O Amanuense Belmiro
§ 46. Um Belmiro Oceânico. 92
§ 46. UM BELMIRO OCEÂNICO.
{l^Ef^M HOMEM de pince-nez, m agro, alto, m eio m aduro...
r» (|ii Estava m uito triste olhando o salão com o se olhasse
l\Lrl para o m ar... Efeito de álcool e éter, o desfaleci-
m ento... Acabou achando graça na história... Que eu
fosse lá, se não tivesse ficado encabulado com o incidente..."
Dorm i ontem pensando nessas palavras, sonhei com elas e am anheci hoj e a repeti-las. Em bora m e deprim issem , sentia prazer em esquadrinhá-las e decom pô-las, exam inando-as em todos os sentidos. A referência à em briaguez e a declaração de que acabara "achando graça na história" doíam -m e com o pontadas no peito. Em vez de tom ar o m eu partido, tom ei, porém , o da m oça, aj udando-a a ridicularizar esse pobre idiota da noite de carnaval. Deixaram -no deitado no banco (estava em briagado, coitado) e riram -se dele. Bem feito. Era um suj eito m eio m aduro e dizia: "Arabela... Arabela...". O quadro foi realm ente grotesco, e a m oça tinha razão. Em vez de ficar no seu m undo e no seu lugar, esse parvaj ola, m eio m aduro, se fora m eter na roda de filistinos. O resultado não poderia ser outro.
Quanto à rebuscada frase—"Estava m uito triste, olhando o salão com o se olhasse para o m ar"—deu-m e com pensações. Era de um rom antism o aguado e soava ridiculam ente.
Procurando tirar desforra, considerei que um a j ovem que diz frases sem elhantes não pode deixar de ter, tam bém , um álbum onde colherá pensam entos de m ocinhos tolos, de seu círculo. Deve ser das tais que colecionam autógrafos, e seus autores franceses (a que Glicério aludiu de um m odo geral, sem m encionar nom es) hão de ser Delly e Ardei.
Não pude, porém , ficar m uito tem po nessa atitude de com bate, que redundava na defesa do pobre bêbado da noite de carnaval.
Veio-m e a idéia de que a frase talvez fosse pèrfidam ente construída pelo Glicério. O rapaz está pondo as m anguinhas de fora, e, quem sabe, fez isso para m e desfrutar?
Por fim , achei que a com paração "triste com o se olhasse para o m ar" devia ser m esm o de Carm élia. Era um tanto literária, m as... seria rigorosam ente exata. A donzela terá um tem peram ento rom ântico e talvez pense m uito no m ar. Nesse caso, as palavras teriam sido espontâneas, correspondendo a im agens que flutuam no seu espírito e, afinal, necessárias para definir precisam ente um a im pressão.
Esqueceram -m e todas as m ágoas, e com ecei a gostar desse Belm iro que olhava para o salão com o se estivesse contem plando o m ar. Um Belm iro oceânico, irrem ediavelm ente oceânico, eis o que Carm élia pressentiu em m im , denunciando-m e a existência de Belm iros ainda inexplorados. Há m uitos anos que não vej o o nosso irm ão Atlântico, às vezes tão bravo e som brio quando bate no Arpoador. Voltarei a conversá-lo um dia, quando isso m e sej a possível.
E a m anhã de hoj e correu assim , em sondagens. As revelações de Glicério m e proporcionaram um m undo de m editações e suscitaram -m e os m ais desencontrados sentim entos.
Mas, foi quando eu tom ava o bonde para a Secretaria que m e veio, com o um relâm pago, um a frase que, até então, não fora obj eto de exam e, tão absorto m e debrucei sobre as outras: "Há lá, agora, um rapaz m uito "distinto", prim o de Carm élia, com quem você gostaria de conversar"... Esquisito... por que não pensei nisso há m ais tem po? O fato é de im portância capital.
Quem será esse prim o? Com o será? Que veio fazer aqui? Quais serão as conseqüências de sua convivência com Carm élia?
Da Rua Erê à Seção do Fom ento a distância não é pequena. E, na Avenida, com o sabem , faz-se baldeação, tom ando-se um bonde que sobe a Rua da Bahia. Pois, durante todo o traj eto, baldeação inclusive, não vi ninguém , paguei m aquinalm ente ao condutor, dei m aquinalm ente o sinal de parada, na Praça. Com o Silviano, pus-m e a urdir vasto enredo, dispondo os m ais insignificantes porm enores, sem dar conta de coisa algum a.
