Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 9 de 101

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Jaqueta Branca

6. O estado maior e o estado menor de uma fragata, os subordinados da coberta das macas de um navio de guerra; onde vivem no navio; como vivem; sua posição social a bordo; e que tipo de cavalheiros são

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O estado maior e o estado menor de uma fragata,40

os subordinados da coberta das macas de um navio

de guerra; onde vivem no navio; como vivem; sua

posição social a bordo; e que tipo de cavalheiros

são

 

J das várias divisões que

compunham nossa tripulação; então talvez seja válido dizer algo

sobre os oficiais; quem são e quais suas funções.

Que se faça de conhecimento geral que era nossa embarcação

uma nau capitânia; isto é, que trazia arvorada um distintivo de

comando, ou flâmula larga, ao alto do mastro principal,

sinalizando que levávamos conosco um comodoro — a mais alta

patente reconhecida na Marinha americana. Tal sinalização não

deve ser confundida com os galhardetes, bandeirolas afiladas e

serpentinas utilizadas em todos os navios de guerra.

Em razão de vagos escrúpulos republicanos no tocante à

criação de altas patentes na Marinha, os Estados Unidos até hoje

não conhecem almirantes; embora, diante do crescimento

numérico de suas fragatas, estes possam se tornar

indispensáveis.41 Isto certamente acontecerá, caso a Marinha

algum dia venha a ter a oportunidade de empregar armadas

numerosas; em tais circunstâncias, é mais do que provável que ela adote algo como o modelo britânico, introduzindo, acima do

comodoro, três ou quatro graus de oficiais-generais — almirante,

vice-almirante e contra-almirante; cuja distinção se fará pelas

cores de suas bandeiras — vermelha, branca e azul,

correspondentes a centro, vante e ré. Suas patentes

correspondem às de marechal-general, marechal de campo e

general de brigada no Exército; assim como o comodoro está em

linha com o brigadeiro-general. Ou seja, o mesmo preconceito

que impede o governo americano de nomear almirantes devia ter

obstado a nomeação de todas as patentes de exército superiores

a brigadeiro.42

Um comodoro americano, como o inglês de mesmo nome ou

um chef d’escadre francês, não é mais do que um capitão

veterano posto temporariamente à frente de um pequeno

contingente de navios e assim destacado com algum propósito

específico. Ele não tem uma posição permanente, reconhecida

pelo governo, para além de sua função de capitão; embora, uma

vez empregado como comodoro, o costume se alie à cortesia

para que se lhe mantenha o título.

Nosso comodoro era um senhor de belo porte que conhecera

muita ação em seu tempo. Quando lugar-tenente, prestara

serviços na última guerra contra a Inglaterra; e em missão a

bordo de um bote armado nos lagos próximos a New Orleans,

pouco antes dos grandes confrontos por terra, recebera um tiro

de bala de mosquete no ombro. Esférica como os olhos que traz

nas órbitas do rosto, ele a carrega consigo até os dias de hoje.43

Não raro pensei, enquanto observava aquele venerável

guerreiro arquejado por seu ferimento, que sensação a um só tempo curiosa e dolorosa deve ser ter no próprio ombro uma

mina de chumbo; embora, verdade seja dita, muitos de nós

mortais civilizados transformemos nossas bocas em verdadeiras

Golcondas.44

Em virtude do ferimento no ombro, nosso comodoro recebia,

além do pagamento em si, o adicional referente a um criado

particular. Não posso dizer muito mais a respeito do comodoro,

pessoalmente; ele jamais procurou minha companhia, nem a mim

estendeu as cortesias adequadas a um cavalheiro.

Mas, muito embora não possa dizer muita coisa a seu respeito

pessoalmente, posso fazê-lo no que toca a seu caráter como

oficial-general. Em primeiro lugar, à época, eu alimentava fortes

suspeitas de ele ser mudo; pois, tanto quanto coube a meus

ouvidos, jamais proferiu uma palavra que fosse. E não apenas

parecia ele próprio incapaz de falar, como sua presença dispunha

do estranho poder de tornar os demais presentes

momentaneamente mudos. Sua aparição no tombadilho parecia

causar trismos em todos os oficiais.

