Jaqueta Branca
20. Como se dorme num navio de guerra
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Como se dorme num navio de guerra
B sobre minha desafortunada jaqueta;
permitam-me passar à minha maca, e às tribulações que por ela
experimentei.
Deem-me espaço o bastante para me balançar nela; permitam-
me balançar entre duas tamareiras numa planície da Arábia; ou
esticá-la entre colunas mouriscas no mármore exposto do Pátio
dos Leões, em Alhambra;132 ou suspender-me num elevado
promontório do Mississippi, onde ora atravessamos o puro éter,
ora estamos sobre a verde relva; ou oscilar como um pêndulo
sob o fresco domo da catedral de são Pedro; deixem-me cair
envolto por ela, como num balão, do mais elevado do céu, tendo
todo o firmamento para me embalar e vaguear — e eu não
trocaria minha maca feita da mais tosca lona pelo grande
baldaquino no qual, como uma suntuosa carruagem, enfia-se e
embrulha-se um rei quando este passa a noite no Palácio de
Blenheim.133
Quando se dispõe do espaço requerido, sempre se tem
retrancas em sua maca; isto é, dois bastões horizontais, um de
cada lado, que servem para manter as pontas separadas e criar
um amplo vazio entre elas, onde você pode se virar à vontade —
deitado de um lado ou de outro; de costas, se for do seu agrado; ou ainda esticar as pernas; em suma, relaxar; pois, dentre todas
as estalagens, sua cama é a melhor.
Quando, porém, a sua maca está entre outras quinhentas,
comprimida, esmagada de todos os lados, na coberta das macas
de uma fragata, a terceira de cima para baixo; quando suas
retrancas são proibidas por claríssimo édito saído da cabine do
capitão; e cada homem ao seu redor é ciosamente zeloso dos
direitos e privilégios de sua própria maca, tal qual estabelecidos
por lei e costume; nesse caso a maca se transforma em sua
Bastilha,134 seu cárcere de lona; na qual e da qual tão difícil é
entrar quanto sair; e onde dormir não passa de troça, de palavra
sem sentido.
Quarenta e cinco centímetros por homem é tudo que lhe dão;
quarenta e cinco centímetros de largura — esse é o espaço que
se tem para balançar. Que horror! Dá-se mais espaço num
cadafalso.
Nas noites quentes dos trópicos, sua maca parece uma
caçarola; onde você cozinha até quase ouvir o frigir da própria
pele. Em vão todos os estratagemas de ampliar suas
acomodações. Ai de você, se o virem insinuar as botas ou
quaisquer outros artigos à ponta da maca, à guisa de retranca.
Dos mais próximos aos mais distantes, toda a fileira a que você
pertence sente num instante a ocupação indevida e se agita até
que se descubra o culpado e seu leito seja restrito ao espaço que
lhe cabe.
Em pelotões e esquadrões, todos se deitam no mesmo nível; e
as alças das macas se cruzam e recruzam em todas as direções,
como se formassem uma imensa cama de campanha, estendida a meio caminho entre o teto e o chão; espaço que mede
aproximadamente um metro e meio.
Numa noite muito quente, durante uma calmaria, quando
estava tão quente que somente um esqueleto tinha condições de
estar confortável (pela corrente de ar que lhe passasse por entre
os ossos), depois de me empapar em meu próprio suor, desci
discretamente da maca. Pensei comigo: vamos ver agora se, por
meu engenho, não consigo chegar a um meio de ter espaço para
respirar e dormir ao mesmo tempo. Já sei. Vou colocar minha
maca abaixo de todas as outras; e então — ao menos nesse
nível independente e próprio — terei toda a coberta para mim.
Assim, desci minha maca ao ponto desejado — a
aproximadamente oito centímetros do chão — e nela me deitei
novamente.
Mas, ai!, esse arranjo transformou minha maca num tal
semicírculo que minha cabeça e meus pés se alinharam,
enquanto minhas costas curvaram-se indefinidamente na direção
do convés — como se um arqueiro gigante me usasse de arco.
Havia ainda outro plano, contudo. Estiquei a maca com toda a
minha força, de modo a colocá-la inteiramente acima das fileiras
de leitos de um lado e de outro. Feito isto, num último esforço,
nela subi — mas foi ainda pior! Minha desafortunada maca
estava tesa e reta como uma tábua; e ali eu estava — estirado,
com o nariz praticamente tocando o teto, como um homem morto
contra a tampa do caixão.
Por fim, resignei-me a voltar ao meu antigo nível e refletir sobre
a loucura, própria a quem vive sob governos arbitrários, de lutar para permanecer acima ou abaixo daqueles que a legislação
coloca em igualdade consigo mesmo.
Falar em macas me faz recordar um ocorrido que se deu certa
noite no Neversink. Ele se repetiu umas três ou quatro vezes,
com resultados diversos, porém não fatais.
O quarto de folga dormia profundamente na coberta, onde
reinava perfeito silêncio, quando um súbito estrondo e um grito
acordaram todos os marinheiros; e as barras de um par de calças
brancas desapareceram subindo as escadas da escotilha de
popa.
Corremos na direção do grito e encontramos um homem caído
no convés; uma das alças de sua maca correra, fazendo com
que sua cabeça caísse perto de três balas de canhão,
provavelmente postas ali de propósito. Quando se descobriu que
o homem era suspeito havia muito de ser um informante em meio
à tripulação, pouca surpresa e ainda menos prazer se
manifestaram por ele ter sobrevivido por um triz.