Jaqueta Branca
84. Barbeiros num navio de guerra
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Barbeiros num navio de guerra
A em capítulo anterior,
juntamente com a recordação de quão destacado papel eles
interpretaram num trágico drama a ser relatado a seguir, leva-me
a apresentá-los ao leitor.
Entre os numerosos artistas e professores de educados
negócios na Marinha, ninguém é tido em mais alta conta ou tem
um negócio mais lucrativo do que esses barbeiros. Pode-se bem
imaginar que as quinhentas cabeças cheias de cabelo e barba de
uma fragata não propiciam pouco trabalho para aqueles a cujos
fiéis cuidados elas são confiadas. Como tudo relacionado aos
negócios domésticos de um navio de guerra fica sob a
supervisão do executivo marcial, alguns barbeiros recebem
permissão formal do primeiro lugar-tenente. Para melhor levar a
cabo os lucrativos deveres de sua profissão, eles ficam
dispensados de todo o serviço a bordo, exceto das vigias
noturnas em alto-mar, dos exercícios de posto de combate e da
apresentação ao convés quando toda a marinhagem é chamada.
São designados como primeiros e segundos marinheiros e
recebem suas pagas como tais; porém, além de tal montante,
são liberalmente recompensados por seus serviços profissionais.
Quanto a este ponto, seu pagamento é fixado por marinheiro tratado — certa quantia por trimestre, cobrada ao marinheiro e
transformada em crédito ao barbeiro nos livros do almoxarife.
Verifica-se que, enquanto o barbeiro de um navio de guerra
está barbeando seus clientes a um preço de tanto por queixo,
sua paga como marinheiro ainda vige, o que faz dele uma
espécie de marinheiro comanditário; tampouco a paga como
marinheiro por ele recebida pode ser reconhecida como ganho
pelo trabalho executado. A julgar pelas circunstâncias, porém,
não se pode fazer muita objeção aos barbeiros nesse quesito.
Mas havia casos em que homens a bordo do Neversink recebiam
dinheiro do governo por serviços que prestavam a indivíduos.
Entre eles, estavam muitos alfaiates profissionais, que
praticamente a viagem inteira permaneceram de pernas cruzadas
a meia-nau fazendo casacos, calças e outras peças de vestuário
para oficiais do tombadilho. Alguns desses homens, sabendo
pouco ou nada dos deveres de um marinheiro e jamais os
levando a termo, constavam dos livros de pagamento do navio
como marinheiros comuns, recebendo dez dólares por mês. Por
que isso? Antes da partida do navio, eles declararam ser
alfaiates. É fato que os oficiais que os empregavam em seus
guarda-roupas pagavam por seu trabalho; alguns deles, porém, o
faziam de modo a provocar muitas queixas dos alfaiates. De
qualquer forma, esses produtores e reformadores de roupas não
recebiam de alguns desses oficiais um montante idêntico ao que
poderiam ter tranquilamente ganhado em terra firme fazendo o
mesmo trabalho. Para os oficiais, era considerável economia ter
suas roupas feitas a bordo.
Os homens que pertenciam à divisão do mestre-carpinteiro
forneciam outro exemplo do caso. Havia seis ou oito homens
nesse setor. Deram duro a viagem inteira. No quê? A maioria
deles, fazendo cômodas, bengalas, pequenos navios e escunas,
andorinhas e outras elaboradas ninharias, sobretudo para o
capitão. O que o capitão lhes pagava pelo trabalho? Nada. Já o
Estado americano, sim — dois deles (os subchefes), dezenove
dólares por mês; enquanto os demais recebiam o pagamento de
primeiros marinheiros, doze dólares.
Voltando.
Registravam-se no calendário do navio os dias reservados ao
exercício do ofício dos barbeiros como “dias de barbear”, assim
conhecidos de todos. A bordo do Neversink, esses dias eram as
quartas-feiras e os sábados; quando, imediatamente após o
desjejum, os salões dos barbeiros abriam ao público. Eles
ficavam em diferentes partes da coberta dos canhões, entre os
longos canhões de vinte e quatro libras. Sua mobília, porém, não
era das mais sofisticadas, em quase nada igual aos suntuosos
estabelecimentos dos barbeiros de uma metrópole. Consistia,
basicamente, de um barril de pavio, elevado sobre uma caixa de
munição, que se usava como cadeira de barbeiro para o cliente.