Outro fenômeno a ele relacionado era o estranho modo com

que todos o evitavam. Ao primeiro sinal do surgimento de suas

dragonas a barlavento na popa, os oficiais ali congregados

invariavelmente recolhiam-se a sotavento e deixavam-no

sozinho. Talvez sofresse de alguma maldição; talvez fosse o

judeu errante a bordo.45 A verdadeira razão talvez fosse que,

como todo aquele que pertence a um alto escalão, ele julgasse

indispensável preservar sob aura religiosa a sua dignidade; uma

das coisas mais complicadas do mundo, e que exigia enorme

poder de abnegação. E a constante vigilância e os excessivos cuidados de todos os lados, requeridos à manutenção da

dignidade de um comodoro, claramente mostram que, para além

da dignidade comum ao gênero humano, os comodoros, em

geral, não dispõem de dignidade alguma. De fato, é oportuno às

cabeças coroadas, a generalíssimos, lordes grão-almirantes e

comodoros, caminhar com postura rigorosamente ereta, atentos

a incômodos cervicais; não deixa de ser verdade, porém, de que

se trata de uma postura arrogante, extremamente desconfortável

para si mesmos, além de ridícula para uma geração esclarecida.

Ora, quantos bons companheiros havia entre nós, homens da

gávea principal, que, convidados a sua cabine para uma ou duas

garrafas de convívio, teriam aquecido o coração de nosso velho

comodoro e feito com que seu antigo ferimento se curasse para

todo o sempre.

Vamos lá, comodoro, não fique tão amargurado, meu velho;

suba aqui na gávea, que nós lhe contaremos uns bons casos!

De fato, eu me via muito mais feliz naquela jaqueta branca que

envergava do que o velho comodoro na grandeza de suas

dragonas.

Talvez uma coisa que, mais do que tudo, ajudava a tornar

nosso comodoro tão melancólico e infeliz fosse o fato de ter tão

pouco para fazer. Pois como a fragata tinha um capitão; é claro

que, tanto quanto concernisse a ela, nosso comodoro era

supranumerário. Que abundância de tempo livre deve ele ter tido

ao longo de três anos de viagem; como deve ter ampliado seus

horizontes mentais nesse período!

Mas, como todos sabem que a desocupação é a mais dura das

ocupações deste mundo, nosso comodoro dispunha de um cavalheiro para auxiliá-lo. Tal cavalheiro era chamado de

secretário do comodoro. Era um homem particularmente urbano

e educado; de postura muito graciosa, parecendo-se mais um

embaixador extraordinário de Versalhes. Ele se reunia com os

lugares-tenentes na praça-d’armas, onde ocupava um camarote

particular de mobília tão elegante quanto o gabinete de

Pelham.46 O pajem encarregado de seu catre e dependência

costumava divertir os marinheiros com toda a sorte de histórias

sobre flautas e flajolés com chaves de prata, belas pinturas a

óleo, livros encadernados em couro, peças de xadrez chinês,

camisas com botões de ouro, estojos de caneta com iniciais

gravadas, belas botas francesas cujos solados não tinham

espessura maior que a de uma folha de papel de carta

perfumado, roupas bordadas, cera de selagem com perfume de

incenso, Vênus e Adônis em estatuetas de alabastro,47 caixinhas

de rapé feitas de casco de tartaruga, estojos de higiene pessoal

marchetados, escovas com cabo de mármore e pentes de

madrepérola e uma infinidade de outros utensílios luxuosos

espalhados por seu magnífico gabinete de secretário.

Passei um bom tempo procurando descobrir quais eram as

funções desse secretário. Parece-me que escrevia os despachos

do comodoro a Washington e, de um modo geral, era seu

amanuense. Não era trabalho livre de aborrecimentos, por vezes;

pois alguns comodoros, embora não falem muito a bordo do

navio, têm um bocado de coisas a escrever. Em muitas ocasiões,

o oficial encarregado do regimento, postado à porta do camarote

do comodoro, saudava o primeiro lugar-tenente e, com um ar

misterioso, entregava-lhe um bilhete. Sempre pensei que tais bilhetes pudessem trazer os mais importantes assuntos de

Estado; até que, um dia, encontrando uma tira de papel

umedecida e rasgada num orifício de drenagem, li a seguinte

mensagem:

Senhor, hoje será oferecida à tripulação, além da carne fresca que lhe cabe, picles.

Ao sr. Bridewell, lugar-tenente.

Sob as ordens do comodoro,

Adolphus Dashman, secretário particular48

 

Essa era uma nova revelação; pois, a julgar por sua quase

imutável reserva, eu supunha que o comodoro jamais lidara

diretamente com as questões do navio, deixando tudo aos

cuidados do capitão. Quanto mais vivemos, mais aprendemos

sobre os comodoros.

