Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 69 de 101

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Jaqueta Branca

66. Diversão num navio de guerra

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Diversão num navio de guerra

 

D ( ), tivemos muitos dias

de bom tempo, durante os quais continuamos a correr, com os

alísios à popa, rumo ao norte. Exultantes com a ideia de estarem

no caminho de casa, muitos marinheiros mostravam-se festivos,

e a disciplina do navio afrouxou-se um pouco. Muitos

divertimentos servem para matar o tempo, em particular durante

os primeiros quartinhos. Esses primeiros quartinhos

(compreendendo as duas primeiras horas do início da noite)

compõem o único momento de recreação permitido para as

tripulações da maioria dos navios no mar.

Entre outras diversões consentidas pela autoridade a bordo do

Neversink, estavam a briga de bastões, luta, martelo e bigorna e

bater cabeças. Todos esses passatempos tinham o apoio e o

estímulo do capitão, pois de outro modo — a ver pelas

consequências às quais levavam às vezes — seriam sem dúvida

alguma absolutamente proibidos. É uma curiosa coincidência

que, quando um capitão da Marinha não é amante da “ars

porradae”,342 sua tripulação raramente se diverte dessa forma.

A briga de bastões, como todos sabem, é um agradabilíssimo

passatempo que consiste em dois homens de pé a poucos pés

de distância um do outro golpeando violentamente a cabeça do adversário com longos bastões. É uma atividade que diverte um

bocado, desde que você não seja atingido; um golpe, contudo —

no julgamento de pessoas de discernimento e juízo —, acaba

com a brincadeira por completo. Quando praticado por

entusiastas do esporte em terra firme, os adversários usam

pesados elmos de ferro para aplacar a força dos golpes. Os

únicos elmos de nossos marinheiros, entretanto, eram aqueles

com que a natureza os havia equipado. Era jogado com enormes

soquetes de canhão.

A luta consiste na briga de bastões substituindo os bastões de

madeira pelos de osso. Dois homens ficam a certa distância um

do outro e golpeiam-se com seus punhos (um duro feixe de

dedos permanentemente preso aos braços, ora fechado em

forma de pomo, ora aberto em forma de palma, ao gosto do

proprietário), até que um dos lutadores, suficientemente

golpeado, grita “Basta”.

O martelo e bigorna é praticado por amadores da seguinte

forma: o paciente no 1 fica de quatro, parado; e o paciente no 2 é

erguido por seus braços e pernas, enquanto seu traseiro é

lançado contra o traseiro do paciente no 1, até que este, com a

força do golpe final, seja mandado para longe no convés.

Bater cabeças, tal como o capitão Claret o estimulava, consiste

em dois negros (os brancos não participam) avançando um

contra o outro como se fossem carneiros. Esse passatempo

estava entre os favoritos do capitão. Nos primeiros quartinhos,

Água de Rosas e Emergência eram sucessivas vezes chamados

ao poço a sotavento para projetarem-se um contra o outro para a

alegria e saúde do capitão.

Emergência era, como o chamavam os marinheiros, um “touro

negro” puro-sangue, dotado de um crânio que mais parecia uma

chaleira, donde sua particular predileção pelo esporte. Mas Água

de Rosas era um mulato esguio e belo e o detestava. No entanto,

as ordens do capitão deviam ser seguidas; e assim, a seu

comando, o pobre Água de Rosas via-se obrigado a colocar-se

em posição de defesa — doutro modo, o descontrolado

Emergência o golpearia para fora da portinhola, direto no mar. Eu

costumava lamentar, do fundo do meu coração, a situação de

Água de Rosas. Mas minha pena quase se tornou indignação

diante do triste desfecho de uma dessas cenas gladiatórias.

Parece que, insuflado pela admiração sincera, embora

verbalmente inexistente, do capitão, Emergência começara a

desprezar Água de Rosas como um covarde — um sujeito que

era só cérebro e nenhum crânio; enquanto ele próprio era um

grande guerreiro, todo crânio e nenhum cérebro.

Assim, depois de eles terem cabeceado um ao outro para o

divertimento do capitão, Emergência chamou Água de Rosas, em

tom de confidência, de “crioulo”, termo que, entre alguns negros,

é tido como grande ofensa. Enfurecido com o insulto, Água de

Rosas deu a entender a Emergência que ele estava de todo

errado; pois sua mãe, uma escrava negra, fora uma das amantes

de um latifundiário da Virgínia, membro de uma das mais antigas

famílias do estado. Outro comentário ofensivo seguiu-se a esse

inocente desfecho; réplica deu lugar a réplica; e, por fim, eles se

atracaram em luta mortal.

O mestre-d’armas os prendeu em flagrante e levou ao mastro.

O capitão avançou.

“Por favor, senhor”, disse o pobre Água de Rosas, “veio tudo

daquele bate-cabeça. O Emergência aqui ficou irritado comigo.”

“Mestre-d’armas”, disse o capitão, “o senhor os viu brigar?”

“Sim, senhor”, disse o mestre-d’armas, tocando o chapéu.

“Amarrar o gradil”, disse o capitão. “Ensinarei aos dois que,

embora vez por outra lhes permita brincar, não quero brigas a

bordo. Ao dever, guardiões do contramestre!” E os negros foram

açoitados.

Justiça seja feita, deve-se registrar o fato de o capitão não ter

demonstrado qualquer leniência com Emergência — sem dúvida,

um de seus favoritos, pelo menos no que toca ao ringue. Ele

açoitou seus dois réus da forma mais imparcial.

No que toca à cena no passadiço, logo depois da

representação teatral no cabo Horn, quando minha atenção se

voltara ao fato de os oficiais terem trazido a bordo suas máscaras

de tombadilho — nessa ocasião, via-se com que facilidade um

oficial naval assume sua costumeira severidade de modos depois

de um eventual momento de relaxamento. Esse foi, em especial,

o caso com o capitão Claret. Pois qualquer homem de terra firme

que o tivesse observado no poço a sotavento, num primeiro

quartinho, com o semblante afável e bem-humorado, observando

os gladiadores no ringue, e vez por outra permitindo-se um

divertido comentário — esse homem de terra firme teria pensado

que o capitão Claret era o pai indulgente de sua tripulação, talvez

deixando que o excesso de bondade abusasse da dignidade de

seu posto. Tal homem teria considerado o capitão Claret um belo

exemplo daquelas duas bem conhecidas comparações poéticas

entre um capitão do mar e um pai e entre um capitão do mar e o mestre para os aprendizes, instituídas por aqueles eminentes

juristas marítimos, os nobres lordes Tenterden e Stowell.343

Mas, certamente, se há qualquer coisa detestável, é essa

investidura do rosto de tombadilho que se sucede a um rosto feliz

e pacífico. Como têm coragem? Penso eu que, se sorrisse uma

vez para um homem — independentemente de quão abaixo ele

estivesse de mim —, não teria condições de condená-lo ao

acachapante horror da chibata. Ó, oficiais do mundo inteiro! Se é

o rosto de tombadilho o que usam, então jamais o troquem por

outro de que se valham por um instante. De todos os insultos, a

condescendência temporária de um senhor diante de seu

escravo é a mais revoltante e exasperante. Atenção ao potentado

mais condescendente; pois é esse potentado que se provará,

dada a ocasião, o mais rematado tirano.