Sem copos decorados e espelho de mão; sem finas jarras ou
bacias; tampouco confortáveis banquetas estofadas para os pés;
nada, em suma, que faz o prazer do “barbear” em terra firme.
Os instrumentos desses barbeiros de fragata estão à altura da
aparência tosca de seus salões. Suas lâminas tinham a forma
mais simples, e, dentadas como eram, estavam mais adequadas
ao preparo do solo do que para a colheita da safra. Mas isso não era de causar surpresa, já que muitos eram os queixos a serem
barbeados, e os barbeadores seguravam apenas duas lâminas.
Pois apenas duas lâminas o barbeiro de um navio de guerra tem;
e, como os soldados sentinelas nos passadiços no porto, essas
lâminas entram e saem de serviço de maneira rotativa. Do
mesmo modo, um único pincel é responsável por pincelar todos
os queixos; assim como uma mesma espuma os prepara. Não há
caixas e pincéis particulares; não há qualquer exclusividade.
Como seria demasiado incômodo para os marinheiros de um
navio de guerra guardar consigo e manter os próprios
instrumentos de barbear e realizar o procedimento em alto-mar; e
como toda a companhia do navio sustenta os barbeiros do navio;
e os marinheiros devem ser barbeados nos quartos do anoitecer,
nos dias reservados para tanto; pode-se de pronto imaginar a
confusão e a agitação quando as lâminas trabalham. O lema é:
“Atendimento pela ordem de chegada”; e não raro é preciso
esperar horas a fio, aferrado a seu lugar (como numa fila indiana
dos amanuenses de casas de comércio esperando a vez de
pegar a correspondência no correio) antes de ter a oportunidade
de ocupar o barril de pavio, seu pedestal. Não raro a multidão de
clientes dispostos ao conflito discute e luta pela precedência,
enquanto, via de regra, os mais tagarelas empregam o intervalo
de tempo em todo tipo de fofoca de convés.
Os dias de barbear são inalteráveis; daí que tais momentos
coincidam, muitas vezes, com situações de maré alta e ventos de
tempestade, quando o navio se precipita e balança da forma
mais assustadora. Consequentemente, muitas valiosas vidas são
ameaçadas pela lâmina diligentemente aplicada sob tão adversas circunstâncias. Mas esses barbeiros do mar se
orgulham de suas pernas do mar, e muitas vezes é possível vê-
los por sobre os clientes com as pernas bem abertas, entregando
cientificamente seus corpos ao balanço do navio, enquanto
brandem seus afiados instrumentos nas imediações de lábios,
narinas e jugulares.
Nessas ocasiões, enquanto observava o profissional e seu
cliente, eu não conseguia deixar de pensar que, se o marinheiro
dispusesse de algum seguro de vida, ele certamente seria
anulado caso o presidente da companhia de seguros tivesse a
oportunidade de demorar-se por ali e vê-lo em tão iminente
perigo. Quanto a mim, julgo tal experiência como uma excelente
preparação para uma batalha naval, na qual a coragem de
permanecer junto a seu canhão correndo o risco de ver tudo
explodir faz parte das qualidades práticas que produzem um
eficiente marinheiro de fragata.
