O Amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos · Capítulo 7 de 51

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O Amanuense Belmiro

§ 4. Questão de Obstetrícia. 20

Mas, ao cabo de contas, foi nele que com eçou o desvio da linhagem rural. Não citavas o teu Vergílio, pai Belarm ino? Na verdade, estavas m ais próxim o dos clássicos (lem bro-m e de tua predileção, um tanto tendenciosa, para o Horácio...) do que dos currais e das roças. Words... Words... com o diria Prudêncio, esclarecendo que a exclam ação foi do Ham let. Bem m e recordo de que, a rigor, não funcionavas na fazenda. Por qualquer pretexto, lá ias, na tua besta, rum o à Vila, para trocar dois dedos de prosa com o provisionado Loiola. Confessa, Borba, data de ti a traição à gleba...

Natal! Fiquei até tarde no alpendre. Com a saída dos vizinhos para a m issa do galo, recolhi-m e. Outras m issas, noutros tem pos... Com o esta vida vai correndo, vai correndo... Um dia sentirem os um a sacudidela, tal com o no poem a:

 

Stop.

A vida parou

ou foi o automóvel?

 

§ 4. QUESTÃO DE OBSTETRÍCIA.

 

JÁ ESTAVA palm ilhando a terra vaga do sono, para frente, para trás, segundo a luta surda que se trava em nós, entre um a parte do eu, que aspira ao abandono, e outra que contra ele reage, talvez pelo receio inconsciente que inspira o adorm ecer, im agem da m orte; ganhava-m e o corpo um a doce lassidão, e o espírito se em bebia no torpor que afrouxara os nervos; apenas im pressões vagas, prestes a se apagarem , m e vinham das coisas, e a um a rem iniscência tênue, quase a esvaecer, reduzia-se esta lem brança perm anente com que, no estado de vigília, a m em ória sustenta, a cada instante, nossa precária unidade psíquica, ligando o m om ento que passou ao m om ento presente. De corpo e espírito, achava-m e, pois, preparado para o repouso e j á m e aconchegava, repetindo, instintivam ente, as posições do em brião no ventre m aterno, quando, arrancando-m e daquele quebranto, o cão dos fundos se pôs a ladrar, com um m étodo que indicava disposição sólida de latir pela m adrugada toda. Previ a catástrofe, em sua extensão, e repreendi-m e por j á não ter m inistrado um a "bola" ao canino dem ônio.

Pequena pausa sobrevinda m e deu a esperança de que o m astim houvesse m udado de intenção. Podia ser que chegasse logo à conclusão de que não havia m otivo para m aiores alarm as: fora o galo do outro quintal que, por equívoco, batera as asas para anunciar o prelúdio do alvorecer e, porventura verificando adiantam ento no relógio, lim itara-se ao bater de asas, contendo o anúncio na garganta. Mas, ou porque o guarda do quintal contíguo não identificasse o rum or produzido pela ave, ou porque ainda houvesse, no ar, um desses barulhos sutis, que só os cachorros percebem , zelosos que são do seu ofício, logo recom eçou ele a ladrar advertindo às possíveis som bras de que não se dorm ia naquele honrado canil. Tratando-se de m ero latido de advertência, sem ódio nem convicção, o cão não se apressava, nem latia m ais alto ou m ais baixo: o tom era terrivelm ente um só e as pausas pareciam m edidas em cronôm etro.

Subitam ente, tom ou-m e indizível fúria. Tudo se m e escureceu em torno e pareceu-m e que as som bras se agitavam , num a conspiração universal contra m im . Saltei da cam a, cego de raiva, j á m unido da prim eira arm a que a m ão encontrou, e que era um sapato velho. Abrindo a j anela, num relance, atirei-o às tontas ao m eio da rua, em bora o conhecim ento da geografia do quarteirão m e habilitasse para localizar o anim al no lado oposto, em quintal vizinho.

