Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 77 de 101

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Jaqueta Branca

74. A gávea do mastro principal à noite

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A gávea do mastro principal à noite

 

T R J à linha do Equador foi

feita de um só e delicioso navegar, tanto quanto concerne ao

bom tempo e à condução do navio. Era especialmente agradável

quando nosso turno de quarto se demorava na gávea do mastro

principal, o que nos distraía de muitas e deliciosas maneiras.

Distantes da presença imediata dos oficiais, inofensivamente

relaxávamos mais do que em qualquer outra parte do navio. De

dia, muitos de nós mostravam-se muito industriosos, fazendo

chapéus ou costurando roupas. Mas, à noite, ficávamos mais

suscetíveis ao romantismo.

Muitas vezes Jack Chase, um entusiasta dos panoramas

marítimos, chamava-nos diretamente a atenção à luz da lua

sobre as ondas, recitando belos excertos de seu catálogo de

poetas. Jamais me esquecerei do ar lírico com que, certa manhã,

no raiar do dia, quando todo o leste corava em vermelho e ouro,

ele se recostou nos ovéns do sobrejoanete e, estendendo a mão

sobre o mar, bradou: “Eis os raios da Aurora; vejam,

companheiros de gávea!”. E, em longas sílabas líquidas, recitou

os versos:

Luzem da fina púrpura as cabaias,

Lustram os panos da tecida seda.

“Comodoro Camões, Jaqueta Branca… Mas vem me ajudar

aqui; precisamos amarrar aquela retranca da varredoura… o

vento está mudando.”

De nosso ninho elevado, durante uma noite de lua, a própria

fragata oferecia uma gloriosa vista. Ela navegava velozmente, o

vento em popa, e as varredouras desfraldadas em ambos os

lados, de modo que as velas dos mastros grande e de traquete

traziam a aparência de majestosas e afiladas pirâmides, com

mais de cem pés de largura na base e fechando nas nuvens com

o leve culminar dos mastaréus de sobrejoanete. Essa imensa

área branca como a neve deslizando por sobre o mar era, de

fato, um magnífico espetáculo. Os três mastros a toda vela

pareciam aparições de três gigantescos emires turcos

cavalgando pelo oceano.

Também não faltava o som da música para aumentar a poesia

do cenário. Toda a banda se reunia à popa para o deleite dos

oficiais e, por tabela, nosso, com suas belas e antigas árias. Ao

som destas, alguns de nós dançavam na gávea, quase tão

grande quanto uma sala de estar comum. Quando nos faltava a

melodia instrumental da banda, nossos rouxinóis reuniam suas

vozes e nos ofereciam uma canção.

Nessas ocasiões, Jack Chase era não raro chamado e, assim,

nos regalava, em seu livre e nobre estilo, com “Damas

espanholas”373 — uma canção querida dos marinheiros dos

navios de guerra britânicos — e muitas outras baladas e

canções, como:

Este é o sir Patrick Spens,

Dos marinheiros o melhor

De qu’o oceano tem notícia. 374

E também:

As três voltas do bravo navio,

Três voltas que seu casco deu;

As três voltas do bravo navio,

Três voltas que seu casco deu;

Deu e morreu

no fundo do mar…

Do mar, do mar, do mar…

Deu e morreu

No fundo do mar!375

 

Essas canções eram entrecortadas pelos “casos” e “contos”

dos gajeiros. E era nessas ocasiões que eu sempre tentava fazer

com que os mais velhos tritões desfiassem suas narrativas do

tempo da guerra. Poucos deles, é verdade, tinham conhecido a

luta; mas isso só tornava suas narrativas ainda mais valiosas.

Havia um velho negro, conhecido como Caramelo, marujo da

âncora d’esperança que muitas vezes convidávamos ao topo

durante noites agradáveis para escutá-lo falar. Era um marinheiro

sério, sóbrio, muito inteligente, de modos francos e educados, um

dos melhores homens do navio e tido em grande estima por

todos.

Parece que, durante a última guerra entre Inglaterra e Estados

Unidos, como muitos outros ele fora submetido à prisão para a

maruja em alto-mar, quando trabalhava num navio mercante da

Nova Inglaterra. O navio que o convocara era uma fragata

inglesa, o Macedonian, depois capturado pelo Neversink, o navio

em que velejávamos.

Era o sagrado dia de descanso, segundo Caramelo, e, quando

o navio britânico avançou contra o americano — a tripulação toda

a postos —, Caramelo e seus concidadãos, lotados por acaso nas baterias do tombadilho, respeitosamente se aproximaram do

capitão — um velho homem de nome Carden376 —, quando este

passou, célere, por eles, a luneta de observação debaixo do

braço. Mais uma vez eles reforçaram o fato de não serem

ingleses e que era terrível erguer as mãos contra a bandeira do

país que guardava suas mães. Eles lhe imploraram que os

liberasse dos canhões e permitisse que permanecessem neutros

durante o conflito. Mas, quando um navio de qualquer nação está

sendo conduzido à batalha, o tempo para discutir é nulo, quase

inexistente para a justiça e muito menos para a humanidade.