Para rem atar: m elancólico, m as resignado, enxerguei tudo. Um m oço "distinto", sim pático, vestido de j aquetão e calças listradas, trazendo ao peito um a gravata clara, realçada pelo fundo escuro da roupa, e, nela, um alfinete de pérola. Um a j ovem extrem am ente bela, vestida de noiva, dava-lhe o braço. A cauda do vestido, m uito longa, se arrastava pelo pavim ento da igrej a de Lourdes. Tocava-se a Marcha Nupcial de Mendelssohn. O casal cam inhava ao ritm o da m úsica, dando um a solenidade espetacular ao acontecim ento. Depois, vinham as dam as de honra. Depois, os garçons de honra, todos com os passos tam bém cadenciados. Os dem ais assistentes trocavam im pressões, em voz baixa: "Belo casam ento. Com o assentam , um ao outro"; "Carm élia está um sonho"; "Você notou com o o noivo estava com ovido, na hora do sim ?"
A um canto, apoiado a um a coluna do tem plo, "com o se olhasse para o m ar", um hom em m agro, alto, triste e m aduro contem plava o desfile...
Quando, ao chegar à porta da Secretaria, encontrei Glicério, fitei-o com pena e, ao m esm o tem po, com um a sensação de vitória: "Ora, tam bém não será você, pensei. Lá se foi ela com o m oço 'distinto'. Bem feito. Nós ficam os com o m ito, e ele, com a pequena. Não será m inha, m as tam bém não será sua."
—Olá, j ovem , com o vai essa força? disse-lhe, ainda com ar triunfante.
—Olá, Belm iro.
Glicério há de falar-m e hoj e a respeito desse m oço, pensei, enquanto im aginava m eios de conduzir a conversa para esses lados. Não tenham os pressa. Se ele não tocar no assunto, puxarei sua língua. Mas tocará, tocará. Estam os em frente de um inim igo com um . Serem os solidários no com bate ao filistino.
Dia m orno, na Seção, com o de costum e. Pus em dia o protocolo de processos, esforçando-m e por parecer despreocupado. Queria que Glicério tivesse a iniciativa de m e procurar, e só no últim o caso iria à sua m esa. Deveria fazê-lo, à hora do café.
Calculei com o um astrônom o. À hora do café, ele veio falar-m e e se disse encantado com a "schopenhaueriana" que Silviano lhe está em prestando, por partes.
—Você se m eteu em grandes funduras, disse-lhe, aparentando adm iração.
—Ora, ando há m uito tem po com necessidade de leituras m ais sólidas. Se você quiser, trarei para você um volum e do Ruy ssen sobre Schopenhauer. É am eno, tanto quanto o gênero com porta.
Respondi-lhe que, por ora, não. Preciso debulhar, prim eiro, outros livros que Silviano tam bém m e em prestou e j á está cobrando.
—Ah! a propósito.. . disse Glicério. Encontrei-m e hoj e com o Jorge...
—Que Jorge? Não sei de quem se trata. Algum do seu clube?
—Não. O Jorge de Figueiredo, prim o de Carm élia.
—Então, não é "a propósito", respondi. Se não m e engano, você falava de Schopenhauer.
—Bom ... bom ... É verdade... Mas... Quero dizer...
Tirei-o do apuro, observando-lhe que o prim o de um a criatura, com o Carm élia, seria sem pre "a propósito". E que a m im , por exem plo, m e interessaria, a propósito de qualquer coisa, pois era um grande bandido: ia casar com a m oça m ais interessante da cidade...
—Casar? Você está doido? Quem lhe falou nisso? perguntou, assustado. Pois o rapaz m al chegou a Belo Horizonte!
—Quer apostar? Não o conheço, m as estou vendo tudo claro. Acabei de visionar o seu casam ento, na igrej a de Lourdes.
—Você é fantástico! Carm élia havia de rir, se soubesse disso. Jorge chegou apenas há um a sem ana, para m ontar aqui um serviço de radiologia. Form ou-se há pouco tem po. É rapaz "distinto", sabe? Especializou-se na Alem anha. Quando o encontrei, estava com prando m óveis para o gabinete.