Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 68 de 101

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Jaqueta Branca

65. Uma corrida de navios de guerra

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Uma corrida de navios de guerra

 

F R J — o motivo, só o

comodoro sabe dizer —, que circulava entre os marinheiros

impacientes uma piada segundo a qual nossa fragata por fim

encalharia nos próprios ossos diariamente lançados ao mar por

nossos cozinheiros.

Mas por fim chegaram-nos boas notícias. “Içar ferro!” E na

manhã clara, enquanto o sol surgia no leste, nossa velha âncora

emergiu.

No Rio de Janeiro os ventos de terra— os únicos com os quais

os navios podem deixar a baía — são sempre leves, indolentes.

Eles vêm dos jardins de cidra e cravo-da-índia, temperados com

todas as especiarias do trópico de Capricórnio. E como Maomé,

aquele velho voluptuoso, que tanto gostava de inalar perfumes e

essências e costumava desfrutar das estufas de Cadija, sua

mulher, para dar combate aos robustos filhos dos coraixitas,327

da mesma forma, a brisa do Rio de Janeiro chega saciada de

doces aromas para lutar com os selvagens ventos tártaros do

mar.

Deixamos lentamente a baía, vogando como um intrépido

cisne pela abertura do ancoradouro, e aos poucos rolávamos

pelas suaves e tranquilas ondas que se estendiam sobre as profundezas. Logo atrás, em nossa esteira, vinha o elevado

mastro principal da fragata de batalha inglesa, encimado, como

uma catedral e seus pináculos, pela cruz embandeirada da

religião da paz; imediatamente depois, vinha a bandeira arco-íris

da França, ostentando de Deus o sinal de que nunca mais faria

guerra sobre a terra.328

Ingleses e franceses estavam decididos a fazer uma corrida; e

nós, ianques, juramos por nossas velas de mezena e mastaréu

do sobrejoanete que, naquela noite, afundaríamos suas

bandeiras reluzentes juntamente com as constelações do sul, as

quais se apagariam diariamente em nosso rastro rumo ao norte.

“Sim”, disse Mad Jack, “a bandeira de são Jorge há de ficar

como o Cruzeiro do Sul, fora do alcance dos olhos, a léguas de

distância no horizonte, enquanto nossas valorosas estrelas,

meus bravos rapazes, hão de queimar sozinhas no norte, como a

Ursa Maior no polo! Vamos lá, Arco-íris e Cruz!”329

Mas, como não tivesse se recuperado da dissipação noturna

em terra firme, o vento estava ainda muito leve e indolente, e

chegamos ao meio-dia com o Pão de Açúcar à vista.

Não acontece com os navios como com os cavalos; pois, se

um cavalo trota bem e rápido, isso é geralmente um bom sinal de

que ele não é ruim no galope; porém, o navio que numa brisa

leve é ultrapassado só pode entrar na briga quando uma brisa de

joanete lhe permita cavalgar a meio galope. Assim aconteceu

conosco. Primeiro, os ingleses vogaram à frente e, afetando força

e altivez, nos ultrapassaram; em seguida, os franceses nos

cumprimentaram com um adieu, enquanto o velho Neversink

ficava para trás, submetido a uma efeminada brisa. A certa altura, as três fragatas estavam irregularmente lado a lado,

formando uma linha diagonal; e tão próximas que os pomposos

oficiais das popas saudavam severamente uns aos outros

tocando seus chapéus, sem se dispor a quaisquer outras

civilidades. Nesse momento, era um espetáculo contemplar

essas belas fragatas, com suas buçardas de água espargidas,

todas empinando e meneando juntas, e olhar por seus elevados

mastros e a mata cerrada do cordame, emaranhado inextricável

de imensas teias de aranha contra o céu.

Perto do pôr do sol, quando o oceano batia seus alvos cascos

ao sinal das esporas do cavaleiro inquieto, uma forte lufada veio

de leste; e, com três vivas surgidos do convés, das vergas e das

gáveas, enfunaram-se as velas de encontro a são Jorge e são

Dinis.330

É, contudo, mais difícil ultrapassar do que ser ultrapassado; a

noite caiu, e ainda estávamos no encalço de ambos — ali onde

estava um pequeno bote que, no último instante, segundo a

tradição rabínica, seguiu atrás da arca do velho Noé.

Era uma noite nublada, de névoa; e embora, a princípio,

nossas gáveas tenham mantido a perseguição sob a escuridão,

por fim tão densa assomou a atmosfera que era impossível

avistar qualquer mastro. O pior de tudo, no entanto, era que,

quando foram vistos pela última vez, os franceses estavam

distantes de nossa proa, a barlavento, e os ingleses seguiam

intrépidos na dianteira.

