O Amanuense Belmiro
§ 3. O Borba Errado. 18
Curioso pressentim ento, o de Em ília: na sua m eia-luz, bem que percebe em m im certa dissolução de espírito. Encontrou na língua fam iliar de Vila Caraíbas a expressão própria para traduzir a inquietação que m inha presença, às vezes, lhe desperta.
Rio-m e sem pre, quando exclam a "Excom ungado! Excom ungado!" Mas o epíteto, no bico do papagaio, assum e um sentido trágico, faz-m e estrem ecer.
Pobres m anas. Em ília é apenas um a esquisita, m as Francisquinha, perturbada de nascença, vai de m al a pior. Foi este o grande desgosto que ensom brou os dias do velho Borba e da velha Maia. Desde cedo, viram que seria im possível dar-lhes educação condigna, m andando-as ao Colégio de Diam antina. Tiveram de viver sem pre na fazenda, com o bicho-do-m ato, entre o pessoal de serviço. Quando o Borba m orreu (a velha Maia partiu bem antes) e a fazenda foi à praça, recebi-as com o herança. Em ília não tinha, então, os cabelos grisalhos, e Francisquinha andava pelos trinta. Que custo trazê-las em viagem a cavalo e, depois, no com boio da Central! Vieram iludidas, pensando que iam para São Paulo, ficar na com panhia do tio Firm ino. Não lhes foi fácil habituarem -se à m inha pessoa e m odo de vida. Tanto tem po andei afastado delas, que lhes pareci um estranho.
Ainda assim , tão distantes de m im , encheram m inha vida, e Em ília é, nesta casa, um a presença vigorosa e viril, que restabelece a atm osfera m oral da fazenda.
§ 3. O BORBA ERRADO.
DO ALPENDRE da casa, na velha cadeira austríaca, fiquei a olhar os transeuntes. A Rua Erê não é atrativa, neste particular, com sua reduzida fauna hum ana. Talvez sej a isso o que sem pre m e leva a passear o pensam ento por outras ruas e por outros tem pos. Com o o Natal m e fez saudosista! Eu fechava os olhos, e a Ladeira da Conceição surgia, diante de m im , com a nitidez de um acontecim ento m atinal. Vila Caraíbas e seu cortej o de doces fantasm as. A garganta se m e apertava, e eu sentia os olhos se um edecerem com ovidos. Que diria o Glicério, com sua suficiência? Rir-se-ia de m im : "Você é um hom em errado, Belm iro!"
Se Glicério tivesse conhecido os Borbas, diria, em vez disso, que sou um Borba errado. Onde estão em m im a força, o poder de expansão, a vitalidade, afinal, dos de m inha raça? O pai tinha razão, do ponto de vista genealógico: com o Borba, fali. Na fazenda, na Vila, no curso. Meu consolo é que sou um grande am anuense. Um burocrata! exclam ava com desprezo. Coitado do velho. Queria fazer-m e agrônom o. Ou, então, agrim ensor. Vila Caraíbas não tinha, ainda, o seu agrim ensor form ado, e andava, por lá, a febre das divisões de terras. Era contra os princípios paternos o bacharelato em qualquer ram o de ciências ou letras. "Tem os .doutores dem ais, dizia ele. Precisam os é de braços para a lavoura." Mas dei em droga na fazenda e andei zanzando pela Vila, m etido em serenatas e noutras relaxações. Coitado do velho. Neguei as virtudes da estirpe. Sou um fruto chôcho do ram o vigoroso dos Borbas, que teve seu brilho rural. Em face do código da fam ília (cinco avós, pelo m enos, estão-m e dizendo—ilustres som bras!) foi um crim e gastar as vitam inas do tronco em serenatas e pagodes. Lá estava a fazenda, grande, poderosa com o um estabelecim ento público, com suas lavouras à espera de cuidados m oços. Sinto m uito, avós. Eu não podia ouvir um a sanfona. Tocavam a Varsoviana e eu m e dissolvia (lá na Vila lhe cham avam Valsa Viana...).
Coitado do velho. Por fim , declarou que o que não tem rem édio, rem ediado está. Com o a m inha m ãe tivesse o secreto desej o de m e ver na carreira das letras (dizia que eu saíra aos Maias e não aos Borbas), acabou pensando num acordo. "Se o m enino não se aj eitava na fazenda, que, pelo m enos, não se distanciasse dela —poderia tirar um a carta de agrônom o. Ficará nas letras agrícolas", repetia, satisfeito, por um lado com a associação verbal que descobrira, e, por outro, com o parcial deferim ento às aspirações da velha.
Abandonei, porém , as letras agrícolas e entreguei-m e a outra sorte de letras, nada rendosas. Pus-m e a andar na com panhia de literatos e a sofrer im aginárias inquietações. Tive am ores infelizes, fiz sonetos. Até chegar ao Silviano e ao Redelvim , percorri m uitos cam inhos. E a m esada paterna se consum ia em livros que as necessidades sentim entais e espirituais do m ancebo ardentem ente reclam avam . Quando, num fim de ano, o pai veio a Belo Horizonte e verificou o logro, houve cena pesada. Um a dessas discussões em que nós, Borbas, nos dizem os coisas duras, para, depois, num desfecho m elodram ático, nos abraçarm os. Voltou com um a grande dor no coração, para gravam e de sua insuficiência m itral, e m ais tarde um deputado m e introduziu na burocracia.
"Um burocrata, um burocrata!" lam entava nas suas cartas. Em que fora dar sua longa doutrinação, nas colunas da Gazeta Caraibense, em propaganda da vida rural? Seus cinqüenta artigos, em série, sob a epígrafe geral de Rum o à Gleba?