O Amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos · Capítulo 33 de 51

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O Amanuense Belmiro

§ 30. A Propósito de Glicério. 64

Jandira im pugnará, tam bém , a invej a do galho: é um espírito realista, im perm eável aos sím bolos e à linguagem da poesia. Além disso, acha-se agora sob a esfera de influencia do am igo Redelvim , que considera os poetas "traficantes de tóxicos", sustentado? pelo capitalism o para entorpecer o espírito de rebeldia das m assas.

Não a encontrei em casa e deixei o livro com D. Hortênsia. Havia ido a um a aula de taquigrafia.

 

§ 30. A PROPÓSITO DE GLICÉRIO.

 

GLICÉRIO olha-m e espantado, sem saber a que atribuir m inha súbita m udança de atitude. Antes de sua partida, na esperança angustiada de aproxim ar-m e de Carm élia, com o seu auxílio, concedi-lhe, em poucos dias, um a cam aradagem estreita que, durante dois ou três anos, pretendeu inutilm ente. Ao dizer isto, não é m inha intenção deprim ir o rapaz e enaltecer-m e. É que, pertencendo a um a casta diversa da nossa, e freqüentando-nos apenas por esnobism o, nunca m e despertou senão um interesse superficial; com o j á disse, reservo avaram ente m inhas disponibilidades de tem po para velhos am igos.

Tendo-se arrefecido o m eu entusiasm o pela j ovem Carm élia, senti-m e trapaceado pelo j anota, que de nada m e serviu no transe, e reagi de m odo prim ário, cortando, quase de chofre, nossas relações. Arrependo-m e. É, afinal, um excelente m oço e nenhum a culpa tem de não m e ter sido útil na aventura em que m uito m e aproxim ei do herói m anchego. Com o poderia adivinhar m eus sentim entos, se os ocultei obstinadam ente? Exigi-lhe um absurdo. Se não m udar de idéia, procurarei desfazer am anhã, durante o expediente, a situação de constrangim ento que se criou entre nós dois. Talvez até lhe conte a história toda.

Das pessoas que aparecem , de vez em quando, aqui em casa, é a única tolerada por Em ília. Soube conquistá-la, não sei por que artifícios. Mesm o o papagaio não o hostiliza, certam ente por solidariedade com a velha.

É verdade que esta lhe responde apenas por m onossílabos às perguntas, m as noto que fica serenada com sua presença. E Glicério se perm ite brincadeiras que eu próprio não ouso: chegou a dizer à m ana que ia prom over-lhe o casam ento com o sacristão da capela de S. Sebastião. Brincadeira perigosa, porque Em ília não sim patiza com o hom em e nem tolera essa pilhéria de casam ento.

Quando vai à capela (duas ou três vezes por ano, ou apenas na Páscoa), se se encontra com o sacrista volta para casa enfurecida. Há alguns anos, pouco depois de nossa vinda para a Rua Erê, o Indalécio—é com o se cham a—fez-lhe um a advertência qualquer, e foi o bastante. Quando Glicério, que não ignora essa rixa, buliu com Em ília a respeito, fiquei arrepiado, na expectativa de um a explosão. Pois a velha se lim itou a baixar os olhos e a sair para a cozinha...

Tive outro sinal de sua estim a ao m ancebo num dia em que, achando-se este com igo, à hora do alm oço, convidei-o para alm oçar. Em ília nunca m e perm itiu com ensais e foi com receio que a procurei, na cozinha, para que pusesse m ais um prato na m esa.

Ao dirigir-lhe a palavra, tim idam ente, cortou-m e os rodeios e desculpas prévias:

—Não carece falar não, que eu j á sei. Pensa que a gente não entende das coisas! Pensa que a gente não entende das coisas!

Coerente em suas dem onstrações de apreço ao Glicério, suprim iu, tam bém , nesse dia, o fam oso anteparo de papelão, que j á m encionei em outro ponto destas notas. E, em vez de sim plesm ente bater um garfo nos pratos (com o faz, para anunciar que a m esa j á foi posta), ou de exclam ar, quando m ais com unicativa: Se "alguém" quisé almoça, o almoço tá na mesa!, nesse dia ela veio ao quarto advertir gentilm ente que o alm oço estava esfriando e que com ida fria não presta.

Glicério soube corresponder-lhe às atenções e deu-lhe um corte de cetineta (que dificuldade para obter esse tecido caído da m oda!). O m im o, ao que parece, consolidou sua situação perante a velha.

Bom rapaz, em sum a. Não o deixarei de procurar am anhã e hei de penitenciar-m e de m inhas picuinhas.

 

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