Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 49 de 101

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Jaqueta Branca

46. O comodoro na popa e um homem do “povo” nas mãos do cirurgião

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O comodoro na popa e um homem do “povo” nas

mãos do cirurgião

 

U do lançamento das Canções das

sereias de Lemsford, sucedeu-se um triste incidente com um

companheiro de rancho, um dos capitães da gávea de gata. Era

um pequeno e belo escocês que, devido à prematura queda de

cabelo no topo de sua cabeça, recebera a alcunha de Careca. A

calvície, sem dúvida alguma, era em grande parte atribuível à

mesma causa que cedo enfraquece as madeixas de muitos

homens do mar — a saber, o duro, inflexível e pesado chapéu de

lona alcatroada, obrigatório na Marinha e nos navios de guerra,

que, quando novo, é duro o bastante para que se sente nele e,

de fato, em lugar das próprias mãos, às vezes serve ao

marinheiro de banco.

Ora, não há o que dê mais orgulho ao comodoro de uma

esquadra do que a celeridade com que seus homens são

capazes de trabalhar no velame e executar todas as manobras

relativas a ele. Tal sentimento manifesta-se sobretudo no porto,

quando todas as demais fragatas de seu esquadrão estão

próximas, e talvez os vasos armados de nações rivais.

Nessas ocasiões, cercado de capitães reformados que em

nada diferem de sátrapas — cada qual um rei para suas ilhas flutuantes —, o comodoro é figura dominante, o imperador de

todo um arquipélago de carvalho, magistrial e magnificente como

o sultão das ilhas de Sulu.

Mas, assim como o grande e poderoso Carlos costumava se

divertir em sua caduca velhice assistindo ao girar das

engrenagens de uma longa fileira de relógios, um velho

comodoro passa seu tempo livre no porto observando o que

chamamos de “exercícios de artilharia” e também os “exercícios

de pano”; que fazem com que as muitas vergas de todos os

navios sob seu comando sejam a um só tempo “braceadas”,

“desamantilhadas” e manobradas em sinal de luto, enquanto o

comodoro se senta, como um rei Canuto,251 sobre um baú de

armas à popa de sua nau capitânia.

Porém, ainda mais nobre que qualquer descendente de Carlos

Magno,252 mais soberbo que um mogol do Oriente e quase tão

misterioso e silencioso quanto o Grande Espírito das Cinco

Nações,253 o comodoro não tem a bondade de verbalizar suas

ordens; elas são dadas por sinais.

E tal qual, mais uma vez, para o velho Carlos foram

inventados os naipes coloridos e alegres do jogo de cartas para

fazer passar-lhe o tempo da senilidade,254 assim também esses

lindos e singelos sinais de flâmulas estampadas em azul e

vermelho devem ter sido inventados para a alegria da velhice de

todos os comodoros.

Ao lado do comodoro fica o aspirante-sinaleiro, com uma

sacola verde-água ao ombro (como um caçador leva consigo sua

sacola de caça), o livro de sinais numa das mãos, e a luneta de

observação na outra. Como esse livro contém os sinais e símbolos maçônicos da Marinha, sendo, portanto, inestimável a

um inimigo, sua capa vem sempre bordejada de chumbo,

garantindo assim seu afundamento no caso de o navio ser

capturado. Não é esse o único tipo de livro merecedor de uma

capa com chumbo, embora sejam muitos os casos em que o

autor, não o encadernador, fornece o metal.

Tanto quanto Jaqueta Branca os entende, esses sinais

consistem de bandeiras de cores variadas, cada qual

representando certo número. Digamos que haja dez bandeiras,

relativas aos números cardinais — a vermelha, no 1; a azul, no 2;

a verde, no 3; e assim por diante; dessa forma, justapondo a

bandeira azul à vermelha, isso equivaleria ao no 21; e se a verde

fosse posta logo abaixo, formaria o no 213. Quão simples,

portanto, por infinitas justaposições, seria multiplicar os vários

números a serem expostos no topo do mastro de gata, mesmo se

apenas com três ou quatro dessas bandeiras.

A cada número um sentido particular é atribuído. O no 100, por

exemplo, pode significar “Exercício de posto”. O no 150, “Homens

ao grogue”. O no 2000, “Arriar vergas de joanete”. O no 2110,

“Está vendo alguma coisa a barlavento?”. O no 2800, “Não”.

E como todo navio de guerra está munido de um livro de

sinais, onde todas essas coisas estão organizadas, é possível

que duas fragatas americanas, embora praticamente

desconhecidas uma da outra e vindas de polos opostos, possam

travar uma conversa bastante despojada pelo ar.

Quando muitas fragatas de uma só nação permanecem

ancoradas num porto, formando amplo círculo ao redor de seu

mestre e senhor, a nau capitânia, é muito interessante ver todos obedecendo às ordens do comodoro, não obstante este jamais

abra a boca.

Assim se sucedia conosco no Rio de Janeiro; e daqui segue a

história de Careca, meu pobre companheiro de rancho.

Certa manhã, obedecendo a um sinal de nossa nau capitânia,

os vários vasos pertencentes ao esquadrão americano então

ancorados no porto largaram seu velame simultaneamente para

secá-lo. Ao entardecer, foi dado sinal para ferrá-lo. Em tais

ocasiões, há grande rivalidade entre os primeiros lugares-

tenentes de diferentes fragatas, que competem entre si para ver

quem há de primeiro ferrar as velas nas vergas. Trata-se de uma

rivalidade compartilhada entre todos os oficiais de cada fragata,

que comandam os diversos gajeiros; de modo que o mastro

principal é todo ímpeto para vencer o traquete, enquanto o

mastro de gata almeja bater a ambos. Estimulados pelos gritos

de seus oficiais, os marinheiros da esquadra são todo esforço.

