O Amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos · Capítulo 34 de 51

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O Amanuense Belmiro

§ 31. Um Dia Bem-Humorado. 66

Estas considerações a propósito de Glicério quase m e fazem esquecer de anotar, aqui, um acontecim ento de im portância: o velho Giovanni veio ver-m e à tardinha, delirante de alegria, para avisar que Pietro está m esm o em Diam antina. Com o dinheiro que levou consigo, tom ou um a passagem de segunda classe para Corinto e, desta estação, um a outra para Diam antina. Acredita o velho que a com pra de dois bilhetes, em vez de um só direto, exprim e que o m enino hesitava entre Montes Claros, Pirapora e Diam antina. Chegado à estação de onde partem os três ram ais, preferiu, depois de ali perm anecer três dias, seguir para aquela últim a cidade, na qual m ora seu padrinho. E Giovanni interpreta favoravelm ente a preferência por Diam antina: indo procurar o padrinho, o garoto j á m ostrava um com eço de arrependim ento ou, pelo m enos, desistia da intenção de sum ir-se pelo m undo.

Essas inform ações lhe foram prestadas pelo investigador m eu am igo (o Parreiras), que m uito se interessou pelo caso na Polícia Central. Giovanni espera receber am anhã um a carta do seu com padre anunciada em telegram a de hoj e. Se não receber, partirá pelo noturno do Norte.

 

§ 31. UM DIA BEM-HUMORADO.

 

DÁ-ME vontade de rir, ao relatar, aqui, a celebração de m inhas pazes com Glicério. Encontram o-nos antes de entrar na Seção, no m om ento de m arcarm os, no relógio do ponto, a hora da chegada. Disse-m e, sisudo:

—Bom dia, Belm iro.

—Bom dia, senhor Glicério. Com o vai o senhor? respondi, m ais sisudo ainda.

Surpreendeu-se com o acréscim o cerim onioso que fiz ao cum prim ento, e ficou sem saber se deveria interpretá-lo com o pilhéria ou com o advertência para que m e tratasse com m enos intim idade. Tal foi a expressão de sua fisionom ia, que não pude conservar a cara fechada e reprim ir uns gracej os.

Mas isso, em vez de o pôr à vontade, encabulou-o ainda m ais. Por fim , dando-lhe o braço, eu disse que precisávam os conversar, e o conduzi a um canto do saguão do edifício.

Com espanto para ele, expliquei-lhe, desde as origens, os m otivos por que, de um m om ento para outro, passei a tratá-lo de m odo diverso. Fui rigorosam ente exato nessas explicações, que duraram cerca de m eia hora. Rem ontando ao caso de Carm élia, não receei ser ridículo ao referir-lhe toda a história, inclusive a da noite de carnaval.

Ao expor-lhe o fenôm eno da hum anização do m ito "donzela Arabela", experim entei algum a dificuldade, pois tive a im pressão de que o petim etre m e supunha vítim a de perturbação m ental. Zom bei, então, do episódio, para tranqüilizá-lo quanto à m inha sanidade de espírito. Contudo, persistia em sua face um ar de com iseração. Em outras circunstâncias, isso m e haveria irritado, m as a disposição de esclarecer o caso e talvez a necessidade de confessar a alguém o rom ance vivido em segredo fizeram com que eu prosseguisse na m inuciosa narrativa de m inhas tolas aventuras.

Tam bém não m e aborreceu o aparte, um tanto im prudente, dado por ele em certo m om ento:

—É extraordinário que você tenha conseguido im aginar tanta coisa em torno de um a criatura sim ples com o Carm élia!...

Sim , era extraordinário, concordei de m á vontade. Era m esm o divertido. São coisas que acontecem .

Depois, disse-m e que se eu lhe houvesse confiado os m eus desej os, nada lhe teria sido tão fácil com o levar-m e ao salão da viúva Miranda. Lá esteve algum as vezes, durante o período em que eu tanto m e obstinava em obter, sem contudo as pedir, notícias a respeito da m oça. E só não falou nisso, porque nem de leve poderia adivinhar m eu interesse por ela.

A viúva é m eio difícil, com suas pretensões de aristocrata paulista— continuou—m as não fazia nenhum a restrição a ele, Glicério, e aos seus am igos. Quanto à donzela, era um anj o. Fina, inteligente, conversável. Teria gostado im ensam ente de conhecer-m e — avançou. Depois da m orte do pai, fecharam -se um pouco, era natural. Mas, passado o trigésim o dia, j á a fam ília estava recebendo, j á se conversava, ali, com o em vida do Dr. Aurélio.

—Você teria feito sucesso na casa, concluiu com entusiasm o.

Fiquei lisonj eado, m as disse-lhe que o assunto estava encerrado; que os m itos se recolheram , com petentem ente, aos seus lugares; que eu lhe agradecia m uito os serviços que não prestara, m as poderia ter prestado, se eu lhos houvesse pedido, e que, ao cabo de tudo, só desej ava sua inteira reserva a respeito.