O Amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos · Capítulo 23 de 51

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O Amanuense Belmiro

§ 20. Silviano e o Problema Fáustico. 46

§ 20. SILVIANO E O PROBLEMA FÁUSTICO.

 

GLICÉRIO seguiu ontem para o Rio, onde passará toda esta sem ana. Será um a sem ana difícil para m im , bem o sei. Continuo a alim entar-m e, cada dia, da esperança de ouvir-lhe algo sobre Carm élia, e a privação de sua presença m e desespera. Às vezes lhe tenho ódio, pela im portância que assum iu em m inha vida. Hoj e o dia m e pareceu insuportável na Seção, e a causa não foi outra senão a ausência do peralta, isto é, a ausência de um a possibilidade, entre m il contrárias, de conversarm os sobre a m oça. Passei o dia todo a escrever no papel: Arabela Borba. Carm élia Miranda Borba. Carm élia Borba. Tolices. Não sei até onde irá esta fantasia de am anuense ocioso. No fundo, a culpa é da Seção do Fom ento, que não fom enta coisa algum a senão o m eu lirism o. Bem agem aqueles que acorrentam os hom ens e lhes dão um duro trabalho. Deixem -no folgado, e terem os o anarquista, o poeta, o céptico e outros seres que perturbam a vida do rebanho.

Meu ócio não traz ferm entos de anarquia, m as faz que Carm élia entre sutil por um a j anela da Seção e pouse a m eu lado. A docilidade dos fantasm as! Já não a procuro com angústia: é ela que vem a m im , subm issa, de m ansinho. É ela que passa a m ão pelos m eus cabelos e pergunta:—Que tens, Belm iro? (Com o lhe ficaria bem tutear-m e!)

Foi assim que passei o dia, m ergulhado na sandice. Para a tarde, m elhorei e, à noite, com m edo da solidão, fui atrás do Silviano.

Estou pensando no que seria de nós, se a noite não sucedesse ao dia e se o espírito, afinal, não fizesse suas m ágicas. O que nos vale são as m ágicas. É só espairecerm os um pouco e o prestidigitador, que há em nós, encontra tem as para nos ocupar a atenção e desviar-nos de um a idéia que nos am ofina. A visita ao Silviano transform ou um a noite que se anunciava péssim a em bem -hum orado serão.

Não o achei em casa, ao chegar. Joana disse-m e, porém , que ele não tardaria, e pôs-m e à vontade no escritório, à sua espera. Com o dem orasse um pouco, fui-m e entretendo em folhear livros apanhados aqui e ali, na m esa ou nas estantes, e fiz um a descoberta sensacional: a do Diário do Silviano. Abri-o na página m arcada, que era a últim a, e achando-a extrem am ente curiosa, copiei-a às pressas, com receio de que fosse pilhado nesse ato desonesto. Ei-la aqui reproduzida:

TE RMOME T RIA DE UM E STADO PSICOL ÓGICO

 

Data:—Dom ingo, 23 de agosto de 1935.

Problema:—O eterno, o Fáustico—0 am or (vida) estrangulado pelo conhecim ento.

Tempo:—Prim eiras chuvas de 1935.

Sensibilidade:—Tchaikowsky —Chant sans paroles.

Beethoven—Concerto n.° 3—Adágio.

Chopin—Concerto—opus 21, fá menor, piano e orquestra.

Flotow—Marta—ópera-côm ica.

Leituras:—Am iel:—Journal intime.

Maranon:—Amiel.

Previsões do clima mental:—Más.

Esquecim ento. Freud. (Seguem -se palavras ilegíveis, em alem ão.)

 

O que lhes parecerá côm ico, nesta página, é talvez sim plesm ente trágico. Estranho hom em , Silviano. Não conheço criatura m ais com plexa. Às vezes tenho a im pressão de que, em frente dele, m e acho em presença—não de um indivíduo, de um a unidade—m as de um ser m últiplo ou, antes, perco a noção de "ser" para ter apenas o pressentim ento de que lido com algo extra-hum ano e puram ente cerebral, qualquer coisa com o um conflito de paixões que transborda das fronteiras do indivíduo. E há de tudo nele, desde o ridículo até o espantoso.