A brisa soprava cada vez mais leve; porém, até mesmo com

nossas velas de mastaréu de sobrejoanete desfraldadas,

apressávamo-nos singrando um oceano coberto de uma luzente espuma cor de creme. Jaqueta Branca estava, então, na gávea;

e era glorioso olhar para baixo e ver nosso casco negro abrindo

caminho pelo mar branco como se seus imensos costados

tivessem se transformado num aríete.

“Devemos batê-los com essa brisa, nobre Jack”, disse eu a

nosso nobre capitão da gávea.

“Lembre-se de que a mesma brisa sopra para John Bull”,331

respondeu Jack, que, sendo britânico, talvez fosse mais favorável

aos ingleses do que ao Neversink. “Mas veja como avançamos

pelos vagalhões!”, bradou, observando para além do gradil da

gávea; e então, abrindo subitamente os braços, recitou:

“Já no largo Oceano navegavam

As inquietas ondas apartando;

Os ventos brandamente respiravam

Das naus as velas côncavas inchando.332

 

“Camões, Jaqueta Branca, Camões! Já leu? Digo, Os

lusíadas? É o grande épico dos navios de guerra do mundo, meu

jovem. Que Vasco da Gama fosse meu comodoro… Nobre

Gama!333 E Mickle, Jaqueta Branca? Já o leu? William Julius

Mickle?334 O tradutor de Camões? Um homem frustrado, Jaqueta

Branca. Além de sua versão de Os lusíadas, escreveu muitas

coisas esquecidas. Conhece a balada que Mickle escreveu sobre

Cumnor Hall?… Não?… Ora, foi ela que inspirou Kenilworth, de

sir Walter Scott.335 Meu pai conheceu Mickle quando embarcou

no velho Romney, um navio de guerra. Quantos grandes homens

já foram marinheiros, Jaqueta Branca! Dizem que até Homero foi

outrora marujo, como seu herói, Ulisses, foi marinheiro e

construtor de navios. Posso jurar que Shakespeare foi capitão do castelo de proa. E da primeira cena de A tempestade, Jaqueta

Branca… se lembra?336 O descobridor de mundos, Cristóvão

Colombo, era um marinheiro! Assim como Camões, que foi ao

mar com Gama, caso contrário jamais teríamos Os lusíadas. Sim,

já refiz a rota que Camões percorreu… ao redor do cabo da Boa

Esperança, entrando no oceano Índico. Também já estive no

jardim de d. José, em Macau, e banhei meus pés do abençoado

orvalho das caminhadas que Camões antes de mim fizera. Sim,

Jaqueta Branca, e vi e me sentei na gruta no fim do caminho

sinuoso e florido, onde Camões, segundo diz a tradição, compôs

algumas passagens de seu poema. Sim, Camões foi um

marinheiro!337 E, então, há Falconer, cujo Naufrágio jamais irá a

pique, ainda que ele próprio, pobre homem, tenha se perdido

com a fragata Aurora.338 O velho Noé foi o primeiro marinheiro. E

são Paulo, também, sabia recitar os nomes dos pontos cardeais,

meu rapaz! Recorda-se daquele capítulo dos Atos? Não poderia

contar um caso melhor. Já esteve em Malta? Chamava-se Melita

nos idos dos Apóstolos. Lá, estive na gruta de Paulo, Jaqueta

Branca. Dizem que uma pedra dela é um bom amuleto contra

naufrágios; mas nunca experimentei.339 Há também Shelley, que

era um bom marinheiro. Shelley… pobre rapaz! Um Percy,

também… mas eles deviam ter deixado o corpo dele dormindo

no túmulo dos marinheiros… ele se afogou no Mediterrâneo,

sabe?, próximo a Livorno… e não queimar seu corpo, como

fizeram, como se fosse um maldito turco. Mas muita gente o

julgava assim, Jaqueta Branca, pois ele não ia à missa e

escreveu Rainha Mab. Trelawney estava presente à cremação;

ele também era um peregrino dos oceanos! Sim, e Byron o ajudou a atirar um fragmento de quilha nas chamas; pois o navio

partiu em pedaços, dizem; destroços ardendo em destroços.340 E

Byron não era um marinheiro? Um amador de tombadilho, era o

que ele era; de outro modo, como faria o oceano arfar com

tamanha grandeza e majestade? Não tenho razão? Jamais

existiu um grande homem a viver a vida toda em terra firme. O

mar traz inspiração a quem inala seu perfume; estar apenas uma

vez longe de terra firme foi o bastante para fazer muitos

verdadeiros poetas e destruir muitos impostores; pois, entenda,

não há possibilidade de enganar o mar; ele arranca as falsas

quilhas do casco dos impostores; ele lhe diz exatamente o que

você é, e faz com que o sinta. A vida de um marinheiro é o que

traz a verdade de nós, mortais, à tona. O que a abençoada Bíblia

diz? Não diz que nós apenas, gajeiros do mastro principal, vemos

as verdadeiras visões e maravilhas? Não renegue a Bíblia

abençoada! Não faça isso! Veja como balança aqui, meu

garoto!”, agarrando-se a um ovém. “Mas isso só prova o que

estou dizendo: o mar é o berço do gênio! Arfa, velho mar!”

