O Amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos · Capítulo 26 de 51

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O Amanuense Belmiro

§ 23. Chuvas de Setembro. 54

Pensei, depois, no Redelvim e na Jandira. Ao contrário do que acontece ao prim eiro (se acaso foi sincero no que disse) os indivíduos significam dem ais para m im . Onde os outros vêem unidades m ecânicas da m assa, ou abstrações econôm icas, eu vej o hom ens, criaturas que sentem e pensam . Vej o, por exem plo, o hom em Redelvim , sensível, inteligente, cuj a im olação em nom e de um a quim era seria um a crueldade do destino.

Meus receios se vão confirm ando. O pequeno círculo em que vivo, e cuj o equilíbrio sem pre foi precário, é agora trabalhado por dissensões m ais profundas. Dentro em pouco estará irrem ediavelm ente dissolvido.

Há quinze anos passados, conheci Redelvim num a república de estudantes, onde m oram os j untos, quatro anos, até quando, falecido o velho Borba, tom ei casa própria para viver com Em ília e Francisquinha. Tem os sido com panheiros em tudo, inclusive no celibato, nas aperturas financeiras e na burocracia. Deixou ultim am ente o Estado, em virtude de um a desavença com o diretor de sua repartição, e passou a trabalhar som ente em j ornais. E hom em difícil, m as bom am igo. Trata-m e com dureza, nestes últim os tem pos, m as não dou im portância a isso, sabendo que a causa de tudo é o nervosism o em que vive. Por outro lado, a adm iração, que lhe voto, gera um a tolerância grande para com os golpes que m e vêm dele.

Tam bém não levarei a sério as declarações que m e fez pela m anhã. Jam ais acreditei no seu ativism o partidário. E ele m e parece m ais anarquista, que com unista. Um anarquism o lírico, que não dá para atirar bom bas nem praticar atentados. Este nosso anarquista tropeçará sem pre no coração, que é terno, malgré lui.

 

§ 23. CHUVAS DE SETEMBRO.

 

AGORA com preendo por que Silviano incluiu, naquela página do Diário, a anotação a propósito das chuvas: "Tem po —Prim eiras chuvas de 1935"...

As deste princípio de setem bro j á não são as prim eiras, m as determ inam , aproxim adam ente, o m esm o fenôm eno que, suponho, o am igo registrou. Na m anhã de hoj e, o sol nasceu forte e o chão m e queim ava os pés. Quando, após instantânea form ação de nuvens, veio a chuva, subiu do solo um hálito intenso e fecundante. Foi um pé-d'água violento e rápido, m as o cheiro de terra im pregnou-m e as narinas o dia inteiro. Qual a relação entre tal acontecim ento m eteorológico e nossa sensibilidade? Eu não saberia precisá-la e apenas poderei dizer que um hom em rural, adorm ecido, despertou em m im , com seu prim itivism o, sua força e, sim ultaneam ente, seus tem ores.