Tomando de uma pistola do cinto de um soldado ao lado, o

capitão apontou-a às cabeças dos três marinheiros e exigiu que

retornassem aos seus postos, sob a pena de serem executados

ali mesmo. Assim, lado a lado com seus inimigos nacionais,

Caramelo e os companheiros trabalharam nos canhões e

travaram a luta até o fim; com exceção de um deles, morto em

seu posto por uma bala de seu próprio país.

Por fim — após a perda do mastro grande e do mastro de

traquete, com o mastro de gata deitado ao convés e a verga de

traquete caída em dois pedaços sobre o castelo de proa

destruído —, a fragata britânica, varada por tiros de canhão

numa centena de pontos, foi reduzida aos estertores. O capitão

Carden ordenou a seu quartel-mestre sinalizador que arriasse a

bandeira.

Caramelo foi um dos que ajudaram a botá-lo a bordo do

Neversink. Ao pisar o convés, Carden saudou Decatur,377 o

comandante inimigo, e ofereceu-lhe a espada; essa, porém, foi

respeitosamente recusada. Talvez o vencedor se lembrasse dos jantares de que ele e o inglês tinham desfrutado juntos em

Norfolk, pouco antes do irromper das hostilidades, quando ambos

estavam no comando das mesmas fragatas agora avariadas no

mar. Parece que o Macedonian tinha ido a Norfolk com

despachos. Na época, eles riram e trocaram comentários jocosos

regados a vinho; segundo se disse, também apostaram um

chapéu de castor pelo encontro hostil de seus navios.378

Mirando os pesados canhões diante de si, Carden disse a

Decatur: “Este é um navio de setenta e quatro peças, não uma

fragata; não é à toa que venceu!”.

O comentário foi baseado na superioridade do Neversink em

canhões. A bateria do Neversink no convés principal consistia,

como hoje, de canhões de vinte e quatro libras; a do

Macedonian, de apenas dezoito. No todo, o Neversink contava

com cinquenta e quatro canhões e quatrocentos e cinquenta

homens; o Macedonian, com quarenta e nove canhões e

trezentos homens; uma imensa disparidade que, unida a outras

circunstâncias da batalha, tirou da luta qualquer reivindicação de

glória além da que se poderia atribuir a um hipopótamo que

derrotasse uma foca.

Mas, se Caramelo falava a verdade — e ele era um sujeito

cioso da verdade —, o fato parecia se contrapor a uma

circunstância por ele relatada. Quando os canhões do navio

inglês foram examinados, depois do combate, em mais de uma

situação a bucha foi encontrada enfiada contra o cartucho de

pólvora, porém sem atingir a bala. E embora, em meio a uma

frenética luta em alto-mar, tal situação se possa atribuir à pressa

e ao desleixo, ainda assim Caramelo, um defensor de sua tribo, sempre a relacionava a uma causa diversa e menos honrosa.

Mas, mesmo que se confirmasse como verdadeira a causa por

ele arrolada, ela não envolvia nada de adverso à coragem geral

demonstrada pela tripulação britânica. No entanto, de tudo que

se pode aprender de pessoas que estiveram em batalhas navais,

não há muita dúvida de que, a bordo de todos os navios,

independentemente da nação, em tempo de guerra, não são

poucos os homens que ficam demasiadamente nervosos, para

dizer o mínimo, nos canhões; socando e limpando o cano a

esmo. E que interesse patriótico especial poderia ter um homem

coagido, por exemplo, premido por uma batalha à qual fora

arrastado dos braços de sua mulher? Ou deve causar surpresa

que os marinheiros britânicos convocados à força não tenham

hesitado, em tempo de guerra, em ferir o braço que os

escravizava?

Durante a mesma guerra geral em andamento e mesmo antes

do período em que se deu a batalha aqui tratada, um vice-

almirante britânico, escrevendo para o almirante, disse: “Tudo

parece tranquilo na fragata; porém, preparando-nos para a

batalha na semana passada, muitos dos canhões à proa do navio

foram encontrados perfurados”, ou seja, inutilizados. Quem os

perfurara? Os marinheiros insatisfeitos. É de todo improvável,

portanto, que os canhões aos quais Caramelo se referia tivessem

sido ocupados por homens que houvessem propositadamente se

abstido de dispará-los contra o inimigo; que, nessa batalha em

especial, a vitória americana se atribua parcialmente à arisca

insubordinação do próprio inimigo?

