendia para dentro da
palma da mão, causando confusão quanto ao paradeiro do polegar verdadeiro; ou, doutro modo, estando cuidadosamente
preso à mão, sugeria continuamente a sensação sem sentido de
que você estava o tempo todo segurando o polegar de outrem.
Não, disse a meu bom companheiro de gávea que desse o fora
com seus quatro polegares, pois eu não tinha o que fazer com
eles; para qualquer homem, dois polegares bastavam.
Por algum tempo depois de finalizar minha jaqueta e ocupar-
lhe os espaços com toda a mobília e artigos de despensa, pensei
que nada seria capaz de superá-la em conveniência. Agora eram
poucas as vezes que eu tinha de visitar meu saco e ser
acotovelado e empurrado pela multidão que tinha o guarda-roupa
empilhado. Qualquer coisa que eu quisesse — roupas, agulhas,
linha ou literatura —, era mais do que provável que a
encontrasse em minha inestimável jaqueta. Digo-lhes com
franqueza: chegava a abraçar e festejar minha jaqueta; até que,
ai!, uma chuva prolongada levou-me a encará-la em sua crua
realidade. Eu, e todos os meus bolsos e o que neles trazia,
ficamos completamente ensopados. Minha edição de bolso de
Shakespeare reduziu-se a uma omelete.
Servindo-me, entretanto, do belo dia que se seguiu, esvaziei-a
de meus pertences e espalhei-os para que secassem. Porém, a
despeito do sol que reluzia, foi um dia escuro para mim. Os
canalhas do convés viram-me no ato de me desfazer de minha
carga saturada; agora sabiam que a jaqueta branca era utilizada
como armazém. A consequência disso foi que, com meus
pertences devidamente secos e mais uma vez guardados em
meus bolsos, na noite seguinte, quando fazia meu turno de vigília
no convés, não na gávea (onde todos eram gente de bem), notei que havia um grupo de homens a seguir-me sorrateiramente
aonde quer que fosse. Sem exceção, eram todos punguistas,
empenhados em pilhar-me. Foi em vão que apalpei
continuamente os bolsos como um velho cavalheiro nervoso em
meio a uma multidão; naquela mesma noite me vi privado de
vários objetos de valor. Assim, por fim, concretei meus cofres e
despensas; e, exceto pelos dois bolsos que usava à guisa de
luva, a partir dali a jaqueta branca foi deles destituída.