Jaqueta Branca
77. O hospital num navio de guerra
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O hospital num navio de guerra
D constantes até o Equador,
sucedeu-se a calmaria, e ali permanecemos, três dias
enfeitiçados em alto-mar. Sem dúvida, com nossos quinhentos
homens, comodoro e capitão, reforçados por longas baterias de
trinta e duas e vinte e quatro libras, éramos um portentoso navio
de guerra; no entanto, ali balançávamos, tão impotentes quanto
uma criança no berço. Fosse um vendaval no lugar da calmaria,
o teríamos enfrentado alegremente com nosso intrépido gurupés,
imponente lança em repouso; porém, como acontece à
humanidade, esse oponente sereno e passivo — a um só tempo
sem qualquer resistência e irresistível — nos superava, sempre
inconquistável.
Durante esses três dias, o calor era excessivo; o sol arrancava
o breu das junções do navio; toldos eram estendidos a popa e
proa; os conveses eram constantemente umedecidos. Foi
durante esse intervalo que um triste acontecimento teve lugar,
embora não fosse estranho ao navio. Antes, porém, à guisa de
preparo para a narrativa, é preciso dar alguma informação sobre
o setor do navio de guerra conhecido como “enfermaria”.
À enfermaria são levados os marinheiros incapacitados; em
muitos aspectos, é o equivalente de um hospital em terra firme. Como sói à maioria das fragatas, a enfermaria do Neversink
ficava na coberta das macas — o terceiro patamar, de cima para
baixo. Ela estava no ponto mais extremo à frente do convés,
compreendendo a área triangular da proa. Era, portanto, uma
câmara subterrânea, na qual mal penetrava um raio da alegre luz
do céu, mesmo ao meio-dia.
Numa fragata que vai ao mar, com todo o seu armamento e
estoques a bordo, o piso da coberta das macas fica parcialmente
abaixo da superfície da água. Mas num ancoradouro tranquilo,
mantém-se a circulação de ar no compartimento mediante a
abertura dos amplos respiradouros na parte superior das laterais,
as chamadas vigias, não muito acima do nível da água. Antes de
ir ao mar, contudo, essas vigias devem ser fechadas, calafetadas
e seladas hermeticamente com piche. Com esses pontos de
ventilação lacrados, a enfermaria é totalmente isolada contra a
admissão livre e natural de ar fresco. No Neversink, umas poucas
lufadas de ar renovado eram levadas à enfermaria por meios
artificiais. Mas, como o ventilador de lona era o único método
adotado, a quantidade de ar fresco que ali chegava dependia da
força do vento. Numa calmaria não havia vento para isso,
enquanto num vendaval o ventilador de lona tinha de ser içado,
devido à forte corrente de ar que atingia as acomodações dos
doentes. Uma divisória com aberturas separava nossa
enfermaria do restante da coberta, onde as macas do turno
estavam armadas; assim, a enfermaria ficava exposta a toda a
agitação que tinha lugar no convés quando os turnos eram
rendidos.
Um oficial, o chamado comissário do cirurgião, auxiliado por
subordinados, era o responsável pelo lugar. Era o mesmo
indivíduo referido como ajudante na amputação do gajeiro. Ele
permanecia a postos na enfermaria, dia e noite.
Esse comissário do cirurgião merece descrição. Era um jovem
baixo, pálido e de olhos fundos, com o semblante digno de
Lázaro,393 tão presente naqueles que trabalham em hospitais.
Raramente ou nunca você o veria no convés, e quando emergia
à luz do sol era com uma aparência acanhada e olhos piscantes,
cheios de desconforto. O sol não fora feito para ele. Sua
organização nervosa era afetada pela visão dos velhos e
robustos marujos do tombadilho e o tumulto geral do espardeque;
enfim, ele em geral permanecia sepultado numa atmosfera que o
longo hábito lhe tornara propícia.
Esse jovem nunca se permitia conversas frívolas; apenas
tratava das prescrições do cirurgião; cada palavra sua era uma
pílula. Não se tinha notícia de que sorrisse; tampouco sua
seriedade tinha aparência corriqueira — pelo contrário, seu rosto
sempre evocava uma cadavérica resignação a seu destino.
