O Amanuense Belmiro
§ 7. A Donzela Arabela. 26
Habituei-m e a um a paisagem confinada e a um horizonte quase dom éstico. No seu âm bito poucas são as im agens do presente, e m uitas as do passado. E se tal vida é m elancólica, trata-se de um a sorte de m elancolia a que m eu espírito se adaptou e que, portanto, não desperta novas reações.
A variação violenta dos quadros, num a noite de carnaval em que fom os abandonados pelos am igos e em que nossa porção de espaço foi invadida por outros seres, leva-nos a um m ergulho m ais profundo nos nossos abism os. Novas m elancolias são despertadas, o hom em sofre, e o am anuense põe a alm a no papel.
Eis que o am anuense é um esteta: ao passo que há nele um indivíduo sofrendo, outro há que analisa e estiliza o sofrim ento. Talvez fosse preferível ingerir certo vinho capcioso e, sem nenhum a análise, entregar os sentidos à doce m úsica da Bay adera, que a radiola derram a no ar m olhado.
Mas o hom em espia o hom em , inexoravelm ente.
§ 7. A DONZELA ARABELA.
ACONTECEU-ME ontem um a coisa realm ente extraordinária. Não tendo conseguido conter-m e em casa, desci para a Avenida, segundo hábito antigo. Já ela estava repleta de carnavalescos, que aproveitavam , com o podiam , sua terceira noite.
Pus-m e a exam inar colom binas fáceis, do lado da Praça Sete, quando inesperadam ente m e vi envolvido no fluxo de um cordão. Procurei desvencilhar-m e, com o pude, m as a onda hum ana vinha im ensa, crescendo em torno de m im , por trás, pela frente e pelos flancos. Entreguei-m e, então, àquela hum anidade que m e pareceu m ais cansada que alegre. Os sam bas eram tristes e hom ens pingavam suor. Um m áscara-de-m acaco deu-m e o braço e m andou-m e cantar. Respondi-lhe que, em rapaz, consum i a garganta em serenatas e que esta, j á agora, não aj udava. Im agino a figura que fiz, de colarinho alto e pince-nez, no m eio daquela roda alegre, pois os foliões se engraçaram com igo, e fui, por m om entos, o atrativo do cordão. Tanto fizeram que, sem perceber o disparate, m e pus a entoar velha canção de Vila Caraíbas.
Um a gargalhada espantosa explodiu em torno de m im . Deram -m e um a corrida e, depois de m e terem atirado confete à boca, abandonaram -m e ao m eio da rua em briagado de éter. Novo cordão levou-m e, porém , para outro lado, e, nesse vaivém , fui arrastado pelos acontecim entos. Um j acto de perfum e m e atingia às vezes. Procurava, com os olhos gratos, a origem dessa carícia, m as percebia, desanim ado, que aquele j acto resvalara de outro rosto a que o destinara um a boneca holandesa. Contudo, aquelas m igalhas m e consolavam e com oviam . Dêem -m e um j acto de éter perdido no espaço e construirei um reino. Mas a boneca holandesa foi arrastada por um príncipe russo, que a livrou dos braços de um m arinheiro.
Bebendo aqui, bebendo ali, acabei presa de grande excitação, correndo atrás de choros, de blocos e cordões. Não sei com o, envolvido em que grupo, entrei no salão de um clube, acom panhando a m assa na sua liturgia pagã.
Lem bra-m e que hom ens e m ulheres, a um de fundo, m ãos postas nos quadris do que ia à frente, dançavam , encadeados, e entoavam os coros que descem do Morro. Toadas tristes, que vêm da carne.
A certo m om ento, alguém m e enlaçou o braço, cantando: "Segura, m eu bem , segura na m ão, não deixes partir o cordão..." O braço que se lem brou do m eu braço tinha um a branca e fina m ão. Jam ais esquecerei: um a branca e fina m ão. Olhei ao lado: a dona da m ão era um a branca e doce donzela. Foi um a visão extraordinária. Pareceu-m e que descera até a m im a branca Arabela, a donzela do castelo que tem um a torre escura onde as andorinhas vão pousar. Pobre m ito infantil! Nas noites longas da fazenda, contava-se a história da casta Arabela, que m orreu de am or e que na torre do castelo entoava doridas m elodias.
Efeito da excitação de espírito em que m e achava, ou de qualquer outra perturbação, senti-m e fora do tem po e do espaço, e m eus olhos só percebiam a doce visão. Era ela, Arabela. Com o estava bela! A m úsica lasciva se tom ou distante, e as vozes dos hom ens chegavam a m im , lentas e desconexas. Em m eio dos corpos exaustos, a incorpórea e casta Arabela. Parecia que eu m e com unicava com Deus. e que um anj o descera sobre m im . Meu corpo se desfazia em harm onias, e alegre m úsica de pássaros se produzira no ar.
Não m e lem bra quanto tem po durou o encantam ento e só vagam ente m e recordo de que, em um m om ento im possível de localizar, no tem po e no espaço, a m ão m e fugiu. Tam bém tenho um a vaga idéia de que alguém m e apanhou do chão, pisado e m achucado, e m e pôs num canapé onde, j á sol alto, fui dar acordo de m im .