O Amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos · Capítulo 12 de 51

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O Amanuense Belmiro

§ 9. As Velhas. 30

Tive noites difíceis, bebi algum as vezes e andei com o vagabundo pelas ruas. Até o chefe da Seção notou m inha inquietude e fez-m e assinar um requerim ento de férias: "O senhor está precisando de repouso e deve aproveitar a ocasião. O Secretário está fora, e tem os pouco serviço." (Na verdade nunca tivem os serviço, e j am ais conheci ficção burocrática m ais perfeita que a Seção do Fom ento...) Em tal estado de espírito, é fácil de ver que eu não poderia retom ar estas notas.

Devo retificar, nesta página, o que atrás foi dito sobre o am anuense que espia o am anuense e lhe estiliza o sofrim ento. Observo agora que o nam orado, no m om ento preciso de sua agitação sentim ental, não é capaz de se desdobrar ao ponto de perm itir ao espírito, quando o coração bate desordenadam ente, estudar, para fins literários, os m ovim entos desse desvairado m úsculo. As m odificações que a paixão determ ina em nossa substância e a diversa visão, que ela nos proporciona, dos seres e das coisas, poderão vir lucidam ente, m ais tarde, ao plano da nossa análise, quando, tudo j á serenado, o espírito calcula e m ede—m as certam ente não são suscetíveis de registro, no instante em que devastam nossa sensibilidade. E ninguém o ignora: a literatura das em oções é feita a frio, e a m em ória ou a im aginação é que reproduz ou cria as cenas passionais. No m om ento da devastação, alm a e corpo se solidarizam .

Eu pediria inutilm ente o socorro do bom senso ou da análise nas horas em que vivi a perseguir um a im agem que teria um terço de realidade e dois de fábula. Naquelas horas, entreguei-m e inteiram ente aos secretos im pulsos, percorrendo toda a cidade em busca de Arabela.

Postava-m e nos logradouros públicos, penetrando a m ultidão, não m uito convicto, e contudo esperançoso. Muitas vezes entrevi um a figura gentil e fui, em vão, ao seu encalço. Logo verificava o engano. É extraordinário que nesta altura da vida m e tenham acontecido tais coisas, m as o luar de Vila Caraíbas tudo explica, e o adolescente perm anece no adulto.

Só passados alguns dias a tola idéia deixou-m e, e a aventura de carnaval se foi dissipando no m eu espírito. Quis, então, voltar a estas notas, que se vão tornando o centro de interesse de m inha vida. Mas, na noite em que com ecei de novo a folheá-las, ocorreu outro em pecilho: o estado de saúde das velhas. Falarei nisso am anhã. Acho-m e cansado e não há pressa.

 

§ 9. AS VELHAS.

O SEGUNDO m otivo da interrupção de m inhas atividades de escriba, j á lhes disse, foi dom éstico. Francisquinha piorou consideravelm ente, tendo passado duas sem anas de extrem a agitação. Em ília, às voltas com sua gota ciática, não daria conta de olhar pela m ana se, não estando em férias, eu ficasse im possibilitado de lhe prestar auxílio, a todo instante.

Tivem os de prender a pobre m ana no quarto, o que só tem os feito em últim o caso. Ela ficava noite e dia a arranhar a parede com as unhas, tentando, talvez, escalar a superfície lisa e vertical. Gritava coisas desconexas, supunha-se perseguida por um a m ula-sem -cabeça. Em ília voltou a insistir em que eu trouxesse um padre para exorcism á-la. Desde m uito, Josefa lavadeira lhe m eteu na cabeça que a Chica está possessa. Um espírito m au a dom ina.

Quase cedi, para ter a Em ília tranqüila. Que dias difíceis! Finalm ente, a crise passou, e Francisquinha foi m elhorando. Deu para coisas que até m e fizeram rir. Levantando, um dia desses, um a tábua do assoalho, m eio apodrecida, descobriu, não sei com o, um a ninhada de ratinhos. Passou a dispensar-lhes cuidados m aternais, e, para não a verm os de novo agitada, tivem os de consentir em sua extravagância: duas ou três vezes por dia arranj ava m ingaus para os ratinhos e ficava o tem po todo a espreitá-los, de longe. . .

Agora, tudo está em paz, inclusive o Tom e, que andou inquieto, talvez excitado pelo barulho que a m ana produzia. A casa retornou ao seu clim a habitual, e as velhas se entregaram norm alm ente às suas funções. Em ília cozinha, e Francisquinha, quando está m elhor, com o nestes dias, lava roupa. É verdade que isso nos sai caro: nos seus repentes, é com um que pegue as peças j á lim pas e as atire ao chão, pisando-as, para de novo m etê-las na água. Josefa lavadeira vive a resm ungar e a querer tom ar-lhe a roupa. É um a velha cabeçuda, e não há m eio de a fazer com preender que eu com praria m uito m ais caro as horas de sossego que Francisquinha experim enta quando se entrega àquela tarefa.

Vivendo, desde alguns dias, m om entos tranqüilos, foi-m e possível, j á ontem , retom ar m inhas notas. Posso ler um pouco e escrever até tarde. A m eu pedido, Carolino, contínuo da Seção, trouxe-m e blocos de papel em quantidade, e acho-m e abastecido para o que der e vier. O tim bre da Seção do Fom ento encim a estas páginas. Viva a Seção que m e dá o pão e o papel.