Jaqueta Branca
6. O estado maior e o estado menor de uma fragata, os subordinados da coberta das macas de um navio de guerra; onde vivem no navio; como vivem; sua posição social a bordo; e que tipo de cavalheiros são
6
O estado maior e o estado menor de uma fragata,40
os subordinados da coberta das macas de um navio
de guerra; onde vivem no navio; como vivem; sua
posição social a bordo; e que tipo de cavalheiros
são
J das várias divisões que
compunham nossa tripulação; então talvez seja válido dizer algo
sobre os oficiais; quem são e quais suas funções.
Que se faça de conhecimento geral que era nossa embarcação
uma nau capitânia; isto é, que trazia arvorada um distintivo de
comando, ou flâmula larga, ao alto do mastro principal,
sinalizando que levávamos conosco um comodoro — a mais alta
patente reconhecida na Marinha americana. Tal sinalização não
deve ser confundida com os galhardetes, bandeirolas afiladas e
serpentinas utilizadas em todos os navios de guerra.
Em razão de vagos escrúpulos republicanos no tocante à
criação de altas patentes na Marinha, os Estados Unidos até hoje
não conhecem almirantes; embora, diante do crescimento
numérico de suas fragatas, estes possam se tornar
indispensáveis.41 Isto certamente acontecerá, caso a Marinha
algum dia venha a ter a oportunidade de empregar armadas
numerosas; em tais circunstâncias, é mais do que provável que ela adote algo como o modelo britânico, introduzindo, acima do
comodoro, três ou quatro graus de oficiais-generais — almirante,
vice-almirante e contra-almirante; cuja distinção se fará pelas
cores de suas bandeiras — vermelha, branca e azul,
correspondentes a centro, vante e ré. Suas patentes
correspondem às de marechal-general, marechal de campo e
general de brigada no Exército; assim como o comodoro está em
linha com o brigadeiro-general. Ou seja, o mesmo preconceito
que impede o governo americano de nomear almirantes devia ter
obstado a nomeação de todas as patentes de exército superiores
a brigadeiro.42
Um comodoro americano, como o inglês de mesmo nome ou
um chef d’escadre francês, não é mais do que um capitão
veterano posto temporariamente à frente de um pequeno
contingente de navios e assim destacado com algum propósito
específico. Ele não tem uma posição permanente, reconhecida
pelo governo, para além de sua função de capitão; embora, uma
vez empregado como comodoro, o costume se alie à cortesia
para que se lhe mantenha o título.
Nosso comodoro era um senhor de belo porte que conhecera
muita ação em seu tempo. Quando lugar-tenente, prestara
serviços na última guerra contra a Inglaterra; e em missão a
bordo de um bote armado nos lagos próximos a New Orleans,
pouco antes dos grandes confrontos por terra, recebera um tiro
de bala de mosquete no ombro. Esférica como os olhos que traz
nas órbitas do rosto, ele a carrega consigo até os dias de hoje.43
Não raro pensei, enquanto observava aquele venerável
guerreiro arquejado por seu ferimento, que sensação a um só tempo curiosa e dolorosa deve ser ter no próprio ombro uma
mina de chumbo; embora, verdade seja dita, muitos de nós
mortais civilizados transformemos nossas bocas em verdadeiras
Golcondas.44
Em virtude do ferimento no ombro, nosso comodoro recebia,
além do pagamento em si, o adicional referente a um criado
particular. Não posso dizer muito mais a respeito do comodoro,
pessoalmente; ele jamais procurou minha companhia, nem a mim
estendeu as cortesias adequadas a um cavalheiro.
Mas, muito embora não possa dizer muita coisa a seu respeito
pessoalmente, posso fazê-lo no que toca a seu caráter como
oficial-general. Em primeiro lugar, à época, eu alimentava fortes
suspeitas de ele ser mudo; pois, tanto quanto coube a meus
ouvidos, jamais proferiu uma palavra que fosse. E não apenas
parecia ele próprio incapaz de falar, como sua presença dispunha
do estranho poder de tornar os demais presentes
momentaneamente mudos. Sua aparição no tombadilho parecia
causar trismos em todos os oficiais.
