Jaqueta Branca
8. Contraste entre Michelo e Mad Jack
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Contraste entre Michelo e Mad Jack63
T as grandes divisões de
um navio de guerra, aprofundemo-nos em suas especificidades,
em particular dois lugares-tenentes recém-formados; nobres
rapazes; membros daquela Câmara dos Lordes64 que é a praça-
d’armas. Havia muitos jovens lugares-tenentes a bordo; porém, é
da natureza desses dois — representantes dos extremos de
personalidade a serem encontrados em sua seção — que
devemos derivar a natureza dos demais oficiais de tal patente a
bordo do Neversink.
Um desses dois aristocratas do tombadilho era conhecido
entre os marinheiros pelo apelido que estes lhe deram, Michelo.
Evidentemente, a intenção era marcar uma característica do
portador; e assim a alcunha funcionava.
Nas fragatas, bem como em todos os grandes navios de
guerra, quando se aparelha a embarcação para partir, cabe ao
cabo de ala e larga transmitir a tensão da amarra ao cabrestante;
de modo que se possa levantar âncora sem que o poderoso cabo
coberto de lodo se enrole, ele próprio, no cabrestante. À medida
que a amarra da âncora entra pelo escovém, portanto, algo
precisa ser constantemente utilizado para mantê-la ligada ao
cabo de ala e larga, ambos em movimento; algo que possa ser rapidamente enrolado em torno de ambos, mantendo-os unidos.
Este é o michelo. E o que poderia ser adaptado a tal uso? Uma
gaxeta leve, afilada e lisa preparada com muito cuidado;
particularmente flexível; que se enrola ao redor da amarra e do
cabo de ala e larga como uma cobra elegantemente modelada ao
redor dos ramos entrelaçados de uma vinha. De fato, Michelo era
o tipo e o símbolo exatos de uma alta, nobre, flexível e espiralada
beleza. Daí a derivação do nome que os marinheiros aplicavam
ao lugar-tenente.
De que alcova marinha, de que chapelaria de sereia você
emergiu, Michelo, com seu rosto pálido e cintura delicada? Que
madrasta desalmada o expulsou de casa para desperdiçar seus
perfumes nos ventos salinos do mar?
Foi você, Michelo, que, mirando para além da amurada, na
costa do cabo Horn, observou a ilha de Hermite através de
binóculos de ópera? Foi você quem pensou em propor ao capitão
que, quando as velas fossem ferradas em meio a uma
tempestade, se depositassem gotas de lavanda nos “seios de
vela”, de modo que, novamente desferrados os panos, suas
narinas não se ofendessem com o bafio? Não digo que tenha
sido, Michelo; apenas pergunto respeitosamente.
Em suma: Michelo era um daqueles oficiais que, na infância,
encantavam-se com a visão de um casaco naval bem cortado.
Imaginou ele que, se um oficial da Marinha se vestisse bem e
conversasse com educação, faria justiça a sua bandeira e
imortalizaria o alfaiate que o tivesse trajado. Nesse rochedo,
muitos jovens cavalheiros perderam a vida. Pois, no tombadilho
de uma fragata, não basta ostentar um casaco desenhado por
Stultz;65 nem estar reforçado de suspensórios e cintas; tampouco
trazer consigo as mais doces lembranças de Lauras e Matildas.
É, em sua inteireza, uma vida feita de perdas e danos, e o
homem que não estiver apto o bastante a se tornar um segundo
marinheiro jamais fará um oficial. Guardem isso no fundo de seus
corações, candidatos à Marinha. Mergulhem os braços inteiros
no piche e vejam se gostam, antes de se alistarem. Preparem-se
para borrascas, tufões e violentas tempestades; leiam relatos de
naufrágios e terríveis desastres; atentem às narrativas de Byron
e Bligh;66 estejam a par das histórias da fragata inglesa Alceste e
da francesa Medusa.67 Embora, vez por outra, terminem por
aportar em belas cidades como Cádiz e Palermo; a cada dia
vivido em meio a belas moças e laranjeiras, experimentarão
meses inteiros de chuvas e tempestades.
A nada disso Michelo escapou. Com toda a intrépida
feminilidade do verdadeiro dândi que era, porém, não deixou de
tomar seus banhos de água-de-colônia e exibir seus lenços
bordados no calor das tempestades. Ai, Michelo! O que seria
capaz de tirar a lavanda de você?
Michelo, contudo, pouco tinha de idiota. Ele conhecia a
profissão em termos teóricos; entretanto, a simples teoria náutica
não é mais do que a milionésima parte do que faz um marinheiro.
Não se salva um navio resolvendo uma equação na cabine; o
convés é o campo de batalha.
Consciente de sua deficiência em alguns pontos, Michelo
jamais tomou do porta-voz — à época, reservado unicamente
aos oficiais de convés — sem um tremor de lábios e olhares
preocupados dirigidos a barlavento. Ele incentivava nossos
velhos Tritões,68 os quartéis-mestres, a falar-lhe com minúcia
sobre os sinais de um vendaval; e não raro seguia os conselhos
de tais homens para anunciar o recolher ou envergar dos panos.