Estranho que muitos daqueles a quem cabe trabalhar por nossa
própria saúde pareçam tão doentes.
Comandada pelo comissário do cirurgião e ligada à enfermaria,
ainda que separada dela, por ser instalada na porta ao lado do
escritório de contabilidade do comissário do almoxarife, havia
uma farmácia, cuja chave ficava a cargo do comissário do
cirurgião. Tal farmácia era organizada exatamente como em terra
firme, com prateleiras ocupando todas as quatro paredes do
cômodo e repletas de frascos verdes e vasos de boticário; logo abaixo dessas prateleiras, ficavam inúmeras gavetas com
incompreensíveis inscrições douradas em abreviaturas latinas.
Ele geralmente abria seu estabelecimento por uma ou duas
horas todas as manhãs e fins de tarde. Havia uma veneziana na
parte superior da porta, que ele empurrava de dentro para fora de
modo a receber um pouco de ar. E ali era possível encontrá-lo, o
semblante coberto de uma sombra esverdeada, sentado num
banco e empenhando seu pilão num grande almofariz de ferro
que mais parecia um obus, no qual produzia preparados de
jalapa.394 Um candeeiro fumacento lançava matizes
bruxuleantes, dignos de febre amarela, sob seu rosto pálido e as
grossas fileiras de vasos.
Muitas vezes, quando me vi necessitado de algum
medicamento, mas não estava doente o bastante para me dirigir
ao cirurgião, encaminhava-me pela manhã ao sinal do pilão e
pedia ao encarregado o que queria. Sem dizer uma palavra, o
jovem cadavérico preparava-me uma poção numa caneca de lata
e a entregava pela pequena abertura da porta, como quem desse
o troco na bilheteria de um teatro.
Mas havia uma pequena prateleira presa à parede da porta, e
sobre ela eu podia colocar a caneca de lata por um instante e
investigá-la; pois nunca me portava como um Júlio César
tomando remédio; e tomá-lo dessa forma, sem uma mínima
tentativa de disfarçá-lo; sem qualquer coisinha que o fizesse
descer; em suma, ir ao próprio boticário em pessoa e ali, no
balcão, botar para dentro sua dose como se fosse um belo mint
julep395 em copo de prata tomado no bar de um hotel — isso era
sem dúvida um remédio amargo. Porém, esse pálido e jovem boticário nada cobrava por ela, o que não trazia pouca
satisfação; pois não é assustador, para dizer o mínimo, que um
boticário de terra firme cobre do seu dinheiro — uma boa quantia
em dólares e centavos — para causar-lhe uma horrível náusea?
Minha caneca aguardava um bocado de tempo na pequena
prateleira; mas Pílula, assim conhecido pela marinhagem, nunca
se importava com minha demora e prosseguia em sóbria e
silente tristeza macerando preparados no almofariz ou dobrando
em papel seus pós; até que, por fim, outro cliente aparecia e,
então, num súbito ataque de decisão, eu fazia descer goela
abaixo meu sherry cobbler,396 levando comigo seu sabor
indescritível até o alto da gávea do mastro principal. Não sei se
era o largo balanço do navio, tal como o sentia de meu
vertiginoso poleiro, mas sempre ficava enjoado depois de tomar o
remédio e retornar com ele ao meu posto. E ele raramente trazia
qualquer efeito benéfico.
O comissário do cirurgião era o único subordinado do cirurgião
Cutícula, que vivia na praça-d’armas com os lugares-tenentes, o
mestre-veleiro, o capelão e o almoxarife.
Por lei, o cirurgião é encarregado de cuidar das condições
sanitárias gerais do navio. Se qualquer coisa que ele julgue
passível de acometer a saúde da tripulação acontece em
qualquer um dos setores do navio, ele tem o direito de denunciá-
la formalmente ao capitão. Quando um homem é açoitado no
passadiço, o cirurgião acompanha a punição; e, se ele conclui
que esta ameaça os limites do que o delinquente bem pode
suportar, tem o direito de intervir e pedir a interrupção temporária
da punição.