Outro fenômeno a ele relacionado era o estranho modo com
que todos o evitavam. Ao primeiro sinal do surgimento de suas
dragonas a barlavento na popa, os oficiais ali congregados
invariavelmente recolhiam-se a sotavento e deixavam-no
sozinho. Talvez sofresse de alguma maldição; talvez fosse o
judeu errante a bordo.45 A verdadeira razão talvez fosse que,
como todo aquele que pertence a um alto escalão, ele julgasse
indispensável preservar sob aura religiosa a sua dignidade; uma
das coisas mais complicadas do mundo, e que exigia enorme
poder de abnegação. E a constante vigilância e os excessivos cuidados de todos os lados, requeridos à manutenção da
dignidade de um comodoro, claramente mostram que, para além
da dignidade comum ao gênero humano, os comodoros, em
geral, não dispõem de dignidade alguma. De fato, é oportuno às
cabeças coroadas, a generalíssimos, lordes grão-almirantes e
comodoros, caminhar com postura rigorosamente ereta, atentos
a incômodos cervicais; não deixa de ser verdade, porém, de que
se trata de uma postura arrogante, extremamente desconfortável
para si mesmos, além de ridícula para uma geração esclarecida.
Ora, quantos bons companheiros havia entre nós, homens da
gávea principal, que, convidados a sua cabine para uma ou duas
garrafas de convívio, teriam aquecido o coração de nosso velho
comodoro e feito com que seu antigo ferimento se curasse para
todo o sempre.
Vamos lá, comodoro, não fique tão amargurado, meu velho;
suba aqui na gávea, que nós lhe contaremos uns bons casos!
De fato, eu me via muito mais feliz naquela jaqueta branca que
envergava do que o velho comodoro na grandeza de suas
dragonas.
Talvez uma coisa que, mais do que tudo, ajudava a tornar
nosso comodoro tão melancólico e infeliz fosse o fato de ter tão
pouco para fazer. Pois como a fragata tinha um capitão; é claro
que, tanto quanto concernisse a ela, nosso comodoro era
supranumerário. Que abundância de tempo livre deve ele ter tido
ao longo de três anos de viagem; como deve ter ampliado seus
horizontes mentais nesse período!
Mas, como todos sabem que a desocupação é a mais dura das
ocupações deste mundo, nosso comodoro dispunha de um cavalheiro para auxiliá-lo. Tal cavalheiro era chamado de
secretário do comodoro. Era um homem particularmente urbano
e educado; de postura muito graciosa, parecendo-se mais um
embaixador extraordinário de Versalhes. Ele se reunia com os
lugares-tenentes na praça-d’armas, onde ocupava um camarote
particular de mobília tão elegante quanto o gabinete de
Pelham.46 O pajem encarregado de seu catre e dependência
costumava divertir os marinheiros com toda a sorte de histórias
sobre flautas e flajolés com chaves de prata, belas pinturas a
óleo, livros encadernados em couro, peças de xadrez chinês,
camisas com botões de ouro, estojos de caneta com iniciais
gravadas, belas botas francesas cujos solados não tinham
espessura maior que a de uma folha de papel de carta
perfumado, roupas bordadas, cera de selagem com perfume de
incenso, Vênus e Adônis em estatuetas de alabastro,47 caixinhas
de rapé feitas de casco de tartaruga, estojos de higiene pessoal
marchetados, escovas com cabo de mármore e pentes de
madrepérola e uma infinidade de outros utensílios luxuosos
espalhados por seu magnífico gabinete de secretário.
Passei um bom tempo procurando descobrir quais eram as
funções desse secretário. Parece-me que escrevia os despachos
do comodoro a Washington e, de um modo geral, era seu
amanuense. Não era trabalho livre de aborrecimentos, por vezes;
pois alguns comodoros, embora não falem muito a bordo do
navio, têm um bocado de coisas a escrever. Em muitas ocasiões,
o oficial encarregado do regimento, postado à porta do camarote
do comodoro, saudava o primeiro lugar-tenente e, com um ar
misterioso, entregava-lhe um bilhete. Sempre pensei que tais bilhetes pudessem trazer os mais importantes assuntos de
Estado; até que, um dia, encontrando uma tira de papel
umedecida e rasgada num orifício de drenagem, li a seguinte
mensagem:
Senhor, hoje será oferecida à tripulação, além da carne fresca que lhe cabe, picles.
Ao sr. Bridewell, lugar-tenente.
Sob as ordens do comodoro,
Adolphus Dashman, secretário particular48
Essa era uma nova revelação; pois, a julgar por sua quase
imutável reserva, eu supunha que o comodoro jamais lidara
diretamente com as questões do navio, deixando tudo aos
cuidados do capitão. Quanto mais vivemos, mais aprendemos
sobre os comodoros.
