Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 13 de 101

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Jaqueta Branca

10. De carteiras a carteiristas

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De carteiras a carteiristas

 

C pode ter causado

estranheza aos que vivem em terra firme, habituados a deliciar-

se com muito elevadas e românticas ideias quanto ao caráter dos

homens de um navio de guerra, talvez não seja impróprio

registrar aqui alguns fatos sobre tal tema, os quais podem servir

para colocar o assunto sob seu verdadeiro prisma.

Em virtude da vida selvagem que vivem e de inúmeras outras

causas (inútil mencioná-las), os marinheiros, como classe,

partilham de uma perspectiva bastante flexível ante a noções de

moralidade e aos Dez Mandamentos; ou, antes, assumem

posições próprias diante de tais assuntos, preocupando-se pouco

com definições teológicas e éticas de outros no tocante ao que

pode ser criminoso ou errado.

Suas ideias sofrem forte influxo das circunstâncias. Eles

subtrairão discretamente algo de alguém que os desagrade; e

serão firmes em dizer que, em tal caso, furto não é roubo. Ou,

quando o crime envolve algum divertimento, tal como o caso da

jaqueta branca, o farão unicamente pelo prazer da piada; não

obstante seja mister lembrar: eles jamais estragam a piada

devolvendo o objeto roubado.

É considerada boa brincadeira, por exemplo — e inclusive

muitas vezes levada a bordo do navio —, ficar conversando com

um sujeito numa vigília durante a noite, enquanto outros cortam

os botões de seu casaco. Uma vez cortados, porém, esses

botões jamais crescerão de novo. Botões não afloram

espontaneamente.

Talvez seja algo incontornável, mas a verdade é que, em meio

à tripulação de um navio de guerra, é muito frequente

encontrarmos grupos de criminosos que não se intimidam ante

os delitos maiores. Essa gente não desconhece assalto à mão

armada. Um bando é informado de que certo sujeito tem três ou

quatro peças de ouro em sua bolsilha, que muitos marinheiros

trazem amarradas ao pescoço ou guardadas longe dos olhos de

quem quer que seja. Sabendo disso, deliberam seus planos; e,

na hora devida, tratam de executá-lo. Talvez o homem marcado

esteja apenas atravessando a coberta penumbrosa em direção à

caixa de seu rancho; quando, não mais que de repente,

salteadores surgem de seu esconderijo, jogam-no ao chão e,

enquanto dois ou três passam-lhe a mordaça e o amarram, outro

arranca-lhe a bolsilha do pescoço e foge com ela, seguido de

seus camaradas. Isso se sucedeu mais de uma vez a bordo do

Neversink.

Noutras ocasiões, ante a hipótese de que um marinheiro tem

algo de valor escondido em sua maca, eles a rasgam na face

inferior enquanto ele dorme, e fazem da conjectura uma certeza.

Seria infindável enumerar todos os furtos menores a bordo de

um navio de guerra. Com algumas muito louváveis exceções,

eles roubam e são roubados sucessivamente, até que, em se tratando de objetos menores, parece se consolidar um conjunto

de bens comuns a toda a marujada; que, por fim, como um todo,

se mostra relativamente honesta, uma vez que quase todos se

corrompem. É inútil o esforço dos oficiais de instilar, por meio de

ameaças de punição condigna, princípios mais virtuosos em sua

tripulação. O bando é tão coeso que, dentre mil ladrões, não se

identifica um.