Florêncio, em sua sim plicidade, j ulga-o um m istificador. O que desorienta o Florêncio, logo de início, é um dos m uitos aspectos curiosos do Silviano: a im possibilidade de se obter dele inform ação direta ou exata, acerca de qualquer coisa. Na verdade, Silviano chega às vezes a ser exasperante. Se nos contou um fato que nos interessa, será preciso que, dez ou vinte vezes, espaçadam ente, lhe pecam os nova narrativa do acontecim ento, a fim de conseguirm os um a versão m édia, possivelm ente veraz, daquilo que desej am os saber. Há nele um a nebulosidade perm anente. E é divertido ver-se o ar céptico que Joana assum e, quando o interrogam os em sua presença. Sabe quanto é precária a tentativa de sacar um depoim ento preciso do m arido, sobre um a ocorrência qualquer.

Mas o que Florêncio e Joana não com preendem é que a m istificação, em Silviano, nada tem de com um com aquilo que entendem os vulgarm ente por m istificação. Se nos dá um a versão dupla, tripla, quíntupla de um fato, é porque realm ente dois, três, cinco Silvianos presenciaram aquele fato, cada um a seu m odo.

Outras vezes, acontece que às linhas reais de um episódio ele acrescenta um a extraordinária riqueza de porm enores im aginários. Parece-m e que não se trata de um gênero com um de m entira e que, pelo contrário, Silviano é exato no que diz. Reproduzirá com honestidade o que viu ou ouviu, m as é que viu ou ouviu por um processo psicológico m enos fiel que o nosso: abundantem ente se incorporam às percepções, que ele tem das coisas, elem entos próprios de sua im aginação, form as especiais que ele lhes em presta. É um recriador e vê-las-á não com o se apresentam , m as com o gostaria que se apresentassem .

Com sua lucidez, percebe o fenôm eno, em bora não o possa evitar, e procura iludir-nos, dando-se por m entiroso consciente, criador de um sistem a de m istificação longam ente desej ado e encontrado, tal com o fez, outro dia, em casa de Jandira. Dizendo ali ter estado sem que a m ulher o soubesse, nos m entia. Ouvi, m ais tarde, de sua própria boca, que fora à casa de Jandira, com aquiescência da Joana, achando-se a m ulher inform ada de que a reunião tinha caráter inofensivo. Acrescentou que esta pretendia obter, no dia seguinte, um a concessão especial: ser perm itida a vinda de sua m ãe, que m ora em Sabará e queria passar um a sem ana em casa deles. Silviano vota horror à sogra, m as Joana, m anhosa e songam onga, soube fazer a transação, no m om ento propício. Deixou que o m arido se preparasse para sair, m as, à hora em que este punha o chapéu na cabeça, deu o golpe: "Ah!... Você j á vai? Espere... Escute. Esqueci-m e de dizer-lhe que Mam ãe chega am anhã, e fica uns dias conosco.. ." E ele não tugiu, nem m ugiu.

As m entiras deixadas em casa de Jandira são daquelas que pertencem ao processo de recriação do Silviano. Hum orista, ao cabo de contas, achou m ais interessante figurar a si m esm o um a fugida sem o consentim ento da m ulher.

Voltando ao Diário, repetir-lhes-ei que a página será trágica, em vez de côm ica. Redelvim diria que Silviano representa perante si m esm o, com o cabotino consum ado, que exerce o teatro gratuito e interior para uso pessoal. Ou talvez dissesse que ele com põe essas m em órias com a esperança de que o caderno íntim o algum dia venha a cair sob os olhos de alguém . Exibe-se, portanto, para um a platéia futura. Mas estou certo de que não é assim . Aquelas páginas, ora escritas em alem ão, ora em latim m acarrônico, ora num alfabeto cuneiform e, indecifrável, tudo isso, por certo, visando a esconder-se da Joana e dos estranhos, pareceram -m e sinceras. Se algum dia pudesse decifrá-las, eu encontraria, dentro da nebulosa perturbadora, o esboço, a arquitetura, talvez o perfil nítido desse singular histrião.