“E você também, nobre Jack”, disse eu, “o que é, senão um

marinheiro?”

“Você é adorável, meu garoto”, respondeu Jack, olhando para

cima com um olhar como o do arcanjo sentimental condenado a

arrastar-se em desgraça pela eternidade afora. “Mas atenção,

Jaqueta Branca, há muitos grandes homens no mundo além de

comodoros e capitães. Tenho aqui pra mim, Jaqueta Branca”,

continuou, tocando a testa, “que sob céus mais favoráveis…

talvez naquela estrela ali, que nos observa através das nuvens…

eu poderia ter sido um Homero. Mas o Destino é o Destino, Jaqueta Branca; e nós, Homeros que, por força maior, nos

tornamos gajeiros, precisamos escrever nossas odes em nossos

corações e publicá-las em nossas cabeças. Mas olhe! O capitão

está à popa.”

Era meia-noite; mas todos os oficiais estavam no convés.

“Você aí, no pau da bujarrona!”, bradou o lugar-tenente do

turno, indo à frente e dirigindo-se ao gajeiro mais à proa.

“Consegue ver algum dos navios?”

“Nada, senhor.”

“Nada, senhor”, disse o lugar-tenente do turno, aproximando-

se do capitão e tocando o chapéu.

“Convoque todos os marinheiros!”, gritou o capitão. “Essa

quilha não há de ser vencida enquanto eu caminhar neste

convés.”

Todos os marinheiros foram chamados, e as macas

penduradas nas trincheiras pelo resto da noite, para que ninguém

pudesse permanecer entre cobertores.

Agora, para explicar as medidas adotadas pelo capitão para

nos garantir a vitória, é preciso dizer que o Neversink, por alguns

anos depois de ir ao mar, foi tido como uma das mais lentas

fragatas da Marinha americana. Ocorreu porém, após algum

tempo, que, em viagem no Mediterrâneo, ela deixou o porto de

Maó sob o que se supôs ser uma péssima inclinação. Sua proa

abicava na água, e a popa se erguia no ar. Mas, por incrível que

pareça, logo se descobriu que, nessa postura ridícula, a

embarcação vogava como uma estrela cadente; e ultrapassou

todos os navios na região. Daí que todos os seus capitães, em todas as viagens, passaram a se valer do trim pela proa; e o

Neversink fez justiça ao nome de clíper.

Mas voltemos ao assunto. Todos os marinheiros foram

chamados; e capitão Claret os usou como contrapeso para abicar

o navio, cientificamente, até chegar à melhor inclinação. Alguns

foram mandados à frente no espardeque com balas de vinte e

quatro libras nas mãos e espalhados judiciosamente aqui e ali,

com ordens estritas de não se mexerem um centímetro em seus

postos, sob o risco de acabarem com os planos do comandante.

Outros foram distribuídos pela coberta dos canhões e das macas,

sob ordens similares; e, para coroar o esforço, várias caronadas

foram tiradas de seus reparos e penduradas por suas cordas de

fixação nas vigas do convés, para assim dar uma espécie de

vigor vibratório e leveza oscilatória à fragata.

E assim nós, quinhentos contrapesos, permanecemos no

convés a noite inteira, alguns expostos a uma forte chuva, para

que o Neversink não fosse vencido. Mas o conforto e o consolo

de todos aqueles contrapesos são como pó na balança, segundo

pensam os comandantes de nosso mundo flutuante.

A longa e agitada noite por fim chegou a seu termo, e, tão logo

surgiram os primeiros raios de sol, o gajeiro do pau da bujarrona

foi chamado; mas nada havia à vista. Afinal, o dia clareara; e

nenhuma proa se via de nossa popa, nem popa alguma à nossa

frente.

“Onde estão?”, bradou o capitão.

“Fora do alcance, a popa, certamente, senhor”, disse o oficial

do convés.

“Fora do alcance, a proa, certamente, senhor”, resmungou

Jack Chase, na gávea.

E dessa forma permaneceu a questão: se nós os derrotamos,

ou eles nos derrotaram, não há mortal que possa dizê-lo agora,

já que não os vimos mais; todavia, por sua própria conta, Jaqueta

Branca vai colocar suas duas mãos sobre os canhões de proa do

Neversink e jurar por seu navio que nós, ianques, levamos a

melhor.341