Os menores favores nesse sentido não eram recebidos sem
gratidão. Às vezes, quando todo o céu ao norte parecia
estranhamente carregar-se, ele procurava, sob rodeios e lisonjas,
prolongar a permanência de seu predecessor no convés, mesmo
que o turno deste se tivesse encerrado. Em dia de tempo firme,
porém, quando o capitão emergia da cabine, lá se via Michelo,
caminhando pela popa a passos largos e incansáveis, lançando
olhares ao alto dos mastros com a mais ostensiva diligência.
Inúteis, contudo, eram suas pretensões; quem ele era capaz
de enganar? Michelo! Você sabe muito bem que, tão logo
começa a ventania, o primeiro lugar-tenente intervirá com sua
autoridade paternal. Todo praça e todo pajem da fragata sabe,
Michelo, que você está longe de ser um Netuno!69
É uma situação de não despertar inveja! Seus companheiros
oficiais não o insultam, claro; mas, vez por outra, os olhares que
lhe lançam são verdadeiras adagas. Os marinheiros não se riem
diante dele; entretanto, em noites escuras, não perdem a
oportunidade de caçoar, quando o escutam ordenar, com sua voz
de mocinha tecelã, que se puxe com força o estai principal ou
que acorramos às adriças! Às vezes, com o único intuito de
parecer desagradável e assustar a marujada, Michelo vocifera
alguma imprecação; mas a bomba delicada, recheada de
beijinhos de chocolate, parece explodir como um botão de rosa
esmagado do qual emanam perfumes. Michelo! Michelo! Aceite este conselho de um gajeiro de mastro principal — terminada a
viagem, esqueça o mar.
Que forte contraste há entre este cavalheiro tão preocupado
com gravatas e cabelos frisados e outro nascido num vendaval!
Pois deve ter sido em tempo de procela — nas imediações da
costa do cabo Horn ou de Hatteras — que Mad Jack veio ao
mundo, não em berço de ouro, mas com um porta-voz à boca;
empelicado como se estivesse envolto em vela70 — pois, em sua
vida abençoada, está protegido contra naufrágios —, e gritando:
“À bolina! À bolina! Firme! Porto! Mundo, eis-me aqui!”.
No mar, Mad Jack tinha tudo sob controle. Esse era seu lar;
nem sequer se importaria muito se outro Dilúvio viesse a cobrir a
terra firme; pois que outra coisa aconteceria, senão que seu bom
navio flutuaria mais alto, levando a bandeira de sua orgulhosa
nação ao redor do mundo por sobre as capitais de todas as
nações hostis! Assim, os mastros superariam os pináculos; e
toda a humanidade, como os barqueiros chineses do rio Cantão,
viveria em armadas e flotilhas buscando sua comida no mar.
Mad Jack foi criado e educado para ser um marinheiro. Um
metro e setenta e cinco de altura, em meias; e antes do jantar
não pesava mais que setenta quilos. Como os muitos ovéns de
um navio, seus músculos e tendões estavam todos em perfeita
ordem, retesados, prontos para zarpar; como um navio ao vento,
seus estais estavam fixos de proa a popa. Forte, seu peito era
como um tabique a conter o vendaval; aquilino, o nariz dividia-lhe
o rosto em dois como uma quilha. Seus pulmões eram sonoros e
vigorosos como dois campanários, soando como se trouxessem
consigo toda sorte de carrilhão; mas você só o escutaria em seu mais profundo ressoar no ápice da tempestade — como o grande
sino da catedral de São Paulo,71 que dobra apenas quando
morre o rei ou o demônio.
Olhe só para ele, parado à popa — um dos pés sobre a
amurada, uma das mãos num ovém —, a cabeça lançada para
trás, e o porta-voz como a tromba de um elefante erguida ao ar.
Pretende ele alvejar com balas de som os rapazes da verga da
vela de mezena grande?
Mad Jack era um pouco tirânico — dizem que todos os bons
oficiais o são —, mas toda a marujada lhe tinha apreço; e
preferiria realizar cinquenta turnos sob suas ordens a um
somente com um marinheiro que cheirasse a água de rosas.
Mas Mad Jack, ai!, tem um terrível problema. Ele bebe. Bem,
todos bebemos. Mas Mad Jack, ele só bebe conhaque. Era um
vício inveterado; como Ferdinand, o conde Fathom, ele decerto
mamou num barril.72 Com muita frequência, o hábito o fazia
passar maus e sérios bocados. Por duas vezes foi suspenso pelo
comodoro; e, uma vez, chegou perto de sofrer punições físicas
por suas brincadeiras. No que se referia a sua eficiência como
oficial, ao menos em terra firme Jack podia encher a cara tanto
quanto quisesse; em alto-mar, porém, isso era terminantemente
proibido.
Ora, se ele pelo menos seguisse o sábio exemplo dado por
aqueles navios do deserto, os camelos, e, uma vez no porto,
bebesse pela sede passada, a sede presente e a sede vindoura
— de modo que pudesse cruzar o oceano sóbrio —, caso o
fizesse, Mad Jack teria ido muito bem. Ainda melhor se evitasse o conhaque de todo e apenas bebesse do límpido vinho branco
de arroios e regatos.