Durante esse mesmo período de guerra geral, era frequente

que canhões de navios armados britânicos fossem encontrados

pela manhã com suas culatras avariadas. Essa inutilização ao

menos temporária dos canhões só poderia ser imputada ao

sigiloso espírito de ódio ao serviço militar que levara os homens à

perfuração dos canhões acima referida. Mas mesmo em casos

em que não se observa qualquer insatisfação profunda

sedimentada em meio à tripulação ou em que um marinheiro, em

tempo de ação, impelido por puro e simples medo, “esquiva-se

de seu canhão”, parece-me um insulto contra Ele, que fez tal

marinheiro como ele constitucionalmente é, costurar a palavra

“covarde” em suas costas e degradá-lo e submeter um já trêmulo

coitado a incontáveis outros sofrimentos. Nem parece ser prática

referendada pelo Sermão da Montanha que um oficial de tiro, em

momento de batalha, permaneça diante de seus homens com a

espada em punho (como se deu no Macedonian) e corra direto

ao primeiro marinheiro que apresente um semblante de medo.

Caramelo contou-me que ouviu claramente tal ordem ser dada

pelo capitão britânico a seus oficiais de divisão. Fossem escritas

todas as histórias secretas das batalhas navais, os louros dos

heróis do mar se transformariam em cinzas em suas próprias

cabeças.

E quão nacionalmente desgraçado, sob qualquer ponto de

vista, é o Artigo de nossos Artigos de Guerra: “Se qualquer

pessoa na Marinha pedir abjetamente por dispensa da batalha,

há de pagar com a vida”. Assim, com a morte diante de si vinda

do inimigo e a morte às suas costas vinda dos próprios

compatriotas, o mais corajoso dos marinheiros de um navio de guerra jamais pode ter para si o mérito de um nobre impulso.

Nisso, como em qualquer outro caso, os Artigos de Guerra não

oferecem qualquer recompensa pela boa conduta, unicamente

compelem o marinheiro a lutar, como um assassino contratado,

mediante pagamento, cavando sua cova diante dos próprios

olhos no caso de hesitação.

Mas esse Artigo está aberto a ainda mais graves objeções.

A coragem é a mais comum e vulgar das virtudes; a única que

compartilhamos com os animais dos campos; e a mais apta, sob

excesso, a incorrer em vício. E, uma vez que a Natureza

geralmente tira com uma das mãos para dar com a outra, a

excessiva coragem animal, em muitos casos, apenas encontra

espaço num caráter vazio de mais elevadas qualidades. Mas,

num oficial da Marinha, a coragem animal é exaltada como o

mais elevado mérito e rende, não raro, respeitados postos de

comando.

Dessarte, se algum descerebrado valente for capitão de uma

fragata em ação, ele poderá lutar contra forças invencíveis e

buscar coroar a si mesmo com a glória da carnificina, permitindo

que sua tripulação impotente seja massacrada diante de seus

olhos ao mesmo tempo que a tripulação deve consentir ser

destruída pelo inimigo, sob a pena de ser morta pela lei. Veja a

luta entre a fragata americana Essex contra dois cruzadores

britânicos, o Phoebe e o Cherub, próximos à baía de Valparaíso,

durante a guerra passada.379 É sabido de todos que o capitão

americano continuou a levar seu navio avariado à batalha contra

uma força muito superior; mesmo quando, por fim, tornou-se

fisicamente impossível obter outro resultado que não a derrota; e mesmo quando, em circunstâncias particularmente infelizes, seus

homens estavam próximos aos canhões praticamente inúteis

apenas para serem mutilados e esfacelados pelo fogo cerrado e

incessante dos canhões longos do inimigo. Por continuar a lutar,

essa fragata americana não fez absolutamente nada, um mínimo

sequer, para promover o verdadeiro interesse de seu país. Não é

meu desejo rebaixar qualquer reputação que o capitão americano

possa ter granjeado nessa batalha. Era homem de coragem;

isso, nenhum marinheiro negará. Mas o mundo inteiro é feito de

homens corajosos. De todo modo, não quero que se entenda que

contesto seu bom nome. Não obstante, não se deve duvidar que,

se houvesse quaisquer marinheiros munidos de senso comum

nos canhões do Essex, por mais corajosos que fossem, esses

marinheiros teriam preferido enormemente arriar a bandeira,

quando viram que a batalha estava completamente perdida, a

postergar o ato inevitável até que restassem poucos braços

americanos que a fizessem descer. No entanto, tivessem esses

homens, sob tais circunstâncias, “pedido abjetamente pela

dispensa da batalha”, segundo o Artigo , eles teriam sido

legalmente enforcados.

