O Amanuense Belmiro
§ 38. Parabosco Ferrabosco Ltda. 76
Quando voltou, m inutos depois, tinha a fisionom ia transtornada.
—Já não está aqui. Já não está aqui. Há um a conspiração universal contra m im . Idealizei tudo, previ os m ínim os porm enores, m as forças contrárias tudo desfizeram . Que havem os de fazer, agora, entre estes filistinos? Vam os em bora. Vam os.
Consolei-o com o pude, e lem brei-lhe que estávam os sem transporte. O Estrabão só daí a um a hora viria buscar-nos. Silviano olhou com ternura o litro de Mc Callum 's, passou-lhe a m ão pelo gargalo e disse-m e:
—Está bem . Já que os deuses não são propícios, bebam os.
§ 38. PARABOSCO FERRABOSCO LTDA.
NÃO PUDE term inar o relato da conversa com Silviano. Em ília tossia m uito, acordou, viu, pela fresta da porta, luz no escritório e ficou a resm ungar. Fui acalm á-la e dar-lhe um a colher de xarope. Depois, sentindo-m e cansado, deitei-m e. Apanharei a narrativa no ponto em que a deixei ontem . Anim ado pelo uísque, Silviano contou-m e coisas que m uito m e aj udarão a decifrar seu Diário, se este algum dia m e cair de novo sob as vistas.
O "Perrexil" é um a j ovem de nom e Dolores Gigedo, filha de um espanhol rico, fabricante de tij olos. Silviano nada sabe a seu respeito senão que possui uns olhos excepcionais. —Que olhos, Porfírio...
—Porfírio, não, Belm iro, em endei.
—Você j á ouviu falar em gota-serena? Não ouviu? É um a doença dos olhos, um a am aurose, proveniente de lesão na retina e alteração no nervo ótico. Os olhos dela são estranhos. Dir-se-ia que sofre de gota-serena. Dão-m e a im pressão de água parada, cisterna. Lem bram -m e um verso de Baudelaire: "Tes yeux sont la citerne ou boivent mes ennuis..." concluiu com um ar cism ador.
—Que olhos! continuou. Im pressionaram -m e tanto, que andei lendo, em Dum as, um capítulo a fio sobre a função do nervo patético, na expressão do olhar!
Contou-m e, depois, que não a tem visto m uitas vezes. Conheceu-a um dia, na Avenida. Foi-lhe apresentada pelo irm ão, aluno dele. E abism ou-se em seus olhos. Descobriu-lhe o endereço, m andou-lhe, de presente, um chapéu, novidade da estação...
—Que idéia, Silviano, um chapéu! exclam ei. E deu-lhe presentes, assim sem m ais nem m enos?
—Sim , senhor. Que tem isso? As m ulheres gostam m uito de chapéus. E não sou nenhum idiota para dar logo a m inha identidade!
Mandou-lhe, pois, um chapéu, m andou-lhe um perfum e francês e outras coisas m ais, tudo isso sem se dar a conhecer. Há poucos m eses, quando m orreu a m ãe da m oça, escreveu-lhe um a longa e sentida carta, com citações, em alem ão, de Heine e Goethe.
E um belo dia... apareceu-lhe de supetão em casa, inform ado de que a m oça se achava só. Foi grande o susto que esta experim entou. Silviano de pé, no alpendre, declarou-lhe am or, disse-lhe ser o hom em que desde algum tem po lhe m andava coisas e escrevera a carta, quando a m ãe m orreu. Dolores lhe perguntou, atem orizada, que pretendia dela.
Respondeu que não queria nada. Ela j am ais com preenderia o "fenôm eno". Representava, para ele, um universal e não um particular. Am ava, nela, o am or, a vida que foge, a m oça em flor, a eterna graça. Depois, tentou abraçá-la (esquecendo-se, aj unto eu, de que não se pode abraçar um universal...).
Dolores reagiu e correu para dentro, deixando-o sucum bido.
—Continuo a am á-la violentam ente, disse-m e.
Observei-lhe que, se fora m enos transcendente, talvez tivesse tido m elhor acolhida. Não gostou do aparte e passou a contar-m e os fracassos das tentativas anteriores. Por últim o, estava ali. Fracassara m ais um a vez.
***
Ao sétim o uísque deu para m e contar estranhas coisas em que não sei se devo acreditar. Disse que constantem ente sonha acordado, ao andar pelas ruas. Chega a urdir histórias inteiras, do gênero folhetinesco, tudo com o se fosse realidade. Cada dia, retom a a história no ponto em que a deixou na véspera, para prolongá-la sem pre, num a contínua produção de fantasias. Atualm ente vive o caso de "Parabosco Ferrabosco Ltda.
Eis com o nasceu esta novela cerebrina:
Ia passando, há dias, pela Rua Caetés, quando viu duas lindas j ovens. Estavam enlutadas pela m orte do pai, que se suicidara. Condoído da sorte delas (ficaram em extrem a pobreza), pôs-se a dar tratos à bola, procurando um m eio de auxiliá-las. Vou recom endá-las ao Ferrabosco! pensou, subitam ente. Mas, quem é Ferrabosco? Im aginou, então, um italiano cham ado Ferrabosco, que se associara a outro de nom e Parabosco, criando a firm a Parabosco Ferrabosco Ltda.
Hom ens arroj ados, de grande iniciativa, Parabosco Ferrabosco fizeram , nada m ais, nada m enos, que converter a Pedreira Prado Lopes num luzido centro de diversões. No alto da colina, um cassino de luxo, freqüentado pelo grande m undo. Para chegar ao edifício, de linhas m oderníssim as, os freqüentadores subiam de auto, por um a "sinuosa", ladeando docem ente a encosta.
Não conseguindo detalhar o interior do edifício que im aginara, correu aflito a casa de um arquiteto conhecido, a fim de consultar revistas de arquitetura. Achou, finalm ente, o que convinha a seus am igos Parabosco Ferrabosco Lida.
Voltando às m oças, colocou-as facilm ente nos escritórios do Cassino, assegurando-lhes a proteção da im portante firm a. Resolveu, assim , o problem a delas. Mas a história de Parabosco Ferrabosco ainda não term inou. Vários episódios se sucederam , as m eninas figurando sem pre. O Ferrabosco se apaixonou pela m ais velha e com ela fugiu para a Itália. Depois voltou, recom pôs-se com a fam ília e a m oça ficou por lá, nos cabarés de luxo. Presentem ente estão eles em entendim ento com o proprietário de um edifício à Praça Sete. Com prá-lo-ão para o derrubar e construir, no local, um prédio de num erosos andares...
Com o olhar atento, Silviano acom panhou, durante o relato, as expressões ora de surpresa, ora de incredulidade, ou de pena, com que m inha fisionom ia m e denunciou os pensam entos.
—Não se im pressione. Não m e estou avizinhando da loucura. Já estudei o fenôm eno. É um a form a de im aginação difluente. Form a frustrânea. Espírito rom anesco. O caso não tem gravidade... term inou, quando nos levantávam os para sair. Estrabão havia chegado e tocava insistentem ente a buzina do carro.