Resta ainda dizer que tais barbeiros tinham seu trabalho
bastante reduzido por uma moda dominante entre muitos da
tripulação: a de usar suíças consideravelmente bastas; de modo
que, na maioria dos casos, as únicas partes que necessitavam
de lâmina eram o lábio superior e a periferia do queixo. Esse foi o
costume durante mais ou menos todos os três anos da viagem;
mas durante algum tempo antes de nossa travessia do cabo
Horn muitos marinheiros redobraram sua insistência no cultivo
das barbas em preparação a seu retorno aos Estados Unidos. Ali
eles antecipavam a impressão que causariam em terra com seus
imensos e magníficos penteados “torna-viagem” — como
chamavam as longas e esvoaçantes vassouras que lhes pendiam dos queixos. Em particular, os marinheiros de mais idade,
compreendendo a Velha Guarda dos granadeiros do castelo de
proa, os encardidos subchefes de artilharia e os mestres-
artilheiros, ostentavam veneráveis e grisalhas barbas de
extraordinário comprimento, como uma longa trilha de musgo
pendendo do galho de um antiquíssimo carvalho. Acima de todos
estava o capitão do castelo de proa, o velho Ushant — belo
exemplar de marinheiro sexagenário —,404 que exibia basta
barba gris a pender-lhe sobre o peito, amiúde embaraçada e
repleta de nós alcatroados. Esse Ushant, não importando o
clima, estava sempre alerta a seu dever; subindo intrépido a
verga de traquete num vendaval com sua longa barba
esvoaçando como a de um Netuno. Na passagem pelo cabo
Horn, ela mais parecia a de um moleiro, toda polvilhada de gelo;
às vezes ela brilhava sob as noites de luar da Patagônia com
mínimos sincelos. Mas, não obstante se mostrasse tão ativo em
tempo de tempestade, quando seus deveres não lhe exigiam
vigoroso esforço, era um senhor notadamente sereno, reservado
e digno, colocando-se acima da barulhenta alegria e jamais
participando das agitadas atividades da tripulação. Resoluto,
postava sua barba em direção oposta ao infantil tumulto da
marinhagem e muitas vezes discorria como um oráculo sobre a
frivolidade do que o cercava. De fato, por vezes falava
filosoficamente a seus companheiros anciãos — os velhos
homens da âncora d’esperança ao seu redor —, bem como aos
gajeiros do traquete, com seus cérebros de lebre, e aos garotos
bobos do mastro de gata.
Sua filosofia não era desprezível; pelo contrário, provava-se
plena de sabedoria. Pois Ushant era não só um homem de idade,
como dotado de natural sensatez; um homem que vira
praticamente todo o globo terrestre e podia discorrer sobre
civilização e barbárie, sobre gentio e judeu, cristão e muçulmano.
As longas vigílias noturnas são eminentemente adaptadas ao
desenvolvimento das faculdades reflexivas de qualquer
marinheiro de séria disposição, ainda que humilde e ignorante.
Julga, então, o que meio século de vigílias intelectuais no oceano
deve ter feito para esse velho marinheiro. Ele era uma espécie de
Sócrates dos mares, em sua idade avançada “dando testemunho
de sua vida e filosofia últimas”, como o doce Spenser o diria;405
jamais o via ou contemplava sua portentosa e reverenda barba
sem dedicar-lhe o título que, em uma de suas sátiras, Pérsio dá
ao imortal bebedor da cicuta, Magister Barbatus, o mestre
barbado.406
Não eram poucos na tripulação do navio que igualmente se
empenhavam no cultivo de seus cabelos; alguns — em especial
os refinados e jovens dândis da guarda de popa — os
ostentavam sobre os ombros como cavaleiros medievais. Muitos
marinheiros, com suas madeixas naturalmente cacheadas,
orgulhavam-se do que chamavam de “cachinhos do amor”,
usados à lateral da cabeça, logo atrás da orelha — costume
próprio aos marinheiros que parece ter ocupado o espaço do
rabo de cavalo de lorde Rodney, em voga uns cinquenta anos
atrás.
Mas havia homens na tripulação que trabalhavam sob a triste
sina de madeixas longas e finas como as dos Winnebago,407 de mechas grossas e alaranjadas como cenouras ou de cabelos de
tonalidade arenosa, rebeldes e duros como arame. Como
ambicionassem a reserva dos esfregões de bordo, eles
empenhavam-se no cultivo de suas raízes, a despeito de todo o
ridículo. Pareciam hunos e escandinavos; e um deles, um jovem
do Maine, proprietário de uma nada invejável plantação de
amarelos e duros bambus, atendia pela alcunha de Peter, o
Menino Selvagem; pois, como o pequeno selvagem francês,408
acreditava-se que fora capturado como um puma nas florestas de
seu estado natal. Contudo, havia muitos belos e macios cabelos
a contrabalancear tão tristes figuras como a de Peter.
Graças às longas suíças e veneráveis barbas, em seu mais
variado corte e modelo — aurelianas ou à la Carlos — e
infindáveis barbichas e cavanhaques; e graças às abundantes
madeixas, nossa tripulação parecia uma companhia de
merovíngios ou reis de cabelos longos, misturados a lombardos
ou longo bardos selvagens, assim chamados por suas barbas
compridas.409