O Amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos · Capítulo 37 de 51

Páginas do PDF

O Amanuense Belmiro

§ 34. "Desculpem a Poeira". 70

§ 34. "DESCULPEM A POEIRA".

 

RELENDO, agora, as derradeiras páginas, há um a sem ana escritas, fico a pensar nestas diferenças de nível que m e acorrem , nos dom ínios da sensibilidade, tão rápidas e súbitas que a m im próprio m e pasm am . Em todo este esboço de livro, um problem ático leitor futuro sentirá os abalos que tais desnivelam entos determ inam . Com eço, com o no penúltim o capítulo, a fazer considerações em torno da m udança de rum os, a que fui forçado na elaboração destas notas, e acabo por m ergulhar, no últim o, nestas profundas regiões caraibanas do m eu espírito, que às vezes m e parecem tão rem otas e m etafísicas.

Que m e perdoem os abalos passados e os futuros. Com o os autocam inhões que, percorrendo a estrada de Morro Velho, levantam nuvens de pó, m as gentilm ente trazem , pendurado na parte posterior da carroçaria, o cartaz "Desculpem a poeira"—tanto m ais gentil quanto o pedido de desculpas é, sem distinção, dirigido a todos os que vêm depois—apresento aqui m inhas escusas.

Desej aria planar suavem ente, conduzindo, sem tropeços, os que m e acom panham , m as falta-m e engenho para isso e nem poderia pô-lo, nestes apontam entos íntim os, sem o risco de falseá-los.

Este caderno, onde alinho episódios, im pressões, sentim entos e vagas idéias, tornou-se, a m eus olhos, a própria vida, tanto se acha em bebido de tudo o que de m im provém e constitui a parte m ais íntim a de m inha substância.

Não é senão por isso que fugiria a publicá-lo, perguntando-m e, a m im próprio, se acaso oferece espetáculo de interesse para quem quer que sej a. Não excluo a hipótese de que algum a âm esoeur (e deve havê-la, neste vasto m undo) possa com prazer-se e contem plar-se na leitura dele, m as não se im prim e um livro para um a ou duas alm as irm ãs, e tem o que não as encontre em m aior núm ero.

Publique-o ou não, terei de dar-m e com o sou. Tais desnivelam entos é que com põem m inha vida e lhe sustentam o equilíbrio. A um Belm iro patético, que se expande, enorm e, na atm osfera caraibana—contem plando a devastação de suas paisagens—sem pre sucede um Belm iro sofisticado, que com pensa o prim eiro e o retifica, aj ustando-o aos quadros cotidianos. Chegado à sua toca da Rua Erê, o Belm iro egresso de Caraíbas se apalpa, se reaj usta e assobia a fantasia do Hino Nacional de Gottschalk.