Silviano não tardou m uito. Vinha alegre, com essa beatitude que o sexto ou oitavo chope nos traz.

—Olá, am igo Porfírio, você no m eu antro! Galernos ventos o trouxeram . Estava pensando em você!

Contou-m e, depois, que andou a bebericar com o Florêncio. Vi que esta noite não brigaram , com o de costum e, pois, m uito satisfeito, m e disse que "o nosso am igo Abundando" lhe contou ter ouvido, num café, conversa m uito interessante entre o Professor Otelo e outros da Universidade. Falavam a respeito dele, e denotavam grande expectativa em torno de opúsculo seu, atualm ente no prelo, e que é um estudo sobre o suicídio. Silviano espera, com tal trabalho, reforçar os seus títulos na Universidade, para que o Reitor lhe m elhore a situação.

Saltando de assunto para assunto, m ostrou-m e, depois, um a cópia da Maj a Desnuda, de Goy a. "Presente de um a j ovem am iga", segredou-m e, piscando um olho.

A alturas tantas ficou um pouco m elancólico, dizendo-m e que, por m otivos especiais, pensara m uito em um a confidencia que lhe fiz há tem pos.

—O m ito Donzela Arabela é um sím bolo fáustico, Porfírio!

A um olhar m eu, interrogativo, continuou:

—Puram ente fáustico! Você j á leu Spengler? Certam ente não leu. Só vive lendo rom ances...

Lem brando-m e da página do Diário, vista m om entos antes, respondi-lhe com ar de quem procura recordar qualquer coisa:

—... Problem a fáustico... O am or... vida... estrangulado pelo conhecim ento.. .

Silviano arregalou os olhos:

—Onde é que andou escarafunchando isso? Sim . Sim . É este. o problem a fáustico, na síntese de Salvador Albcrt. Espere.

Foi a um a gaveta, consultou as fichas, apanhou um a c leu: "En efecto, el problem a de Am iel, com o ei de tantos hom bres, era Ia estrangulacion dei am or por el conocim iento: ei problem a de Fausto."

E continuou:

—Onde viu isso? Onde?

—Não m e lem bro, respondi. Creio que em um a revista literária ...

—Bem , o fáustico de Am iel se enquadra no definido por Spengler. Mas, quando disse que o "m ito Donzela Arabela" é um sím bolo fáustico, não quis significar que você, Porfírio, hom em de planície, ande em tais altitudes. Apenas m e pareceu que essa aspiração do im aterial e do intem poral fem inino, tam bém m inha, é, de algum m odo, um a inquietação fáustica.. .

Esta noite, Silviano estava no seu grande estilo. Andando m aj estosam ente para lá, para cá, pareceu-m e afundado em altas m editações.

Virou-se, de súbito, para m im , dizendo que ia ler-m e algo m aravilhoso. Foi à estante e de lá retirou um livro.

—Vej a que página, que página! Puram ente fáustica! Infelizm ente você não entende o alem ão. Isso é um m al incom ensurável. Incom ensurável!

E traduziu para m im o trecho do Also sprach Zarathustra, em que o herói, atravessando a floresta com seus com panheiros, encontra raparigas que bailam num a clareira.

—Elas representam a vida, Porfírio, a vida que foge diante do asceta!

E, com um gesto espetacular:

—Isso deveria ter sido escrito por m im . Por m im ! Fui roubado!

—Sossega, hom em , que foi que aconteceu? disse Joana, m eio aflita, entrando com um a bandej a de café.

Tom ado o café e pedidas a Joana notícias da prole, despedi-m e do filósofo.