Voltemo-nos agora ao segundo na escala de patentes, quase

supremo, contudo, no que toca aos assuntos internos do navio. O

capitão Claret era uma espécie de Henrique a bordo —

grande e portentoso, expansivo e vigoroso; e tão monárquico em

sua cabine quanto Harry em seu trono.49 Pois um navio é um

pedaço de terra firme destacado do resto; é um Estado em si

mesmo; e o capitão é seu rei.50

Não se trata de uma monarquia limitada, em que o indômito

povo tem direito a pleito e reclama quando é de seu interesse;

mas de um despotismo praticamente digno do grão-turco.51 A

palavra do capitão é lei; sua fala sempre está em modo

imperativo. Quando ele se posta em seu tombadilho em mar

aberto, comanda tudo que seus olhos podem alcançar. Somente

a lua e as estrelas estão além de sua jurisdição. Ele é o senhor e

mestre do sol.

Não chegamos ao meio-dia até que ele o anuncie. Pois quando

o mestre de navegação, cuja função é fazer a observação regular

ao meio-dia, faz sua saudação ao oficial do convés e comunica o

meio-dia, este funcionário ordena a um aspirante que se dirija à

cabine do capitão e humildemente o informe da respeitosa

sugestão do mestre de navegação.

“Meio-dia informado, senhor”, diz o aspirante.

“Que assim se faça”, responde o capitão.

E o sino dobra oito vezes por obra do mensageiro, e assim se

faz meio-dia.52

Como no caso do comodoro, quando o capitão visita o convés

seus oficiais subordinados comumente batem em retirada para o

lado oposto e, via de regra, jamais se dirigem a ele, exceto para

tratar do próprio navio — assim como um serviçal do tsar da

Rússia jamais cumprimentaria e convidaria seu senhor para um

chá. Talvez nenhum mortal tenha mais razão de sentir sua

própria importância pessoal do que o capitão de um navio de

guerra no mar.

Na sequência hierárquica, vem o primeiro lugar-tenente, um

oficial veterano, o oficial imediato da embarcação. Não tenho

qualquer razão para amar o cavalheiro que ocupava

especificamente tal posto em nossa fragata, pois foi ele quem

indeferiu o pedido da tinta preta que bastasse para

impermeabilizar minha jaqueta branca. Jaz à porta de seu

camarote a culpa por cada vez que me encharquei, me ensopei.

Penso que jamais poderei esquecê-lo; credita-se diretamente a

ele cada pontada reumática que ainda eventualmente sinto. Os

deuses greco-romanos são reputados por sua clemência, e eles talvez possam perdoá-lo; quanto a mim, não me sentirei

pressionado a ser benevolente. De qualquer forma, meus

sentimentos pessoais em relação ao sujeito não hão de me

impedir de fazer-lhe justiça. Na maioria das coisas tratava-se de

um excelente homem do mar; pontual, intenso, cirúrgico; e, como

tal, era muito digno do posto. O primeiro lugar-tenente de uma

fragata necessita ser um bom disciplinador e, principalmente, um

homem enérgico. Por ordens do capitão, ele é responsável por

tudo; precisa de fato se fazer onipresente, a um só tempo no

porão mais profundo e no mais alto dos mastros.

É ele quem ocupa a cabeceira da mesa da praça-d’armas,

assim chamada pois é ali que os oficiais se reúnem para o

rancho. Numa fragata, a praça-d’armas compreende a seção à

popa da coberta. Às vezes ela tem o nome de câmara dos

oficiais, mas amiúde se chama praça-d’armas. Por dentro, ela

mais parece um longo e amplo corredor num imenso hotel; com

numerosas portas se abrindo de um lado e de outro aos

camarotes privativos dos oficiais. Na única oportunidade em que

pude observar o interior da câmara, o capelão estava sentado à

mesa instalada no centro, jogando xadrez com o lugar-tenente

dos fuzileiros; era meio-dia, mas o lugar estava iluminado por

lampiões.

Além do primeiro lugar-tenente, a praça-d’armas inclui os

sublugares-tenentes, que, numa fragata, podem somar seis ou

sete, o mestre de navegação, o capelão, o almoxarife, o

cirurgião, os oficiais-fuzileiros e o mestre-escola dos aspirantes,

ou “professor”. Geralmente, todos formam um clube muito

agradável de bons companheiros; calculado com esmero, por sua própria diversidade, para formar um aprazível conjunto

social. Os lugares-tenente discutem batalhas navais e contam

casos sobre lorde Nelson e lady Hamilton;53 os oficiais-fuzileiros

falam sobre ataques a fortificações e o cerco de Gibraltar;54 o

almoxarife mantém o rumo dessa conversa desgovernada com

eventuais alusões à regra de três; o professor está sempre

envolvido em reflexões acadêmicas ou às voltas com algum

verso clássico apropriado ao momento, geralmente de Ovídio; as

histórias de mesa de amputação do cirurgião se destinam, em

sua sensatez e prudência, a sugerir a transitoriedade humana de

todo o grupo; enquanto o bom capelão permanece a postos para,

a qualquer hora, dar-lhes pios conselhos e conforto a suas

almas.

