Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 23 de 101

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Jaqueta Branca

20. Como se dorme num navio de guerra

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Como se dorme num navio de guerra

 

B sobre minha desafortunada jaqueta;

permitam-me passar à minha maca, e às tribulações que por ela

experimentei.

Deem-me espaço o bastante para me balançar nela; permitam-

me balançar entre duas tamareiras numa planície da Arábia; ou

esticá-la entre colunas mouriscas no mármore exposto do Pátio

dos Leões, em Alhambra;132 ou suspender-me num elevado

promontório do Mississippi, onde ora atravessamos o puro éter,

ora estamos sobre a verde relva; ou oscilar como um pêndulo

sob o fresco domo da catedral de são Pedro; deixem-me cair

envolto por ela, como num balão, do mais elevado do céu, tendo

todo o firmamento para me embalar e vaguear — e eu não

trocaria minha maca feita da mais tosca lona pelo grande

baldaquino no qual, como uma suntuosa carruagem, enfia-se e

embrulha-se um rei quando este passa a noite no Palácio de

Blenheim.133

Quando se dispõe do espaço requerido, sempre se tem

retrancas em sua maca; isto é, dois bastões horizontais, um de

cada lado, que servem para manter as pontas separadas e criar

um amplo vazio entre elas, onde você pode se virar à vontade —

deitado de um lado ou de outro; de costas, se for do seu agrado; ou ainda esticar as pernas; em suma, relaxar; pois, dentre todas

as estalagens, sua cama é a melhor.

Quando, porém, a sua maca está entre outras quinhentas,

comprimida, esmagada de todos os lados, na coberta das macas

de uma fragata, a terceira de cima para baixo; quando suas

retrancas são proibidas por claríssimo édito saído da cabine do

capitão; e cada homem ao seu redor é ciosamente zeloso dos

direitos e privilégios de sua própria maca, tal qual estabelecidos

por lei e costume; nesse caso a maca se transforma em sua

Bastilha,134 seu cárcere de lona; na qual e da qual tão difícil é

entrar quanto sair; e onde dormir não passa de troça, de palavra

sem sentido.

Quarenta e cinco centímetros por homem é tudo que lhe dão;

quarenta e cinco centímetros de largura — esse é o espaço que

se tem para balançar. Que horror! Dá-se mais espaço num

cadafalso.

Nas noites quentes dos trópicos, sua maca parece uma

caçarola; onde você cozinha até quase ouvir o frigir da própria

pele. Em vão todos os estratagemas de ampliar suas

acomodações. Ai de você, se o virem insinuar as botas ou

quaisquer outros artigos à ponta da maca, à guisa de retranca.

Dos mais próximos aos mais distantes, toda a fileira a que você

pertence sente num instante a ocupação indevida e se agita até

que se descubra o culpado e seu leito seja restrito ao espaço que

lhe cabe.

Em pelotões e esquadrões, todos se deitam no mesmo nível; e

as alças das macas se cruzam e recruzam em todas as direções,

como se formassem uma imensa cama de campanha, estendida a meio caminho entre o teto e o chão; espaço que mede

aproximadamente um metro e meio.

Numa noite muito quente, durante uma calmaria, quando

estava tão quente que somente um esqueleto tinha condições de

estar confortável (pela corrente de ar que lhe passasse por entre

os ossos), depois de me empapar em meu próprio suor, desci

discretamente da maca. Pensei comigo: vamos ver agora se, por

meu engenho, não consigo chegar a um meio de ter espaço para

respirar e dormir ao mesmo tempo. Já sei. Vou colocar minha

maca abaixo de todas as outras; e então — ao menos nesse

nível independente e próprio — terei toda a coberta para mim.

Assim, desci minha maca ao ponto desejado — a

aproximadamente oito centímetros do chão — e nela me deitei

novamente.

Mas, ai!, esse arranjo transformou minha maca num tal

semicírculo que minha cabeça e meus pés se alinharam,

enquanto minhas costas curvaram-se indefinidamente na direção

do convés — como se um arqueiro gigante me usasse de arco.

Havia ainda outro plano, contudo. Estiquei a maca com toda a

minha força, de modo a colocá-la inteiramente acima das fileiras

de leitos de um lado e de outro. Feito isto, num último esforço,

nela subi — mas foi ainda pior! Minha desafortunada maca

estava tesa e reta como uma tábua; e ali eu estava — estirado,

com o nariz praticamente tocando o teto, como um homem morto

contra a tampa do caixão.

Por fim, resignei-me a voltar ao meu antigo nível e refletir sobre

a loucura, própria a quem vive sob governos arbitrários, de lutar para permanecer acima ou abaixo daqueles que a legislação

coloca em igualdade consigo mesmo.

Falar em macas me faz recordar um ocorrido que se deu certa

noite no Neversink. Ele se repetiu umas três ou quatro vezes,

com resultados diversos, porém não fatais.

O quarto de folga dormia profundamente na coberta, onde

reinava perfeito silêncio, quando um súbito estrondo e um grito

acordaram todos os marinheiros; e as barras de um par de calças

brancas desapareceram subindo as escadas da escotilha de

popa.

Corremos na direção do grito e encontramos um homem caído

no convés; uma das alças de sua maca correra, fazendo com

que sua cabeça caísse perto de três balas de canhão,

provavelmente postas ali de propósito. Quando se descobriu que

o homem era suspeito havia muito de ser um informante em meio

à tripulação, pouca surpresa e ainda menos prazer se

manifestaram por ele ter sobrevivido por um triz.