O Amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos · Capítulo 27 de 51

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O Amanuense Belmiro

§ 24. Análise Espectral de Carmélia. 55

Ao passo que sentia veem ente apelo da terra e um desej o vivo de evadir-m e para lugares e épocas distantes, para certa gleba da fazenda velha, reservada ao plantio, onde os hom ens, curvados, abriam covas, punham sem entes e as cobriam , eu experim entava indizível angústia que resistia a toda tentativa de análise. Ao escrever esta página, lem bra-m e um a palavra que ouvi do desem bargador Linhares^ acerca da predom inância da face cam pesina em m eu tem peram ento. Curioso hom em . Nosso com ércio é escasso: tem o-nos visto apenas um a vez ou outra, em encontros rápidos de Livraria; entretanto, diz-m e coisas surpreendentes a m eu próprio respeito. Um a tarde dessas, confiei-lhe m eu estado de espírito, que se resum e na disposição de orientar-m e exclusivam ente pela sensibilidade, desde que vacilaram e caíram , aos m eus olhos, todas as convicções e pontos de apoio da consciência. Disse-lhe que m e presum ia um hom em sem princípios, ou que conservava apenas preceitos m orais, legados pelo velho Borba.

O desem bargador fitou-m e com os olhinhos penetrantes, por detrás das lunetas grossas, e esclareceu, a m im próprio, que nem esses preceitos m e restam e que o que há em m im são sentim entos de ordem m oral.

Se, acaso, publicar um dia este caderno de confidencias íntim as, perdoem -m e os leitores as anotações de caráter m uito pessoal que forem encontrando e que certam ente não lhes interessarão. Quem escreve um Diário (afinal, estou escrevendo um ...) não se pode furtar à sua própria contem plação. É um narcisism o a que ninguém escapa.

 

§ 24. ANÁLISE ESPECTRAL DE CARMÉLIA.

 

GLICÉRIO chegou ontem , e o pouco interesse que seu regresso m e despertou evidencia, a m eus olhos, a salutar reação que em m im se processa.

Aos dias difíceis, que tenho passado no correr dos tem pos, sem pre se sucederam outros, bonançosos, sem problem as, durante os quais todos os fantasm as se desvanecem e os tem as torturantes deixam a tona da consciência, tal com o ocorre nas com posições m usicais onde a frase dom inante por vezes se eclipsa ou flui tão sutilm ente que não a percebem os no concerto de sons.

Pretendo, porém , que não se trate, agora, apenas de passageira anistia. Reaj o, com virilidade, contra essa ridícula história da noite de carnaval. Já era tem po de fazê-lo. Há solicitações graves, a que devem os atender, e um hom em não se deve entregar, assim , a um a vida inútil, de vagabundo lírico.

Com um a esbatida im agem física, fornecida pela m oça da Rua Paraibuna, e com som bras e luzes, que havia dentro de m im , construí um a Carm élia cerebral que m e causava devastações. A solidão trabalhou, eu revivi um processo infantil e o velho m ito de Arabela volveu a perseguir-m e. Um a noite de carnaval, cheia de sortilégios, fez-m e encarná-lo nessa donzela Carm élia, que não tem culpa de coisa algum a. E criei um ser fantástico, onde só entram tênues traços da m oça; o m ais, j á se sabe, é contribuição do luar caraibano, das noites erm as, de todo o m órbido rom antism o, secreção da fazenda e da Vila.

Pura im aginação: tudo se resum e nisso e nada há além disso. A Carm élia que am ei não existe. Nada tem com ela a form osa senhorinha da Rua Paraibuna, distinto ornam ento do nosso set, com o dizem os cronistas sociais.

E quem está pagando tudo é o pobre do Glicério. Agora, que m e acho de ânim o isento, reconheço ter sido grosseiro para com ele. Tratei-o m al ontem , na Seção, quando m e veio dar novidades do Rio. Não pude esquecer-m e dos m aus m om entos que m e trouxe durante sem anas, explorando inconscientem ente m inhas fraquezas sentim entais pela j ovem Carm élia. Nem lhe perdoei todo o tem po que m e fez perder, tornando vão m eu esforço para, através dele, saber algo a respeito da m oça. Descontei tudo, inclusive a abolição do colarinho alto (excelente m edida, aliás) e as exibições em rodas sociais.

Mas, ponham os de parte essa história e lem brem o-nos de que não se pode ser criança aos trinta e oito anos. É preciso fazer qualquer coisa. Sobretudo tom ar um sorvete, pois a noite está quente. Há, na Avenida, um bar que nunca se fecha. Aproveitem os a insônia e cam inhem os um pouco.