“Ao alto, gajeiros! Estender! Colher velas!”, bradou o primeiro

lugar-tenente do Neversink.

Imediatamente os homens saltaram ao cordame, e nos três

mastros logo estavam sobre as vergas, afoitos, céleres na

execução das ordens.

No trabalho de ferrar as velas de gávea ou no mastro de gata,

o ponto de honra, a mais difícil das tarefas, está no seio da vela,

ou meio da verga; tal posto compete ao primeiro capitão da

gávea.

“Que estão fazendo aí, gajeiros de gata?”, gritou o primeiro

lugar-tenente, com seu porta-voz. “Malditos, são moles como

ursos russos! Não estão vendo que os gajeiros do mastro principal estão quase saindo da verga? Ao trabalho! Ao trabalho!

Ou corto o grogue de todo mundo! Ei, Careca! Vai dormir aí no

meio da verga?”

Enquanto eram ditas tais palavras, o pobre Careca — sem

chapéu, o suor escorrendo pelo rosto — esforçava-se ao

máximo, recolhendo as enormes e pesadas dobras de lona no

meio da verga; de tempo em tempo mirando o vitorioso Jack

Chase, diante de si, entregue à faina na verga da gávea maior.

Por fim, com a vela devidamente recolhida, Careca saltou com

os dois pés no meio da verga, segurando-se com uma das mãos

numa das amarras, a ostaga, pisando, dessa forma,

violentamente sobre a vela, para compactá-la.

“Maldito Careca, por que não se mexe, ó verme!”, bradou o

primeiro lugar-tenente.

Careca impôs todo o seu peso para domesticar a vela rebelde

e, num instante de imprudência em meio à ação desbragada,

soltou a ostaga.

“Ei, Careca! Tá com medo de cair?”, gritou o primeiro lugar-

tenente.

Nesse momento, com toda a força, Careca saltou sobre a vela;

a gaxeta de meio de verga se rompeu; e um vulto atravessou o

ar. Descendo sobre a guarita da gávea, rolou para fora; e no

instante seguinte, com o terrível estrondo de todos os seus

ossos, Careca desabou, como um raio, sobre o convés.

A bordo da maioria dos grandes navios de guerra, de cada

lado do convés principal, há uma robusta plataforma de carvalho,

de aproximadamente meio metro quadrado. Chega-se a elas por

três ou quatro degraus; e elas são cercadas nas laterais com barras horizontais de latão. São chamadas de apeadeiras; nelas,

o oficial do convés geralmente permanece enquanto dá suas

ordens.

Foi uma dessas apeadeiras, então desocupada, que lhe

amorteceu a queda. O pobre Careca caiu atravessado sobre as

barras de latão, dobrando-as em cotovelos, e destruindo toda a

plataforma de carvalho, com escada e tudo, que se fez em mil

pedaços sobre o convés.

Estava quase morto quando o socorreram, e com ele

desceram ao cirurgião. Seus ossos pareciam os de um homem

despedaçado na roda;255 ninguém pensava que sobreviveria à

noite. Com o tratamento habilidoso do cirurgião, porém, sua

recuperação logo pareceu promissora. Cutícula, o cirurgião,

dedicou todo o seu saber ao caso.

Uma curiosa estrutura de madeira foi construída para o homem

ferido; e nela, com todos os seus membros esticados, Careca

permaneceu deitado no chão da enfermaria por muitas semanas.

Quando finalmente aportamos em casa, ele já era capaz de

coxear sobre muletas; porém, do homem de rosto corado e em

perfeita saúde restava um mero esqueleto torto, branco como

espuma; neste momento, talvez, seus ossos estejam curados e

inteiros no repouso final de um homem de fragata.

Não muitos dias depois do acidente de Careca ao colher as

velas, um marinheiro de um navio de linha de batalha inglês,

ancorado próximo ao nosso, caiu da verga de sobrejoanete

grande — da mesma forma frenética, sob o mesmo estímulo dos

gritos de um oficial — e enterrou os ossos de seus tornozelos no convés, nele imprimindo dois buracos, como se cavados pela

goiva do carpinteiro.

A verga de sobrejoanete forma uma cruz com o mastro. Cair

dessa cruz elevada num navio de linha de batalha é quase como

cair da cruz da catedral de são Paulo; quase como cair, à

maneira de Lúcifer, da fonte das manhãs direto no Flegetonte da

noite.256

Em alguns casos, um homem assim lançado de uma verga cai

sobre seus próprios companheiros nas gáveas e os arrasta

consigo para uma destruição conjunta.

Praticamente nunca se tem notícia de um navio de guerra que

retorna para casa depois de uma viagem sem que tenha perdido

homens de sua tripulação caídos das vergas, enquanto acidentes

similares na marinha mercante — considerando-se o número

muito maior de homens nela empregado — são relativamente

poucos.

Por que não sermos francos? A morte da maioria desses

marinheiros dos navios de guerra jaz à porta das almas dos

oficiais que, enquanto permanecem no convés, não vacilam em

sacrificar um ou dois homens imortais para ostentar a disciplina

superior do navio. Assim, sofre o povo da coberta dos canhões,

para que o comodoro à popa seja glorificado.