Jaqueta Branca
65. Uma corrida de navios de guerra
65
Uma corrida de navios de guerra
F R J — o motivo, só o
comodoro sabe dizer —, que circulava entre os marinheiros
impacientes uma piada segundo a qual nossa fragata por fim
encalharia nos próprios ossos diariamente lançados ao mar por
nossos cozinheiros.
Mas por fim chegaram-nos boas notícias. “Içar ferro!” E na
manhã clara, enquanto o sol surgia no leste, nossa velha âncora
emergiu.
No Rio de Janeiro os ventos de terra— os únicos com os quais
os navios podem deixar a baía — são sempre leves, indolentes.
Eles vêm dos jardins de cidra e cravo-da-índia, temperados com
todas as especiarias do trópico de Capricórnio. E como Maomé,
aquele velho voluptuoso, que tanto gostava de inalar perfumes e
essências e costumava desfrutar das estufas de Cadija, sua
mulher, para dar combate aos robustos filhos dos coraixitas,327
da mesma forma, a brisa do Rio de Janeiro chega saciada de
doces aromas para lutar com os selvagens ventos tártaros do
mar.
Deixamos lentamente a baía, vogando como um intrépido
cisne pela abertura do ancoradouro, e aos poucos rolávamos
pelas suaves e tranquilas ondas que se estendiam sobre as profundezas. Logo atrás, em nossa esteira, vinha o elevado
mastro principal da fragata de batalha inglesa, encimado, como
uma catedral e seus pináculos, pela cruz embandeirada da
religião da paz; imediatamente depois, vinha a bandeira arco-íris
da França, ostentando de Deus o sinal de que nunca mais faria
guerra sobre a terra.328
Ingleses e franceses estavam decididos a fazer uma corrida; e
nós, ianques, juramos por nossas velas de mezena e mastaréu
do sobrejoanete que, naquela noite, afundaríamos suas
bandeiras reluzentes juntamente com as constelações do sul, as
quais se apagariam diariamente em nosso rastro rumo ao norte.
“Sim”, disse Mad Jack, “a bandeira de são Jorge há de ficar
como o Cruzeiro do Sul, fora do alcance dos olhos, a léguas de
distância no horizonte, enquanto nossas valorosas estrelas,
meus bravos rapazes, hão de queimar sozinhas no norte, como a
Ursa Maior no polo! Vamos lá, Arco-íris e Cruz!”329
Mas, como não tivesse se recuperado da dissipação noturna
em terra firme, o vento estava ainda muito leve e indolente, e
chegamos ao meio-dia com o Pão de Açúcar à vista.
Não acontece com os navios como com os cavalos; pois, se
um cavalo trota bem e rápido, isso é geralmente um bom sinal de
que ele não é ruim no galope; porém, o navio que numa brisa
leve é ultrapassado só pode entrar na briga quando uma brisa de
joanete lhe permita cavalgar a meio galope. Assim aconteceu
conosco. Primeiro, os ingleses vogaram à frente e, afetando força
e altivez, nos ultrapassaram; em seguida, os franceses nos
cumprimentaram com um adieu, enquanto o velho Neversink
ficava para trás, submetido a uma efeminada brisa. A certa altura, as três fragatas estavam irregularmente lado a lado,
formando uma linha diagonal; e tão próximas que os pomposos
oficiais das popas saudavam severamente uns aos outros
tocando seus chapéus, sem se dispor a quaisquer outras
civilidades. Nesse momento, era um espetáculo contemplar
essas belas fragatas, com suas buçardas de água espargidas,
todas empinando e meneando juntas, e olhar por seus elevados
mastros e a mata cerrada do cordame, emaranhado inextricável
de imensas teias de aranha contra o céu.
Perto do pôr do sol, quando o oceano batia seus alvos cascos
ao sinal das esporas do cavaleiro inquieto, uma forte lufada veio
de leste; e, com três vivas surgidos do convés, das vergas e das
gáveas, enfunaram-se as velas de encontro a são Jorge e são
Dinis.330
É, contudo, mais difícil ultrapassar do que ser ultrapassado; a
noite caiu, e ainda estávamos no encalço de ambos — ali onde
estava um pequeno bote que, no último instante, segundo a
tradição rabínica, seguiu atrás da arca do velho Noé.
Era uma noite nublada, de névoa; e embora, a princípio,
nossas gáveas tenham mantido a perseguição sob a escuridão,
por fim tão densa assomou a atmosfera que era impossível
avistar qualquer mastro. O pior de tudo, no entanto, era que,
quando foram vistos pela última vez, os franceses estavam
distantes de nossa proa, a barlavento, e os ingleses seguiam
intrépidos na dianteira.