No entanto, embora os regulamentos da Marinha o investissem
nominalmente dessa autoridade de elevado arbítrio, aplicável ao
próprio comodoro, quão pouco ele a exerceu em casos que um
sentimento de humanidade o exigia? Três anos é um longo
período a ser vivido num navio, e estar sob a ponta da espada de
capitão e lugares-tenentes durante esse tempo deve ser deveras
incômodo e, de qualquer forma, irritante. Somente a isso se pode
atribuir a negligência de alguns cirurgiões em manifestarem-se
contra a crueldade.
Sem falar mais uma vez da contínua umidade dos conveses
quando nos aproximávamos do cabo Horn — sempre inundados
de água salgada —, é preciso ainda mencionar que, a bordo do
Neversink, homens sabidamente tuberculosos tossiam sob a
chibata do guardião do contramestre, enquanto o cirurgião e seus
dois auxiliares permaneciam perto sem jamais se interpor.
Porém, quando se mantém a falta de escrúpulo da disciplina
marcial, é inútil tentar amainar seu rigor mediante a aplicação de
leis humanitárias. É mais fácil domar o urso-pardo do Missouri do
que humanizar algo tão cruel e desalmado.
Mas o cirurgião tem ainda outros deveres. Nenhum marinheiro
ingressa na Marinha sem passar por um exame corporal e testes
de saúde nos pulmões e nos membros.
Um dos primeiros lugares aos quais fui levado quando pela
primeira vez subi a bordo do Neversink foi a enfermaria, onde
encontrei um dos cirurgiões-assistentes sentados numa mesa
forrada de baeta verde. Era sua vez de visitar o setor. Com
ordens do oficial do convés para me dirigir ao funcionário que
então estava diante de mim, pigarreei a fim de chamar-lhe a atenção e, com seus olhos voltados para mim, educadamente o
informei de que estava ali para ser examinado com rigor.
“Dispa-se!”, foi a resposta e, enrolando o punho da camisa,
com seus detalhes dourados, seguiu com a manipulação de meu
corpo. Golpeou-me nas costelas, socou-me o peito, pediu que
me equilibrasse sobre uma perna e segurasse a outra na
horizontal. Perguntou-me se tinha algum tísico na família; se já
sentira alguma tendência do sangue subir-me à cabeça; se sofria
de gota; quantas vezes fora sangrado na vida; quanto tempo
estivera em terra firme; quanto tempo estivera em alto-mar; além
de outras perguntas que me escapam à memória. Ele concluiu
seu interrogatório com uma extraordinária e injustificada
pergunta: “É temente a Deus?”.
Era uma pergunta assertiva que me espantou um pouco, mas
eu não disse uma palavra. Então, examinando minhas
panturrilhas, ele ergueu os olhos e incompreensivelmente disse:
“Suspeito que não.”
Por fim, declarou-me um animal saudável e escreveu um
atestado certificando-o, com qual retornei ao convés.
Esse assistente de cirurgião provou-se uma figura bastante
singular, e quando nos tornamos mais próximos deixei de me
admirar daquela curiosa pergunta com que ele concluíra o exame
de minha pessoa.
Era um homem magro, genuvalgo, de expressão saturnina e
amarga, tornada particularmente curiosa pela forma impiedosa
com que se barbeava, o queixo e o rosto sempre azuis, como se
estivessem duros de frio. Seu longo contato com os doentes
náuticos parecia ter-lhe enchido de uma hipocondria religiosa no tocante à situação de suas almas. Ele era a um só tempo clínico
e clérigo dos doentes, ministrando-lhes água e comprimidos
como se fossem um consolo espiritual; entre os marinheiros era
conhecido pela alcunha de O Pelicano, ave cuja bolsa pendente
sob o bico lhe dá aspecto lúgubre e melancólico.
O privilégio de ficar fora de serviço descansando quando se
está doente é um dos poucos pontos nos quais um navio de
guerra é infinitamente melhor para o marinheiro do que um navio
mercante. Porém, como qualquer outro assunto na Marinha, a
situação é totalmente submetida à disciplina geral do navio e
conduzida com regularidade e método severos e inalteráveis,
sem qualquer exceção às regras.