É claro que todos esses cavalheiros se associam em pé de

perfeita igualdade social.

Na sequência vêm o estado menor, dos oficiais de proa. São

eles o contramestre, o mestre-artilheiro, o mestre-carpinteiro e o

mestre-veleiro. Embora tais ilustríssimos senhores ostentem

casacos longos e botões de âncora, na estima dos oficiais da

praça-d’armas não são, tecnicamente falando, cavalheiros de

valor. Jamais passaria pela cabeça do primeiro lugar-tenente, do

capelão ou do cirurgião, por exemplo, convidá-los para o jantar.

No jargão marítimo, “eles entram pelos escovéns”; suas mãos

são calejadas; e o mestre-carpinteiro e o mestre-veleiro

compreendem apenas em nível prático as funções que são

convocados a inspecionar. Rancham entre si. Sempre em quatro,

jamais precisam jogar uíste com um parceiro imaginário.55

A esta altura da descrição aparece a categoria dos “riza-velas”,

também conhecidos como “aspiras” ou aspirantes. São meninos

enviados ao mar com o propósito de se formarem futuros

comodoros; para tanto, muitos deles julgam indispensável

começar mascando tabaco, tomando conhaque com água e

lançando imprecações contra a marujada. Levados a bordo de

um navio que ruma ao mar com o único intuito de frequentar a

escola e aprender as funções de um lugar-tenente; e tendo

pouca ou nenhuma funcionalidade no convés até se qualificarem

para tanto; a bordo, enquanto aspirantes, são pouco mais do que

figurantes. Assim, numa fragata superlotada, é tão comum vê-los

atravessando o caminho de oficiais e marinheiros que, na

Marinha, tornou-se proverbial dizer que um sujeito inútil

“atrapalha feito um riza-velas”.

Num vendaval, quando todos os homens são convocados e o

convés enxameia de homens, os pequenos “aspiras”, confusos,

indo de um lado para o outro sem nada em especial a fazer,

compensam o ócio vociferando impropérios; explodindo por toda

a parte como torpedos. Alguns deles são menininhos terríveis,

empinando seus quepes em ângulos improváveis e parecendo

tão valentes quanto galinhos de granja. Em geral, são grandes

consumidores de óleo de Macáçar e bálsamo de Colúmbia;56 as

barbas são sua maior obsessão; e às vezes, tendo aplicado seus

unguentos, ficam ao sol para incentivar a fertilidade de seus

queixos.

Como a única forma de aprender a comandar é aprender a

obedecer, é costume a bordo de uma fragata que os aspirantes

sejam constantemente interpelados pelos lugares-tenentes; assim, sem jamais receberem quaisquer orientações específicas,

estão sempre indo a algum lugar para chegar a lugar nenhum.

Em certos aspectos, os aspirantes conhecem momentos tão

difíceis quanto os próprios marinheiros. Eles servem de

mensageiros e contínuos a seus superiores.

“Sr. Pert”,57 grita um oficial do convés, chamando até si um

jovem cavalheiro. O sr. Pert avança, cumprimenta-o e permanece

em deferente postura de suspense. “Vá e diga ao contramestre

que preciso dele.” Incumbido dessa perigosa missão, o aspira se

apressa, parecendo tão orgulhoso quanto um rei.

Os aspirantes ocupam sozinhos o alojamento, onde,

atualmente, ceiam em mesa coberta por uma toalha. Eles têm

um galheteiro para o almoço; e outros meninos (pajens

escolhidos em meio à marujada) para atendê-los; às vezes,

tomam café em porcelana. Mas, apesar de seus refinamentos

urbanos, em algumas ocasiões as coisas em seu grupo

lamentavelmente degringolam. A porcelana quebra; o bule de

café laqueado ganha mossas como uma caneca de estanho num

bar; os garfos fazem lembrar palitos de dente (função que por

vezes exercem); as facas de mesa são transformadas em

serrote; e a toalha de mesa chega ao mestre-veleiro para ser

remendada. Na verdade, eles são algo como os calouros ou

segundanistas, vivendo nos alojamentos da universidade,

sobretudo quando se trata do barulho que produzem em seu

compartimento. O alojamento zune, murmura e se agita como

uma colmeia; ou como uma escolinha infantil num dia quente,

quando a professora cai no sono com uma mosca no nariz.