Ora, isso apenas serviu de estím ulo ao ladrante: ganhou alento e entusiasm o, j á certo de que algo havia para j ustificar suas precauções. Mas não repeti o gesto. Satisfeita a fúria dos Borbas, que se contenta com arrem essar qualquer obj eto a esm o, m eus nervos se apaziguaram , e, daí a pouco, de novo no leito, sorri para dentro de m im m esm o, com ternura. Afinal, isso está no sangue. Esses repentes, esse ódio súbito, insopitável, que passa com o um relâm pago depois de a gente ter feito um a quixotada, é algum a coisa que m e ficou dos Borbas. Lem brei-m e do avô (o últim o Porfírio), que era tal qual. No dia em que um a chuva inesperada viera estragar o café posto a secar no terreiro, ele ficou possesso de raiva, sacou da garrucha e desfechou dois tiros para o ar... Em seguida, caiu num a grande prostração e perm aneceu casm urro o dia todo.

Com o o avô Porfírio, procedi à m aneira de Xerxes, quando, indignado com a procela que lhe destruiu a frota, m andou zurzir o m ar.

Fiquei satisfeito com o precedente ilustre que a m em ória m e veio trazer e lem brei-m e de um as palavras do excelente Montaigne: "A alm a descarrega suas paixões sobre obj etos falsos, quando lhe faltam os verdadeiros." "Parece que, abalada e com ovida, se perde em si m esm a se não lhe dam os presa; cum pre fornecer-lhe sem pre obj eto em que possa aplicar-se e atuar." Com efeito, devem os sem pre ter à m ão um sapato velho para o serviço da alm a. Graças a ele, aqui estou calm o a escrever estas linhas, em que vai toda a história de m ais um Natal que passa. É plano antigo o de organizar apontam entos para um as m em órias que não sei se publicarei algum dia.

"Por que um livro?" foi a pergunta que m e fez Jandira, a quem , há tem pos, com uniquei esse propósito. "Já não há tantos? Por que você quer escrever um livro, seu Belm iro?" Respondi-lhe que perguntasse a um a gestante por que razão iria dar à luz um m ortal, havendo tantos. Se estivesse de bom hum or, ela responderia que era por estar grávida. Sim , vago leitor, sinto-m e grávido, ao cabo, não de nove m eses, m as de trinta e oito anos.' E isso é razão suficiente. Posta de parte a m odéstia, sou um am anuense com plicado, m eio cínico, m eio lírico, e a vida fecundou-m e a seu m odo, fazendo-m e conceber qualquer coisa que j á m e está m exendo no ventre e reclam a autonom ia no espaço. Ai de nós, gestantes.

O m elhor seria viverm os sem livros, m as o hom em não é dono do seu ventre, e esta noite insone de Natal (as sinistras noites de insônia, responsáveis por tanta literatura reles!) traz-m e um desej o irreprim ível de reencetar a tarefa cem vezes iniciada e outras tantas abandonada. Jandira acredita que não foi reservado a m im deixar à posteridade qualquer im portante m ensagem . Deve ter razão: se cá dentro deste peito celibatário tem havido coisas épicas, um Belm iro (que costum a assobiar operetas) insinua que as epopéias de um am anuense encontram seu lugar j usto é dentro da cesta. Este m esm o Belm iro sofisticado foi quem m atou dois outros livros, no decurso dos dez últim os anos. Um , no terceiro capítulo, e outro na décim a linha da segunda página. Enterrei-os no fundo do quintal, com o se enterravam os anj inhos sem batism o, em Vila Caraíbas. Sobre a cova brotou um a bananeira.

On revient touj ours: hoj e recom eça a m esm a aventura, no m esm o quarto envelhecido desta patética Rua Erê, enquanto as carrocinhas de pão com eçam a percorrer o Prado e m eus am igos operários devem estar procurando o cam inho da fábrica de calçados.

Am anhece o dia, do outro lado do quartel do Décim o. Reconciliei-m e com o cão e com o livro.

Não sei bem o que m e sairá das entranhas. Com ecei contando o Natal que acabou e falando nos am igos e na parentela. Meu desej o não é, porém , cuidar do presente: gostaria apenas de reviver o pequeno m undo caraibano, que hoj e avulta a m eus olhos. Minha vida parou, e desde m uito m e volto para o passado, perseguindo im agens fugitivas de um tem po que se foi. Procurando-o procurarei a m im próprio.