Voltemo-nos agora ao segundo na escala de patentes, quase
supremo, contudo, no que toca aos assuntos internos do navio. O
capitão Claret era uma espécie de Henrique a bordo —
grande e portentoso, expansivo e vigoroso; e tão monárquico em
sua cabine quanto Harry em seu trono.49 Pois um navio é um
pedaço de terra firme destacado do resto; é um Estado em si
mesmo; e o capitão é seu rei.50
Não se trata de uma monarquia limitada, em que o indômito
povo tem direito a pleito e reclama quando é de seu interesse;
mas de um despotismo praticamente digno do grão-turco.51 A
palavra do capitão é lei; sua fala sempre está em modo
imperativo. Quando ele se posta em seu tombadilho em mar
aberto, comanda tudo que seus olhos podem alcançar. Somente
a lua e as estrelas estão além de sua jurisdição. Ele é o senhor e
mestre do sol.
Não chegamos ao meio-dia até que ele o anuncie. Pois quando
o mestre de navegação, cuja função é fazer a observação regular
ao meio-dia, faz sua saudação ao oficial do convés e comunica o
meio-dia, este funcionário ordena a um aspirante que se dirija à
cabine do capitão e humildemente o informe da respeitosa
sugestão do mestre de navegação.
“Meio-dia informado, senhor”, diz o aspirante.
“Que assim se faça”, responde o capitão.
E o sino dobra oito vezes por obra do mensageiro, e assim se
faz meio-dia.52
Como no caso do comodoro, quando o capitão visita o convés
seus oficiais subordinados comumente batem em retirada para o
lado oposto e, via de regra, jamais se dirigem a ele, exceto para
tratar do próprio navio — assim como um serviçal do tsar da
Rússia jamais cumprimentaria e convidaria seu senhor para um
chá. Talvez nenhum mortal tenha mais razão de sentir sua
própria importância pessoal do que o capitão de um navio de
guerra no mar.
Na sequência hierárquica, vem o primeiro lugar-tenente, um
oficial veterano, o oficial imediato da embarcação. Não tenho
qualquer razão para amar o cavalheiro que ocupava
especificamente tal posto em nossa fragata, pois foi ele quem
indeferiu o pedido da tinta preta que bastasse para
impermeabilizar minha jaqueta branca. Jaz à porta de seu
camarote a culpa por cada vez que me encharquei, me ensopei.
Penso que jamais poderei esquecê-lo; credita-se diretamente a
ele cada pontada reumática que ainda eventualmente sinto. Os
deuses greco-romanos são reputados por sua clemência, e eles talvez possam perdoá-lo; quanto a mim, não me sentirei
pressionado a ser benevolente. De qualquer forma, meus
sentimentos pessoais em relação ao sujeito não hão de me
impedir de fazer-lhe justiça. Na maioria das coisas tratava-se de
um excelente homem do mar; pontual, intenso, cirúrgico; e, como
tal, era muito digno do posto. O primeiro lugar-tenente de uma
fragata necessita ser um bom disciplinador e, principalmente, um
homem enérgico. Por ordens do capitão, ele é responsável por
tudo; precisa de fato se fazer onipresente, a um só tempo no
porão mais profundo e no mais alto dos mastros.
É ele quem ocupa a cabeceira da mesa da praça-d’armas,
assim chamada pois é ali que os oficiais se reúnem para o
rancho. Numa fragata, a praça-d’armas compreende a seção à
popa da coberta. Às vezes ela tem o nome de câmara dos
oficiais, mas amiúde se chama praça-d’armas. Por dentro, ela
mais parece um longo e amplo corredor num imenso hotel; com
numerosas portas se abrindo de um lado e de outro aos
camarotes privativos dos oficiais. Na única oportunidade em que
pude observar o interior da câmara, o capelão estava sentado à
mesa instalada no centro, jogando xadrez com o lugar-tenente
dos fuzileiros; era meio-dia, mas o lugar estava iluminado por
lampiões.
Além do primeiro lugar-tenente, a praça-d’armas inclui os
sublugares-tenentes, que, numa fragata, podem somar seis ou
sete, o mestre de navegação, o capelão, o almoxarife, o
cirurgião, os oficiais-fuzileiros e o mestre-escola dos aspirantes,
ou “professor”. Geralmente, todos formam um clube muito
agradável de bons companheiros; calculado com esmero, por sua própria diversidade, para formar um aprazível conjunto
social. Os lugares-tenente discutem batalhas navais e contam
casos sobre lorde Nelson e lady Hamilton;53 os oficiais-fuzileiros
falam sobre ataques a fortificações e o cerco de Gibraltar;54 o
almoxarife mantém o rumo dessa conversa desgovernada com
eventuais alusões à regra de três; o professor está sempre
envolvido em reflexões acadêmicas ou às voltas com algum
verso clássico apropriado ao momento, geralmente de Ovídio; as
histórias de mesa de amputação do cirurgião se destinam, em
sua sensatez e prudência, a sugerir a transitoriedade humana de
todo o grupo; enquanto o bom capelão permanece a postos para,
a qualquer hora, dar-lhes pios conselhos e conforto a suas
almas.