A brisa soprava cada vez mais leve; porém, até mesmo com
nossas velas de mastaréu de sobrejoanete desfraldadas,
apressávamo-nos singrando um oceano coberto de uma luzente espuma cor de creme. Jaqueta Branca estava, então, na gávea;
e era glorioso olhar para baixo e ver nosso casco negro abrindo
caminho pelo mar branco como se seus imensos costados
tivessem se transformado num aríete.
“Devemos batê-los com essa brisa, nobre Jack”, disse eu a
nosso nobre capitão da gávea.
“Lembre-se de que a mesma brisa sopra para John Bull”,331
respondeu Jack, que, sendo britânico, talvez fosse mais favorável
aos ingleses do que ao Neversink. “Mas veja como avançamos
pelos vagalhões!”, bradou, observando para além do gradil da
gávea; e então, abrindo subitamente os braços, recitou:
“Já no largo Oceano navegavam
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam
Das naus as velas côncavas inchando.332
“Camões, Jaqueta Branca, Camões! Já leu? Digo, Os
lusíadas? É o grande épico dos navios de guerra do mundo, meu
jovem. Que Vasco da Gama fosse meu comodoro… Nobre
Gama!333 E Mickle, Jaqueta Branca? Já o leu? William Julius
Mickle?334 O tradutor de Camões? Um homem frustrado, Jaqueta
Branca. Além de sua versão de Os lusíadas, escreveu muitas
coisas esquecidas. Conhece a balada que Mickle escreveu sobre
Cumnor Hall?… Não?… Ora, foi ela que inspirou Kenilworth, de
sir Walter Scott.335 Meu pai conheceu Mickle quando embarcou
no velho Romney, um navio de guerra. Quantos grandes homens
já foram marinheiros, Jaqueta Branca! Dizem que até Homero foi
outrora marujo, como seu herói, Ulisses, foi marinheiro e
construtor de navios. Posso jurar que Shakespeare foi capitão do castelo de proa. E da primeira cena de A tempestade, Jaqueta
Branca… se lembra?336 O descobridor de mundos, Cristóvão
Colombo, era um marinheiro! Assim como Camões, que foi ao
mar com Gama, caso contrário jamais teríamos Os lusíadas. Sim,
já refiz a rota que Camões percorreu… ao redor do cabo da Boa
Esperança, entrando no oceano Índico. Também já estive no
jardim de d. José, em Macau, e banhei meus pés do abençoado
orvalho das caminhadas que Camões antes de mim fizera. Sim,
Jaqueta Branca, e vi e me sentei na gruta no fim do caminho
sinuoso e florido, onde Camões, segundo diz a tradição, compôs
algumas passagens de seu poema. Sim, Camões foi um
marinheiro!337 E, então, há Falconer, cujo Naufrágio jamais irá a
pique, ainda que ele próprio, pobre homem, tenha se perdido
com a fragata Aurora.338 O velho Noé foi o primeiro marinheiro. E
são Paulo, também, sabia recitar os nomes dos pontos cardeais,
meu rapaz! Recorda-se daquele capítulo dos Atos? Não poderia
contar um caso melhor. Já esteve em Malta? Chamava-se Melita
nos idos dos Apóstolos. Lá, estive na gruta de Paulo, Jaqueta
Branca. Dizem que uma pedra dela é um bom amuleto contra
naufrágios; mas nunca experimentei.339 Há também Shelley, que
era um bom marinheiro. Shelley… pobre rapaz! Um Percy,
também… mas eles deviam ter deixado o corpo dele dormindo
no túmulo dos marinheiros… ele se afogou no Mediterrâneo,
sabe?, próximo a Livorno… e não queimar seu corpo, como
fizeram, como se fosse um maldito turco. Mas muita gente o
julgava assim, Jaqueta Branca, pois ele não ia à missa e
escreveu Rainha Mab. Trelawney estava presente à cremação;
ele também era um peregrino dos oceanos! Sim, e Byron o ajudou a atirar um fragmento de quilha nas chamas; pois o navio
partiu em pedaços, dizem; destroços ardendo em destroços.340 E
Byron não era um marinheiro? Um amador de tombadilho, era o
que ele era; de outro modo, como faria o oceano arfar com
tamanha grandeza e majestade? Não tenho razão? Jamais
existiu um grande homem a viver a vida toda em terra firme. O
mar traz inspiração a quem inala seu perfume; estar apenas uma
vez longe de terra firme foi o bastante para fazer muitos
verdadeiros poetas e destruir muitos impostores; pois, entenda,
não há possibilidade de enganar o mar; ele arranca as falsas
quilhas do casco dos impostores; ele lhe diz exatamente o que
você é, e faz com que o sinta. A vida de um marinheiro é o que
traz a verdade de nós, mortais, à tona. O que a abençoada Bíblia
diz? Não diz que nós apenas, gajeiros do mastro principal, vemos
as verdadeiras visões e maravilhas? Não renegue a Bíblia
abençoada! Não faça isso! Veja como balança aqui, meu
garoto!”, agarrando-se a um ovém. “Mas isso só prova o que
estou dizendo: o mar é o berço do gênio! Arfa, velho mar!”