Nas fragatas, a praça-d’armas — retiro dos lugares-tenentes

—, imediatamente ligada ao alojamento, divide com ela parte do

convés. Não raro, quando os aspirantes, acordando de manhã

cedinho, como sói a muitos jovens, divertem-se em suas macas

ou perambulam pelo compartimento com suas camisolas de

dormir duplamente rizadas perseguindo-se em meio aos

estingues; o lugar-tenente veterano irrompe no recinto com um:

“Jovens cavalheiros, estou surpreso. Parem imediatamente com

essa brincadeira. Sr. Pert, diga-me: o que o senhor está fazendo

sem as calças sobre a mesa? Para a maca, senhor. Não quero

mais ver esse tipo de coisa. Se os senhores perturbarem mais

uma vez a praça-d’armas, meus jovens cavalheiros, hão de arcar

com as consequências.” E assim dizendo o encanecido lugar-

tenente retira-se ao seu camarote como o pai de numerosa

família depois de levantar-se, em camisola e chinelos, para

acalmar o tumulto matinal de sua populosa prole.

Tendo descido do comodoro aos aspirantes, chegamos por fim

a um grupo de gente indistinta que constitui por si um “bando” à

parte dos marinheiros. É costume a bordo de uma fragata

destinar a tal rancho vários tipos de subordinados, como o

mestre-d’armas, o comissário do almoxarife, os cabos navais, os

sargentos-fuzileiros e os escreventes do navio, os quais formam

a primeira aristocracia acima dos marinheiros.

O mestre-d’armas é uma espécie de policial de alta patente e

mestre-escola, vestindo roupas de civil e conhecido por sua vara

de oficial. Eis aí quem todos os marinheiros odeiam. É dele a

abrangente função de delatar e caçar delinquentes onde quer

que seja. Na coberta das macas, ele reina supremo; inspecionando todas as manchas de gordura produzidas pelos

vários rancheiros da marujada e arrastando os molengões

escotilha acima, quando todos são chamados ao convés. É

indispensável que ele seja um verdadeiro Vidocq58 em vigilância.

Trata-se, porém, de uma função tão desalmada quanto ingrata.

Em noites escuras, a maioria dos mestres-d’armas mantém-se

preparada para desviar das balas de canhão de quarenta e duas

libras empurradas das escotilhas mais próximas.

Os cabos navais são os subordinados e auxiliares desse

distintíssimo cavalheiro.

Os sargentos-fuzileiros são geralmente sujeitos altos de

postura inflexível e expressão dura nos lábios, com preferências

e prazeres bastante exclusivos.

O escrevente do navio é um cavalheiro que tem uma espécie

de escritório de contabilidade num paiol de alcatrão, no porão à

proa. Mais será dito sobre ele posteriormente.

Exceto pelos oficiais acima enumerados, não há outros que

façam seu rancho em separado dos marinheiros. Os chamados

“oficiais subalternos” — isto é, os guardiões do contramestre, os

subchefes de artilheiro, carpinteiro e veleiro, os capitães de

gávea, castelo de proa e da guarda de popa, os capitães dos

porões principal e à proa e os quartéis-mestres — fazem o

rancho com a tripulação e, na Marinha americana, distinguem-se

dos marinheiros comuns apenas por um soldo ligeiramente

maior. Na Marinha britânica, porém, eles trazem coroas e

âncoras cosidas nas mangas de seus trajes à guisa de distintivo

oficial. Na Marinha francesa, eles se fazem reconhecer por tiras de estambre usadas no mesmo lugar, como as que designam os

sargentos e cabos no Exército.

Assim se constata que a mesa da ceia é critério de distinção

em nosso mundo flutuante. O comodoro ceia sozinho, pois é o

único de sua patente no navio. O mesmo vale para o capitão; os

oficiais da praça-d’armas, os suboficiais, os aspirantes, o mestre-

d’armas e a marujada ceiam entre si, pois entre si estão em pé

de igualdade.

Pela mesma razão, o comodoro tem seu próprio comissário e

cozinheiro, que unicamente o atende; bem como seu próprio

fogão, no qual nada se cozinha além de suas refeições. O

mesmo vale para o capitão. Os oficiais da praça-d’armas também

têm seu próprio comissário e cozinheiro; e os aspirantes, idem. O

preparo das refeições dessas duas classes é feito num espaço

específico da grande cozinha, o extremo a vante, num lugar que

chamam “o fogão”. É uma grelha de muitos pés de comprimento.