É claro que todos esses cavalheiros se associam em pé de
perfeita igualdade social.
Na sequência vêm o estado menor, dos oficiais de proa. São
eles o contramestre, o mestre-artilheiro, o mestre-carpinteiro e o
mestre-veleiro. Embora tais ilustríssimos senhores ostentem
casacos longos e botões de âncora, na estima dos oficiais da
praça-d’armas não são, tecnicamente falando, cavalheiros de
valor. Jamais passaria pela cabeça do primeiro lugar-tenente, do
capelão ou do cirurgião, por exemplo, convidá-los para o jantar.
No jargão marítimo, “eles entram pelos escovéns”; suas mãos
são calejadas; e o mestre-carpinteiro e o mestre-veleiro
compreendem apenas em nível prático as funções que são
convocados a inspecionar. Rancham entre si. Sempre em quatro,
jamais precisam jogar uíste com um parceiro imaginário.55
A esta altura da descrição aparece a categoria dos “riza-velas”,
também conhecidos como “aspiras” ou aspirantes. São meninos
enviados ao mar com o propósito de se formarem futuros
comodoros; para tanto, muitos deles julgam indispensável
começar mascando tabaco, tomando conhaque com água e
lançando imprecações contra a marujada. Levados a bordo de
um navio que ruma ao mar com o único intuito de frequentar a
escola e aprender as funções de um lugar-tenente; e tendo
pouca ou nenhuma funcionalidade no convés até se qualificarem
para tanto; a bordo, enquanto aspirantes, são pouco mais do que
figurantes. Assim, numa fragata superlotada, é tão comum vê-los
atravessando o caminho de oficiais e marinheiros que, na
Marinha, tornou-se proverbial dizer que um sujeito inútil
“atrapalha feito um riza-velas”.
Num vendaval, quando todos os homens são convocados e o
convés enxameia de homens, os pequenos “aspiras”, confusos,
indo de um lado para o outro sem nada em especial a fazer,
compensam o ócio vociferando impropérios; explodindo por toda
a parte como torpedos. Alguns deles são menininhos terríveis,
empinando seus quepes em ângulos improváveis e parecendo
tão valentes quanto galinhos de granja. Em geral, são grandes
consumidores de óleo de Macáçar e bálsamo de Colúmbia;56 as
barbas são sua maior obsessão; e às vezes, tendo aplicado seus
unguentos, ficam ao sol para incentivar a fertilidade de seus
queixos.
Como a única forma de aprender a comandar é aprender a
obedecer, é costume a bordo de uma fragata que os aspirantes
sejam constantemente interpelados pelos lugares-tenentes; assim, sem jamais receberem quaisquer orientações específicas,
estão sempre indo a algum lugar para chegar a lugar nenhum.
Em certos aspectos, os aspirantes conhecem momentos tão
difíceis quanto os próprios marinheiros. Eles servem de
mensageiros e contínuos a seus superiores.
“Sr. Pert”,57 grita um oficial do convés, chamando até si um
jovem cavalheiro. O sr. Pert avança, cumprimenta-o e permanece
em deferente postura de suspense. “Vá e diga ao contramestre
que preciso dele.” Incumbido dessa perigosa missão, o aspira se
apressa, parecendo tão orgulhoso quanto um rei.
Os aspirantes ocupam sozinhos o alojamento, onde,
atualmente, ceiam em mesa coberta por uma toalha. Eles têm
um galheteiro para o almoço; e outros meninos (pajens
escolhidos em meio à marujada) para atendê-los; às vezes,
tomam café em porcelana. Mas, apesar de seus refinamentos
urbanos, em algumas ocasiões as coisas em seu grupo
lamentavelmente degringolam. A porcelana quebra; o bule de
café laqueado ganha mossas como uma caneca de estanho num
bar; os garfos fazem lembrar palitos de dente (função que por
vezes exercem); as facas de mesa são transformadas em
serrote; e a toalha de mesa chega ao mestre-veleiro para ser
remendada. Na verdade, eles são algo como os calouros ou
segundanistas, vivendo nos alojamentos da universidade,
sobretudo quando se trata do barulho que produzem em seu
compartimento. O alojamento zune, murmura e se agita como
uma colmeia; ou como uma escolinha infantil num dia quente,
quando a professora cai no sono com uma mosca no nariz.
