Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 53 de 101

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Jaqueta Branca

50. A baía de todas as belezas

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A baía de todas as belezas

 

D pelo Rio de Janeiro sem qualquer

descrição; mas é tal a onda de perfumadas reminiscências que

agora me cobrem, que preciso necessariamente ceder e retratar-

me, enquanto respiro daquele ar almiscarado.

Um circuito de mais de cento e cinquenta milhas de verdes

colinas aninha uma translúcida e extensa baía, tão encrustada

em meio a serras cobertas de vegetação que, entre os índios, o

lugar era conhecido como “Água escondida”.265 De todos os

lados, ao longe, erguem-se altos picos cônicos, que com o

nascer e o morrer do sol ardem como círios imensos; e vindos do

interior, atravessando pomares e florestas, correm rios radiantes

para desaguar na baía.

Não falemos da baía de Todos-os-Santos; pois, embora seja

um glorioso ancoradouro, o Rio de Janeiro é a baía de Todos-os-

Rios, a baía de Todas-as-Delícias, a baía de Todas-as-Belezas.

Das colinas circunjacentes, um verão inesgotável jaz

perpetuamente em terraços de viva verdura; cobertos de antigos

musgos, convento e castelo repousam em vale e ravina.266

Por toda a parte, profundos recessos penetram o verde da

montanha e, tendo acima selvagens cumes, mais lembram os

lagos Katrines do que os Lemans. E embora o lago Katrine tenha sido cantado por Scott, em sua boina escocesa, e o Leman, por

Byron, sob uma grinalda;267 no Rio de Janeiro, ambos não

passam de duas flores selvagens numa vista quase infinita. Pois,

veja!, ao longe, muito longe, estende-se a amplidão azul das

águas até suaves colinas de leve verdor, atrás das quais surge o

púrpura de tubos e pináculos da serra dos Órgãos; o nome é

adequado, pois, em tempo de trovoadas, seus picos fazem rolar

as canhonadas baía abaixo, afogando o baixo de todas as

catedrais da cidade.268 Eleve suas vozes, brade a plenos

pulmões, bata os pés, regozije-se, serra dos Órgãos! Faça rolar

seus Te Deums269 pelo mundo!

E que importa se, por mais de cinco mil e quinhentos anos,

essa imensa angra do Rio de Janeiro permaneceu escondida

pelas colinas, desconhecida dos portugueses católicos? Séculos

antes de Haydn executar sua música diante de reis e

imperadores, essa serra dos Órgãos tocava seu Oratório da

Criação diante do próprio Criador. Nervoso, contudo, Haydn não

teria suportado esse coral tonitruante — haja vista que dos

trovões morreu, por fim, durante o devastador tumulto do ataque

de Napoleão a Viena.270

Mas todas as montanhas são a serra dos Órgãos: os Alpes e o

Himalaia; os montes Apalaches e os Urais, os Andes, as

montanhas Verdes e as Brancas. Todas eles executam perpétuos

hinos: Messias, Sansão, Israel no Egito, Saul, Judas Macabeu e

Salomão.271

Rio de Janeiro, arquipélago! Antes de Noé ancorar a arca no

velho Ararat, em você já estavam ancoradas todas essas

rochosas ilhas verdes que vejo. Mas, ilhas!, Deus não construiu sobre vocês essas longas linhas de canhões; nem nosso

abençoado Salvador foi padrinho no batismo de suas

carrancudas fortificações, não obstante nomeadas em honra do

próprio e divo Príncipe da Paz!

Rio de Janeiro, anfiteatro! Em sua extensa baía podem ter

lugar a Ressurreição e o Juízo Final dos navios de guerra do

mundo inteiro, representados pelas naus capitânias das frotas —

as naus capitânias das galés armadas dos fenícios de Tiro e

Sídon; das esquadras que todos os anos Salomão reunia rumo a

Ofir; de onde, em tempos posteriores, talvez, navegaram as

armadas de Acapulco dos espanhóis, com barras de ouro

fazendo as vezes de lastro; as naus capitânias de gregos e

persas que se cumprimentaram em batalha em Salamina; todas

as galés romanas e egípcias que, como águias, com proas das

quais escorria sangue, bicavam umas às outras no Ácio; todas as

quilhas dinamarquesas dos vikings; todas as canoas de Abba

Thule, rei de Palau, quando saiu à vitória contra Artinsall; todas

as armadas venezianas, genovesas e papais que navegaram à

Batalha em Lepanto; ambas as pontas do crescente da Armada

espanhola; a esquadra portuguesa que, sob o intrépido Gama,

subjugou os mouros e descobriu as Molucas; todas as naus

holandesas comandadas por Van Tromp e afundadas pelo

almirante Hawke; as quarenta e sete naus de batalha francesas e

espanholas que, por três meses, tentaram tomar Gibraltar; todos

os navios de setenta e quatro peças de Nelson que tonitroaram

nos mares de St. Vincent, no Nilo, em Copenhague e Trafalgar;

todos os navios mercantes da Companhia das Índias Ocidentais;

os brigues de guerra, chalupas e escunas de Perry, que dispersou as forças britânicas no lago Erie; todos os corsários da

Barbária capturados por Bainbridge; as canoas de guerra dos

reis da Polinésia, Tamahammaha e Pomare — sim! Todos

unidos, tendo o comodoro Noé como seu lorde grão-almirante —

nessa sobeja baía do Rio de Janeiro essas naus capitânias todas

poderiam vir a ancorar e manobrar em concerto ao cair das

primeiras águas do Dilúvio.272

O Rio de Janeiro é um pequeno Mediterrâneo; e o que era

fábula para a entrada daquele mar no Rio de Janeiro é

parcialmente verdadeiro; pois aqui, à boca da baía, está uma das

colunas de Hércules,273 o Pão de Açúcar, com seus quatrocentos

metros de altura, levemente inclinado sobre ela como se fosse

uma Torre de Pisa. A seus pés curvam-se, como mastins, os

canhões de José e Teodósio; enquanto, do lado oposto, você é

ameaçado por uma fortaleza construída sobre uma rocha.274

O canal entre ambos — a única entrada para a baía — não

parece mais largo que a distância do arremesso de uma bolacha;

nada se vê do mar cercado de terra que há dentro até que de

fato se adentre o estreito. E, então, que vista se contempla!

Variada como o ancoradouro de Constantinopla, mas mil vezes

maior. Quando o Neversink deslizou para dentro dele, ordens

foram dadas: “Ao alto, gajeiros! Ferrar velas de joanete e

sobrejoanete!”.

Ordens dadas, saltei ao cordame e logo cheguei ao meu

poleiro. Como estava arrebatado ao agarrar-me àquela verga de

sobrejoanete! No ar, equilibrado sobre aquela magnífica baía que

era um novo mundo aos meus olhos, sentia-me como o primeiro de uma revoada de anjos aterrissando na Terra vindos de alguma

estrela da Via Láctea.