Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 41 de 101

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Jaqueta Branca

38. O capelão e a capela num navio de guerra

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O capelão e a capela num navio de guerra

 

O — fato estabelecido pelo

calendário, a despeito da máxima dos marinheiros de guerra

segundo a qual “não há domingos em mar largo”.

Não há domingos em mar largo, de fato! Não há domingos a

bordo! Poderíamos também dizer que não deveria haver

domingos nas igrejas; pois não é um navio construído à imagem

e semelhança de uma igreja? Não tem ele três pontas — três

torres? Sim; e na coberta dos canhões não há um sino e um

campanário? E esse sino não dobra alegremente todo domingo

pela manhã para chamar a tripulação à fé?

De qualquer forma, havia domingos a bordo dessa nossa

fragata em particular, e um clérigo também. Era um sujeito

esguio, de meia-idade, postura amistosa e conversa irretocável;

devo dizer, contudo, que seus sermões não eram de forma

alguma dirigidos ao bem da tripulação. O homem bebera nas

fontes místicas de Platão; sua cabeça fora feita pela filosofia

alemã; e digo mais — Jaqueta Branca o viu com a Biographia

Literaria de Coleridge nas mãos.196

Imagine, agora, esse sacerdote transcendental de pé atrás de

uma carreta de canhão no convés principal, dirigindo-se a

quinhentos pecadores de água salgada sobre os fenômenos psicológicos da alma e a necessidade ontológica de todos os

marinheiros salvarem-na de todo perigo. Ele discorria

longamente sobre os desatinos dos filósofos antigos; com

erudição, aludia ao Fédon, de Platão; expunha as sandices do

comentário de Simplício a De Coelo, de Aristóteles, confrontando

o perspicaz autor pagão com o admirável tratado de Tertuliano,

De Prascriptionibus Haereticorum, para arrematar com uma

citação em sânscrito; era particularmente duro com os gnósticos

e marcionitas do segundo século da Era Cristã; mas nunca, nem

ao menos remotamente, atacava os vícios cotidianos do século

, tal como eminentemente ilustrados por nosso mundo

flutuante.197 Quanto a bebedeiras, açoitamentos, lutas e

opressão — coisas expressa ou implicitamente proibidas pela

cristandade —, jamais proferiu uma palavra. Todavia os

poderosos comodoro e capitão sentavam-se diante dele; e, de

forma geral, se, numa monarquia, o Estado forma a audiência da

Igreja, pouca devoção evangélica será apregoada. Daí as

inofensivas e evasivas profundezas de nosso capelão não serem

surpreendentes. Ele não era um Massillon para tonitroar em

retórica eclesiástica, mesmo quando um Luís, o Grande, surgisse

entronado em meio a sua congregação.198 Tampouco os

capelães que pregavam no tombadilho de lorde Nelson jamais

aludiram ao culpado Félix ou a Dalila, nem refletiram sobre a

retidão, a temperança e ao juízo do porvir, quando o renomado

almirante se sentava, de espada na cintura, diante deles.199

Durante essas preleções dominicais, os oficiais sempre se

sentavam em círculo ao redor do capelão e, com afetada

importância, prontamente preservavam o máximo decoro. Em particular, nosso velho comodoro fazia ares de alguém

intensamente edificado; e a nenhum marinheiro a bordo restava

senão crer que apenas o comodoro, ele próprio o maior homem

presente, era capaz de compreender as místicas sentenças

surgidas dos lábios de nosso pároco.

De todos os nobres lordes da praça-d’armas, esse aristocrata

do espírito, exceção feita ao comissário, era tido na mais elevada

conta pelo comodoro, que com ele frequentemente conversava

com intimidade e confidência. O que, se pararmos para refletir,

não é de admirar, uma vez que se constata quão eficaz, em

todos os governos despóticos, é a comunhão entre trono e altar.

As acomodações de nossa capela eram muito pobres. Não

tínhamos onde sentar, exceto pelas barras do cabrestante e os

enormes soquetes de pólvora, postos horizontalmente sobre

caixas de munição. Esses assentos eram demasiadamente

desconfortáveis; consumiam nossas calças e humores e, sem

dúvida, impediam a conversão de muitas e preciosas almas.

Para dizer a verdade, a tripulação de um navio de guerra

formava, em geral, uma péssima audiência nessas ocasiões,

usando de todo e qualquer meio de escapar. Não raro os

guardiões do contramestre eram obrigados a impelir os homens

ao culto, produzindo tão violentas imprecações quanto em

qualquer outra ocasião.

“Malditos sejam… para o sermão! Para o sermão, seus

velhacos… para o sermão!” O capitão Claret frequentemente

fazia coro ao convite clerical.

