Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 60 de 101

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Jaqueta Branca

57. O imperador passa os marinheiros do turno em revista

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O imperador passa os marinheiros do turno em

revista

 

P , mas quase me

esquecia de relatar o fato de que com o imperador vieram vários

outros príncipes da realeza — reis, segundo soubemos —, já que

a visita se deu logo após a celebração das núpcias de uma jovem

irmã do monarca brasileiro com algum príncipe europeu. De fato,

o imperador e sua comitiva formavam uma espécie de grupo de

padrinhos; apenas a noiva se fazia ausente.296

Com o fim da primeira recepção, o desanuviar da fumaça das

canhonadas de saudação e o silenciamento da explosão marcial

da banda, varrida a sotavento, o povo foi chamado das vergas, e

os tambores rufaram para a convocação do exercício de posto.

Ao exercício fomos; e lá permanecemos, próximos a nossos

buldogues de aço, enquanto nossos nobres e monárquicos

visitantes passeavam ao longo dos canhões, irrompendo em

frequentes exclamações dirigidas a nosso aspecto guerreiro, ao

extremo asseio de nossos trajes e, acima de tudo, o

extraordinário polimento dos cobres de nossas armas de porte e

a maravilhosa brancura dos conveses.

“Que gosto!”,297 encantou-se um marquês, com o pescoço

repleto de várias e sortidas fitas providas de botões brilhantes.

“Que glória!”, contentou-se um visconde arquejado, de pele cor

de café, erguendo as mãos espalmadas.

“Que alegria!”, bradou um pequeno conde, circum-navegando

com refinamento uma caixa de munição.

“Que contentamento é o meu!”, exclamou o imperador em

pessoa, cruzando satisfeito seus régios braços e contemplando

sereno nossas fileiras.

“Sim, sim”, grunhiu um soturno calcador e limpador atrás de

mim; “tudo isso é muito bonito pra vocês olharem, seus esnobes;

mas o que iam dizer se vocês tivessem que arrastar as zorras

pelo convés e arrebentar os cotovelos polindo esse ferro maldito,

além de ganhar umas chibatadas no passadiço se deixassem

uma mancha de gordura no convés depois do rancho? É, tudo é

uma tremenda beleza pra vocês; mas para nós é uma tremenda

desgraça!”

No devido momento, os tambores rufaram em sinal de retirada,

e a companhia dispersou-se no convés.

Alguns oficiais fizeram, então, as vezes de guias para mostrar

aos distintos estrangeiros as entranhas da fragata, a respeito da

qual muitos dentre eles demonstraram profundo interesse. Uma

guarda de honra, destacada do corpo de fuzileiros, acompanhou-

os, e eles fizeram o circuito da coberta, onde, a uma judiciosa

distância, o imperador espiava o paiol do cordame, uma câmara

muito subterrânea.

O capitão do porão principal, encarregado pelo compartimento,

cumprimentou-o polidamente na penumbra e respeitosamente

expressou o desejo de que Sua Majestade Real descesse e o

honrasse com uma visita; porém, com o lenço cobrindo seu imperial nariz, Sua Majestade declinou do convite. O grupo,

então, iniciou a subida ao espardeque; que, de tão grande

profundidade numa fragata, sugere algo como a escalada ao

topo do Monumento a Bunker Hill desde o porão.298

Enquanto uma multidão de pessoas estava reunida na parte

posterior das retrancas, um súbito grito surgiu de sob o convés;

um lugar-tenente avançou para saber a causa, quando um velho

marinheiro da âncora d’esperança, surgindo a seu lado, depois

de tocar o chapéu ajeitou as calças na altura da cintura e

respondeu: “Eu num sei, senhor, mas acho que um desses rei aí

rolou escotilha abaixo”.

E o que se descobriu foi algo do gênero. Subindo por uma das

escadas estreitas que ligam a coberta das macas a dos canhões,

o nobilíssimo marquês da Silva,299 enquanto levantava as abas

da casaca do imperador para protegê-las dos batentes recém-

pintados da escotilha, prendeu entre as pernas a espada,

demasiado cumprida, e tropeçou, rolando pela passagem da

proa.

“Aonde ides?”, perguntou seu mestre real, voltando-se

tranquilamente na direção do marquês em queda. “Por que

largaste as abas de minha casaca?”, acrescentou subitamente,

num arroubo, olhando ao redor ao mesmo tempo para ver se os

demais tinham sido acometidos da mesma infidelidade de seu

caudatário.

“Ó, Deus!”, suspirou o capitão da gávea de proa. “Quem

gostaria de ser um marquês da Silva?”

Depois de ser auxiliado na subida ao espardeque, viu-se que o

desafortunado marquês escapara sem ferimentos graves; mas era evidente, ante a acentuada frieza de seu senhor real, quando

o marquês se aproximou para pedir desculpas pela falta de jeito,

que fora condenado por ter sido momentaneamente negligente

quanto ao conforto do monarca.

Logo depois a comitiva imperial partiu, sob outra grande

saudação nacional.