Nas fragatas, a praça-d’armas — retiro dos lugares-tenentes
—, imediatamente ligada ao alojamento, divide com ela parte do
convés. Não raro, quando os aspirantes, acordando de manhã
cedinho, como sói a muitos jovens, divertem-se em suas macas
ou perambulam pelo compartimento com suas camisolas de
dormir duplamente rizadas perseguindo-se em meio aos
estingues; o lugar-tenente veterano irrompe no recinto com um:
“Jovens cavalheiros, estou surpreso. Parem imediatamente com
essa brincadeira. Sr. Pert, diga-me: o que o senhor está fazendo
sem as calças sobre a mesa? Para a maca, senhor. Não quero
mais ver esse tipo de coisa. Se os senhores perturbarem mais
uma vez a praça-d’armas, meus jovens cavalheiros, hão de arcar
com as consequências.” E assim dizendo o encanecido lugar-
tenente retira-se ao seu camarote como o pai de numerosa
família depois de levantar-se, em camisola e chinelos, para
acalmar o tumulto matinal de sua populosa prole.
Tendo descido do comodoro aos aspirantes, chegamos por fim
a um grupo de gente indistinta que constitui por si um “bando” à
parte dos marinheiros. É costume a bordo de uma fragata
destinar a tal rancho vários tipos de subordinados, como o
mestre-d’armas, o comissário do almoxarife, os cabos navais, os
sargentos-fuzileiros e os escreventes do navio, os quais formam
a primeira aristocracia acima dos marinheiros.
O mestre-d’armas é uma espécie de policial de alta patente e
mestre-escola, vestindo roupas de civil e conhecido por sua vara
de oficial. Eis aí quem todos os marinheiros odeiam. É dele a
abrangente função de delatar e caçar delinquentes onde quer
que seja. Na coberta das macas, ele reina supremo; inspecionando todas as manchas de gordura produzidas pelos
vários rancheiros da marujada e arrastando os molengões
escotilha acima, quando todos são chamados ao convés. É
indispensável que ele seja um verdadeiro Vidocq58 em vigilância.
Trata-se, porém, de uma função tão desalmada quanto ingrata.
Em noites escuras, a maioria dos mestres-d’armas mantém-se
preparada para desviar das balas de canhão de quarenta e duas
libras empurradas das escotilhas mais próximas.
Os cabos navais são os subordinados e auxiliares desse
distintíssimo cavalheiro.
Os sargentos-fuzileiros são geralmente sujeitos altos de
postura inflexível e expressão dura nos lábios, com preferências
e prazeres bastante exclusivos.
O escrevente do navio é um cavalheiro que tem uma espécie
de escritório de contabilidade num paiol de alcatrão, no porão à
proa. Mais será dito sobre ele posteriormente.
Exceto pelos oficiais acima enumerados, não há outros que
façam seu rancho em separado dos marinheiros. Os chamados
“oficiais subalternos” — isto é, os guardiões do contramestre, os
subchefes de artilheiro, carpinteiro e veleiro, os capitães de
gávea, castelo de proa e da guarda de popa, os capitães dos
porões principal e à proa e os quartéis-mestres — fazem o
rancho com a tripulação e, na Marinha americana, distinguem-se
dos marinheiros comuns apenas por um soldo ligeiramente
maior. Na Marinha britânica, porém, eles trazem coroas e
âncoras cosidas nas mangas de seus trajes à guisa de distintivo
oficial. Na Marinha francesa, eles se fazem reconhecer por tiras de estambre usadas no mesmo lugar, como as que designam os
sargentos e cabos no Exército.
Assim se constata que a mesa da ceia é critério de distinção
em nosso mundo flutuante. O comodoro ceia sozinho, pois é o
único de sua patente no navio. O mesmo vale para o capitão; os
oficiais da praça-d’armas, os suboficiais, os aspirantes, o mestre-
d’armas e a marujada ceiam entre si, pois entre si estão em pé
de igualdade.
Pela mesma razão, o comodoro tem seu próprio comissário e
cozinheiro, que unicamente o atende; bem como seu próprio
fogão, no qual nada se cozinha além de suas refeições. O
mesmo vale para o capitão. Os oficiais da praça-d’armas também
têm seu próprio comissário e cozinheiro; e os aspirantes, idem. O
preparo das refeições dessas duas classes é feito num espaço
específico da grande cozinha, o extremo a vante, num lugar que
chamam “o fogão”. É uma grelha de muitos pés de comprimento.