Em resposta a tal convite, Jack Chase por vezes fazia troça.

“Vamos lá, rapazes, não se atrasem”, dizia ele. “Venham, vamos ouvir o pároco falar sobre seu lorde grão-almirante Platão e o

comodoro Sócrates.”

Certa feita, porém, grave exceção se deu à convocação. Um

marinheiro deveras sério, porém fanático, lotado na âncora

d’esperança — e a cujas devoções privadas aludirei na

sequência —, cumprimentou o capitão e respeitosamente disse:

“Senhor, sou batista; o capelão é episcopalino; sua forma de

culto não é a minha; não tenho a mesma crença que ele, e é

contra minha consciência estar sob seu ministério. Peço

permissão, senhor, para não ir ao culto a meia-nau?”.

“O senhor tem permissão”, disse o capitão, com arrogância,

“para obedecer às leis do navio. Se não participar do culto nas

manhãs de domingo, já sabe a punição.”

De acordo com os Artigos de Guerra, o capitão estava

perfeitamente certo; mas, se uma lei que exige que um

americano se faça presente a um serviço de culto contra a sua

vontade for uma lei concernente ao estabelecimento da religião,

então os Artigos de Guerra estão, quanto a esse ponto em

especial, em oposição à Constituição americana, que diz

expressamente: “O Congresso não promulgará qualquer lei

relativa ao estabelecimento da religião ou a seu livre exercício”.

Mas essa é apenas uma dentre as muitas ocasiões nas quais os

Artigos de Guerra divergem desse instrumento. Elas serão

examinadas noutra parte desta narrativa.

O motivo que inspira a introdução de capelães na Marinha não

pode senão ser calorosamente recebido por todos os cristãos.

Mas disso não se segue que a presença dos capelães nos navios de guerra, sob esse ou qualquer outro sistema, signifique a

realização de muitas boas ações, hoje ou no futuro.

Como se pode esperar que uma religião de paz floresça num

castelo de guerra construído em carvalho? Como se pode

esperar que um clérigo cujo púlpito é um canhão de quarenta e

duas libras seja capaz de converter pecadores a uma fé que os

convida a dar a face direita quando a esquerda é golpeada?

Como se pode esperar isso quando, de acordo com as palavras

do quadragésimo segundo dos Artigos de Guerra — tal como se

apresentam, intocadas, no Estatuto legal americano —, “uma

recompensa de vinte dólares há de ser paga” (aos oficiais e à

tripulação) “pelo governo dos Estados Unidos por cabeça a bordo

de qualquer navio inimigo que seja afundado ou destruído por

qualquer navio americano”; quando, em seção subsequente (vii.),

vem-se a saber, entre outras partilhas, que o capelão há de

receber “dois terços” desse valor, relativos ao afundamento e

destruição de navios repletos de seres humanos? Como se pode

esperar que um clérigo assim pago se prove eficaz contra a

criminalidade de Judas, que, por trinta moedas de prata, traiu seu

Senhor?200

Embora, segundo os regulamentos da Marinha, cada rancho a

bordo do Neversink fosse munido de uma Bíblia, elas eram

raramente ou jamais vistas, exceto nas manhãs de domingo,

quando o costume exige que sejam postas à mostra enquanto o

mestre-d’armas faz suas rondas na coberta. Em tais ocasiões,

elas geralmente encimavam uma panela de lata bastante polida

sobre a tampa da caixa de rancho.

Não obstante, a cristandade dos homens dos navios de guerra

e sua disposição para contribuir com causas devotas são tidas

em alta conta. Muitas vezes, ainda aportados, formulários de

inscrição circularam em meio à tripulação do Neversink, sob os

auspícios diretos do capelão. Um deles tinha por finalidade a

construção de uma capela de marinheiros na China; outro era

destinado ao pagamento do salário de um distribuidor de

panfletos na Grécia; um terceiro, para levantar fundos em

benefício da Sociedade Colonizadora da África.

Quando o próprio capitão é um sujeito ético, ele faz as vezes

de um capelão melhor para sua tripulação do que qualquer outro

pároco. Isso é amiúde demonstrado no caso das chalupas de

guerra e brigues armados, que não permitem a presença de um

clérigo. Conheci uma tripulação que era calorosamente ligada a

um comandante naval digno de seu amor e se reunia com alegria

ao chamado para o culto; e, quando o capitão lhes lia o serviço

anglicano, tais homens se apresentavam como uma congregação

insuperável, em concentração e devoção, por qualquer

presbitério escocês.201 Mais pareciam aquelas preces familiares,

durante as quais o chefe da família é o primeiro a se confessar

diante do Criador. Mas nossos próprios corações são as

melhores capelas, e os capelães que mais nos podem ajudar

somos nós mesmos.