“E você também, nobre Jack”, disse eu, “o que é, senão um
marinheiro?”
“Você é adorável, meu garoto”, respondeu Jack, olhando para
cima com um olhar como o do arcanjo sentimental condenado a
arrastar-se em desgraça pela eternidade afora. “Mas atenção,
Jaqueta Branca, há muitos grandes homens no mundo além de
comodoros e capitães. Tenho aqui pra mim, Jaqueta Branca”,
continuou, tocando a testa, “que sob céus mais favoráveis…
talvez naquela estrela ali, que nos observa através das nuvens…
eu poderia ter sido um Homero. Mas o Destino é o Destino, Jaqueta Branca; e nós, Homeros que, por força maior, nos
tornamos gajeiros, precisamos escrever nossas odes em nossos
corações e publicá-las em nossas cabeças. Mas olhe! O capitão
está à popa.”
Era meia-noite; mas todos os oficiais estavam no convés.
“Você aí, no pau da bujarrona!”, bradou o lugar-tenente do
turno, indo à frente e dirigindo-se ao gajeiro mais à proa.
“Consegue ver algum dos navios?”
“Nada, senhor.”
“Nada, senhor”, disse o lugar-tenente do turno, aproximando-
se do capitão e tocando o chapéu.
“Convoque todos os marinheiros!”, gritou o capitão. “Essa
quilha não há de ser vencida enquanto eu caminhar neste
convés.”
Todos os marinheiros foram chamados, e as macas
penduradas nas trincheiras pelo resto da noite, para que ninguém
pudesse permanecer entre cobertores.
Agora, para explicar as medidas adotadas pelo capitão para
nos garantir a vitória, é preciso dizer que o Neversink, por alguns
anos depois de ir ao mar, foi tido como uma das mais lentas
fragatas da Marinha americana. Ocorreu porém, após algum
tempo, que, em viagem no Mediterrâneo, ela deixou o porto de
Maó sob o que se supôs ser uma péssima inclinação. Sua proa
abicava na água, e a popa se erguia no ar. Mas, por incrível que
pareça, logo se descobriu que, nessa postura ridícula, a
embarcação vogava como uma estrela cadente; e ultrapassou
todos os navios na região. Daí que todos os seus capitães, em todas as viagens, passaram a se valer do trim pela proa; e o
Neversink fez justiça ao nome de clíper.
Mas voltemos ao assunto. Todos os marinheiros foram
chamados; e capitão Claret os usou como contrapeso para abicar
o navio, cientificamente, até chegar à melhor inclinação. Alguns
foram mandados à frente no espardeque com balas de vinte e
quatro libras nas mãos e espalhados judiciosamente aqui e ali,
com ordens estritas de não se mexerem um centímetro em seus
postos, sob o risco de acabarem com os planos do comandante.
Outros foram distribuídos pela coberta dos canhões e das macas,
sob ordens similares; e, para coroar o esforço, várias caronadas
foram tiradas de seus reparos e penduradas por suas cordas de
fixação nas vigas do convés, para assim dar uma espécie de
vigor vibratório e leveza oscilatória à fragata.
E assim nós, quinhentos contrapesos, permanecemos no
convés a noite inteira, alguns expostos a uma forte chuva, para
que o Neversink não fosse vencido. Mas o conforto e o consolo
de todos aqueles contrapesos são como pó na balança, segundo
pensam os comandantes de nosso mundo flutuante.
A longa e agitada noite por fim chegou a seu termo, e, tão logo
surgiram os primeiros raios de sol, o gajeiro do pau da bujarrona
foi chamado; mas nada havia à vista. Afinal, o dia clareara; e
nenhuma proa se via de nossa popa, nem popa alguma à nossa
frente.
“Onde estão?”, bradou o capitão.
“Fora do alcance, a popa, certamente, senhor”, disse o oficial
do convés.
“Fora do alcance, a proa, certamente, senhor”, resmungou
Jack Chase, na gávea.
E dessa forma permaneceu a questão: se nós os derrotamos,
ou eles nos derrotaram, não há mortal que possa dizê-lo agora,
já que não os vimos mais; todavia, por sua própria conta, Jaqueta
Branca vai colocar suas duas mãos sobre os canhões de proa do
Neversink e jurar por seu navio que nós, ianques, levamos a
melhor.341