Segundo o negro Caramelo, quando o capitão do Macedonian

— vendo que o Neversink tinha o navio completamente em seu

poder — deu a ordem de arriar a bandeira, um de seus oficiais,

homem odiado pelos marinheiros por sua tirania, uivou no mais

terrível dos protestos, jurando que, de sua parte, não desistiria e

preferia que o Macedonian afundasse ao lado do inimigo. Fosse

ele o capitão, sem dúvida o teria feito; recebendo por isso o nome de herói neste mundo; porém, do que o chamariam no

outro?

Mas, como todo o assunto da guerra ainda é um tapa na cara

do senso comum e da cristandade, tudo que diga respeito a ela é

absolutamente estúpido, não cristão, bárbaro, brutal e, com sabor

das ilhas Fiji, de canibalismo, do salitre e do demônio.

É geralmente o caso num navio de guerra, quando se arria a

bandeira, que toda a disciplina cai por terra, e os homens por um

instante se mostram ingovernáveis. Assim foi a bordo da fragata

britânica. O paiol de grogue foi arrombado, e barris de bebida

circulavam pelo convés, onde muitos dos feridos jaziam entre

canhões. Esses marinheiros agarraram os galões e, a despeito

de todo o protesto, engoliram a bebida ardente até que, como

dizia Caramelo, o sangue de repente desapareceu das feridas, e

eles caíram mortos no convés.

O negro tinha muitas outras histórias a contar sobre essa

batalha; e frequentemente me guiava ao longo dos canhões do

convés principal — ainda munido das mesmas peças usadas na

batalha — mostrando suas indeléveis cicatrizes. Coberto da tinta

acumulada de mais de trinta anos, elas eram quase invisíveis ao

olho que não lhes desse a devida atenção; mas Caramelo as

conhecia de cor; pois voltou para casa no Neversink e observara

essas cicatrizes logo depois da batalha.

Uma tarde, eu caminhava com ele ao longo da coberta dos

canhões, quando ele parou ao lado do mastro principal. “Essa

parte do navio”, disse ele, “a bordo do Macedonian nós a

chamávamos de ‘matadouro’. Aqui os homens tombavam, cinco

ou seis por vez. Um inimigo sempre mirava este ponto, para derrubar, se possível, o mastro. As vigas e carlingas que ficavam

sobre o matadouro do Macedonian estavam cheias de sangue e

tripas. Perto das escotilhas, o que se via mais parecia uma

bancada de açougueiro; havia pedaços de carne humana

grudada nas cavilhas de arganéu. Um porco que corria pelo

convés escapou ileso, mas seu couro estava tão cheio de

sangue, por revolver as poças deixadas pelos corpos, que,

quando o navio se rendeu, os marinheiros lançaram o animal ao

mar, alegando, sob imprecações, que seria canibalismo comê-lo.”

Outro quadrúpede, um bode, perdeu as patas da frente nessa

batalha.

Eram expressas as ordens — segundo o costume — de lançar

ao mar os marinheiros mortos tão logo tombassem; sem dúvida,

como disse o negro, para que a visão de tantos cadáveres caídos

ao redor não assustasse os sobreviventes nos canhões. Entre

outros exemplos, ele relatou os seguintes. Um tiro de canhão,

entrando por uma das portinholas, aniquilou dois terços da

equipe de um canhão. O capitão do canhão ao lado, largando a

corda de disparo, que ele acabara de puxar, voltou-se à pilha de

cadáveres para ver quem eram; percebendo um velho

companheiro de rancho, que estivera com ele em muitas viagens,

caiu em lágrimas e, tomando o corpo nos braços e levando-o à

amurada, segurou-o por um instante sobre a água e, fitando-o,

gritou:

“Oh, Deus! Tom!”

“Que se danem suas preces sobre o morto! Lance-o ao mar e

volte para o canhão!”, berrou um lugar-tenente ferido. Obedecendo à ordem, o marinheiro de coração partido retornou a

seu posto.

As histórias de Caramelo eram o bastante para partir a espada

deste mundo flutuante na bainha. E, pensando em toda cruel

glória secular granjeada por heróis navais em situações como

essa, pergunto-me se de fato foi um glorioso caixão aquele no

qual lorde Nelson foi enterrado — um caixão que lhe fora

presenteado, em vida, pelo capitão Hallowell;380 feito do mastro

principal do navio de linha de batalha francês L’Orient, que,

destruído pelo fogo britânico, levou consigo centenas de

franceses na Batalha do Nilo.381

Que lorde Nelson repouse em paz em seu mastro reformado!

Mas antes fosse eu colocado no tronco de alguma árvore

verdejante e tivesse mesmo na morte a seiva da vida circulando

ao meu redor, dando meu corpo morto à folhagem viva que

sombreasse meu pacífico túmulo.