Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 12 de 101

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Jaqueta Branca

9. Dos bolsos que na jaqueta havia

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Dos bolsos que na jaqueta havia

 

D à jaqueta que vestia.

E que se faça saber, à guisa de introdução ao que se segue,

que, para um marinheiro comum, viver a bordo de um navio de

guerra é como viver num mercado; onde você se veste na soleira

da porta e dorme no porão. Privacidade, não há; nem sequer um

momento de reclusão. Estar por algum instante sozinho é quase

uma impossibilidade física. Come-se numa enorme table

d’hôte;73 dorme-se num espaço coletivo, e a toalete se faz onde

e quando é possível. Não dá para pedir costeleta de carneiro e

uma jarra de clarete; tampouco escolher um quarto para o

pernoite; ou deixar dobradas as calças sobre o encosto da

cadeira; nem tocar a sineta numa manhã chuvosa para pedir o

café da manhã na cama. É como a vida numa enorme fábrica. O

sino toca para o almoço e, com ou sem fome, é preciso comer.

As roupas ficam comprimidas num saco grande de lona,

geralmente pintado de preto, que você pode tirar da “prateleira”

uma vez por dia, sob a penumbra da coberta, em meio à enorme

confusão de quinhentos outros sacos e quinhentos outros

marinheiros mergulhando dentro deles. Para evitar tamanho

inconveniente, muitos marinheiros dividem seus pertences entre

macas e sacos; guardando alguns suéteres e calças na primeira; de modo que possam se trocar à noite, quando se faz silêncio

nas macas. Os ganhos nessa operação, porém, são mínimos.

Não há outro lugar, num navio de guerra, para armazenar o

que quer que seja, além do saco ou da maca. Se você deixar

qualquer coisa cair e se virar por um instante, as chances de

encontrá-la a seguir são de dez para uma.

Ora, ao preparar os planos preliminares e organizar as

fundações daquela memorável jaqueta minha, pensei em todos

esses inconvenientes e decidi enfrentá-los. A ideia era que não

apenas minha jaqueta me mantivesse aquecido, mas que

também fosse projetada de tal forma que guardasse uma ou

duas camisas, um par de calças e miudezas diversas —

utensílios de costura, livros, bolachas e coisas que tais. Com

esse intento, a provi de grande variedade de bolsos, à guisa de

despensas, armário de roupa e guarda-copos.

Os principais compartimentos, em número de dois,

localizavam-se nas fraldas da jaqueta, com ampla e hospitaleira

abertura interna; outros dois, de menor capacidade, foram

projetados em ambos os lados do peito, com abas retráteis que

os separavam, de modo que, em caso de emergência, havendo

necessidade de acomodar objetos maiores, pudessem se tornar

um único bolso. Havia ainda muitos outros recessos discretos por

trás do arrás; de modo tal que minha jaqueta, como um velho

castelo, mostrava-se repleta de escadas sinuosas e alcovas

misteriosas, criptas e gabinetes; e, como uma escrivaninha

pronta a confidencialidades, cheia de pequenos e inesperados

nichos protegidos e compartimentos secretos destinados a

objetos de valor.

Além desses, eram quatro e espaçosos os bolsos externos;

dois deles para esconder livros, quando subitamente desperto de

meus estudos para atender à gávea; e outros dois para enfiar as

mãos em caráter permanente durante as frias vigílias noturnas.

Esse último expediente foi considerado inútil por um de meus

companheiros de posto, que me mostrou um projeto para luvas

marítimas que julgava muito melhor que o meu.

É preciso que se tenha em mente que os marinheiros, mesmo

sob o mais horrendo dos climas, cobrem as mãos apenas

quando estão fora de serviço; e jamais usam luvas nas gáveas,

uma vez que ali eles literalmente têm as vidas em suas próprias

mãos e nada querem entre estas e o cânhamo dos cabos ao qual

se agarram. Portanto, é desejável que, a despeito do que lhes

cubra as mãos, tal material possa ser posto e tirado num piscar

de olhos. Sim, é desejável que seja de tal natureza que, se

apressado numa noite escura — digamos, indo ao leme —, seja

possível enfiá-lo sem quaisquer impedimentos; e não como um

par de luvas de pelica especificamente costuradas para as mãos

direita e esquerda, sem jamais vestir a mão contrária à que

serve.

O projeto de meu companheiro de gávea — ele precisava tê-lo

patenteado — era este: cada luva tinha dois polegares, um de

cada lado; conveniência que dispensa comentários. Porém, se

para marinheiros de primeira viagem, cujos dedos são todos

polegares, a descrição de tais luvas cai muito bem, para Jaqueta

Branca ela não era tão atraente. Pois, quando a mão estava

dentro da luva, o polegar vazio às vezes pendia para dentro da

palma da mão, causando confusão quanto ao paradeiro do polegar verdadeiro; ou, doutro modo, estando cuidadosamente

preso à mão, sugeria continuamente a sensação sem sentido de

que você estava o tempo todo segurando o polegar de outrem.

Não, disse a meu bom companheiro de gávea que desse o fora

com seus quatro polegares, pois eu não tinha o que fazer com

eles; para qualquer homem, dois polegares bastavam.

Por algum tempo depois de finalizar minha jaqueta e ocupar-

lhe os espaços com toda a mobília e artigos de despensa, pensei

que nada seria capaz de superá-la em conveniência. Agora eram

poucas as vezes que eu tinha de visitar meu saco e ser

acotovelado e empurrado pela multidão que tinha o guarda-roupa

empilhado. Qualquer coisa que eu quisesse — roupas, agulhas,

linha ou literatura —, era mais do que provável que a

encontrasse em minha inestimável jaqueta. Digo-lhes com

franqueza: chegava a abraçar e festejar minha jaqueta; até que,

ai!, uma chuva prolongada levou-me a encará-la em sua crua

realidade. Eu, e todos os meus bolsos e o que neles trazia,

ficamos completamente ensopados. Minha edição de bolso de

Shakespeare reduziu-se a uma omelete.

Servindo-me, entretanto, do belo dia que se seguiu, esvaziei-a

de meus pertences e espalhei-os para que secassem. Porém, a

despeito do sol que reluzia, foi um dia escuro para mim. Os

canalhas do convés viram-me no ato de me desfazer de minha

carga saturada; agora sabiam que a jaqueta branca era utilizada

como armazém. A consequência disso foi que, com meus

pertences devidamente secos e mais uma vez guardados em

meus bolsos, na noite seguinte, quando fazia meu turno de vigília

no convés, não na gávea (onde todos eram gente de bem), notei que havia um grupo de homens a seguir-me sorrateiramente

aonde quer que fosse. Sem exceção, eram todos punguistas,

empenhados em pilhar-me. Foi em vão que apalpei

continuamente os bolsos como um velho cavalheiro nervoso em

meio a uma multidão; naquela mesma noite me vi privado de

vários objetos de valor. Assim, por fim, concretei meus cofres e

despensas; e, exceto pelos dois bolsos que usava à guisa de

luva, a partir dali a jaqueta branca foi deles destituída.