Durante a meia hora que precede os quartos d’alva, o cirurgião
de uma fragata se encontra na enfermaria, onde, depois de fazer
a ronda entre os doentes, recebe os novos candidatos a leito. Se,
depois de examinar sua língua e o pulso, ele o julgar inapto, seu
secretário o inscreve em seus livros de registro, e você está, dali
em diante, dispensado de todo serviço, tendo bastante tempo
livre para recuperar a saúde. Que o contramestre trile; que o
oficial do convés urre; que o capitão de seu canhão o cace por
toda a parte — pois, se seus companheiros de rancho puderem
responder que está “na lista”, você sobrevive a todos impune. O
próprio comodoro não tem autoridade sobre você. Mas não se
assoberbe, pois suas imunidades estão asseguradas apenas
enquanto dura sua internação no umbroso hospital. Aventure-se
a buscar uma lufada de ar fresco no espardeque — sendo
descoberto ali por um oficial, será inútil alegar sua doença; pois é
praticamente impossível, assim parece, que qualquer doente num navio de guerra tenha força o bastante para subir as
escadas. Além disso, o ar bruto do mar, como lhe dirão, não faz
bem para os doentes.
Mas, não obstante tudo isso, não obstante a escuridão e
clausura da enfermaria, na qual um suposto doente deve sentir-
se satisfeito em trancar-se até o cirurgião pronunciá-lo curado,
são muitos os casos, especialmente durante prolongado tempo
ruim, nos quais falsos doentes se encaminharão a esse horrível
encarceramento hospitalar para escapar às jaquetas molhadas e
ao trabalho duro.
Reza uma lenda segundo a qual o Diabo, tomando a confissão
de uma mulher num pedaço de pergaminho, foi obrigado a
esticá-lo inúmeras vezes com os dentes para ter espaço para
tudo que a mulher tinha a dizer. O mesmo se pode falar sobre o
comissário do almoxarife, que tinha de estender sua lista de
doentes manuscrita para acomodar todos os nomes que se lhe
apresentaram quando estávamos na arfagem do cabo. O que os
marinheiros chamam de “febre do cabo Horn” faz-se
incrivelmente presente; embora desapareça de todo quando
chegamos a uma região de bom tempo, o que, como se passa
com muitos outros doentes, devia ser unicamente atribuída à
maravilha das benesses de uma total mudança de clima.
Parece muito estranho, mas é de fato verdadeiro, que no cabo
Horn alguns “mandriões” suportam as ventosas, o sangramento e
as pústulas antes de moverem um dedo. Por outro lado, há casos
nos quais um homem adoecido e carente de medicação se
recusa a engrossar a lista de doentes pois, em virtude disso, terá
interrompida sua ração de grogue.
A bordo de todo navio de guerra americano pronto para ir ao
mar, há um bom suprimento de vinhos e iguarias várias levadas
ao convés — segundo a lei — para o benefício dos doentes,
sejam eles oficiais ou marinheiros. Contudo, a bordo do
Neversink, as iguarias dadas aos marinheiros incapacitados se
limitavam a um pouco de sagu ou araruta, servidos apenas
àqueles bastante doentes; e, tanto quanto sei, nenhum vinho
jamais foi prescrito a esses doentes, embora as garrafas do
governo fossem levadas à praça-d’armas para o
restabelecimento dos oficiais indispostos.
E, embora a granja do governo fosse reposta a cada porto,
nem quatro pares de pés de galinha foram fervidos em caldo
para a marujada doente. Onde acabaram as galinhas, alguém
certamente o soube; mas, como não posso afirmá-lo eu mesmo,
não vou aqui endossar a dura afirmação dos homens, segundo a
qual o pio Pelicano — fazendo justiça a seu nome — tinha as
aves em altíssima conta. Sou pouco propenso a acreditar nesse
escândalo, em face da insistente magreza de Pelicano — o que
não seria o caso se ele se alimentasse de tão nutritivo prato
quanto a coxa de uma galinha, dieta recomendada a pugilistas
em treino. Mas quem pode evitar as suspeitas ante uma pessoa
absolutamente suspeita? Pelicano! Suspeito de você.