Jaqueta Branca
10. De carteiras a carteiristas
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De carteiras a carteiristas
C pode ter causado
estranheza aos que vivem em terra firme, habituados a deliciar-
se com muito elevadas e românticas ideias quanto ao caráter dos
homens de um navio de guerra, talvez não seja impróprio
registrar aqui alguns fatos sobre tal tema, os quais podem servir
para colocar o assunto sob seu verdadeiro prisma.
Em virtude da vida selvagem que vivem e de inúmeras outras
causas (inútil mencioná-las), os marinheiros, como classe,
partilham de uma perspectiva bastante flexível ante a noções de
moralidade e aos Dez Mandamentos; ou, antes, assumem
posições próprias diante de tais assuntos, preocupando-se pouco
com definições teológicas e éticas de outros no tocante ao que
pode ser criminoso ou errado.
Suas ideias sofrem forte influxo das circunstâncias. Eles
subtrairão discretamente algo de alguém que os desagrade; e
serão firmes em dizer que, em tal caso, furto não é roubo. Ou,
quando o crime envolve algum divertimento, tal como o caso da
jaqueta branca, o farão unicamente pelo prazer da piada; não
obstante seja mister lembrar: eles jamais estragam a piada
devolvendo o objeto roubado.
É considerada boa brincadeira, por exemplo — e inclusive
muitas vezes levada a bordo do navio —, ficar conversando com
um sujeito numa vigília durante a noite, enquanto outros cortam
os botões de seu casaco. Uma vez cortados, porém, esses
botões jamais crescerão de novo. Botões não afloram
espontaneamente.
Talvez seja algo incontornável, mas a verdade é que, em meio
à tripulação de um navio de guerra, é muito frequente
encontrarmos grupos de criminosos que não se intimidam ante
os delitos maiores. Essa gente não desconhece assalto à mão
armada. Um bando é informado de que certo sujeito tem três ou
quatro peças de ouro em sua bolsilha, que muitos marinheiros
trazem amarradas ao pescoço ou guardadas longe dos olhos de
quem quer que seja. Sabendo disso, deliberam seus planos; e,
na hora devida, tratam de executá-lo. Talvez o homem marcado
esteja apenas atravessando a coberta penumbrosa em direção à
caixa de seu rancho; quando, não mais que de repente,
salteadores surgem de seu esconderijo, jogam-no ao chão e,
enquanto dois ou três passam-lhe a mordaça e o amarram, outro
arranca-lhe a bolsilha do pescoço e foge com ela, seguido de
seus camaradas. Isso se sucedeu mais de uma vez a bordo do
Neversink.
Noutras ocasiões, ante a hipótese de que um marinheiro tem
algo de valor escondido em sua maca, eles a rasgam na face
inferior enquanto ele dorme, e fazem da conjectura uma certeza.
Seria infindável enumerar todos os furtos menores a bordo de
um navio de guerra. Com algumas muito louváveis exceções,
eles roubam e são roubados sucessivamente, até que, em se tratando de objetos menores, parece se consolidar um conjunto
de bens comuns a toda a marujada; que, por fim, como um todo,
se mostra relativamente honesta, uma vez que quase todos se
corrompem. É inútil o esforço dos oficiais de instilar, por meio de
ameaças de punição condigna, princípios mais virtuosos em sua
tripulação. O bando é tão coeso que, dentre mil ladrões, não se
identifica um.