O Amanuense Belmiro
§ 6. Carnaval. 24
§ 6. CARNAVAL.
QUE tenho eu com os dias que a folhinha assinala? Há. dois m eses com ecei a registrar, no papel, alguns fragm entos de m inha vida, e noto agora que apenas o faço em datas especiais. Encontro um a explicação plausível: m inha vida tem sido insignificante, e no seu currículo ordinário nem faz, realm ente, por onde eu a perceba. Habituei-m e às coisas e seres que incidem no m eu traj eto usual da Secretaria para o café e do café para a Rua Erê. Tais seres e coisas pertencem , por assim dizer, ao m eu sistem a planetário, e, entretido com eles, na sua.feição m ais ou m enos constante, vou traçando quase que despercebidam ente m inha curva no tem po.
Os dias de festa coletiva, introduzindo o elem ento m ultidão na m inha esfera e propondo-m e novos espetáculos ou novas sugestões,- interrom pem o equilíbrio do m eu pequeno m undo e nele vem produzir desnivelam entos que suscitam m ais fundos m ovim entos interiores.
Neste carnaval de 1935, hoj e com eçado, m ais do que nunca senti de m odo tão vivo a im possibilidade de m e fundir na m assa, de seguir, com o célula passiva, seu m ovim ento de translação, de receber e transm itir essas forças m isteriosas que nela atuam , com unicando-se de indivíduo para indivíduo e resultando, afinal, num a força uniform e, esm agadora, de onda ou ciclone.
Sinto inutilm ente, em m im , um a vaga nervosa que quer acudir ao apelo que a m ultidão dirige a cada unidade. Quero rir, chorar, cantar, dançar ou destruir, m as ensaio um gesto, e o braço cai, paralítico. Dir-se-ia que há em m im um processo de resfriam ento periférico. Os outros têm pernas e braços para transm itir seus m ovim entos interiores. Em m im , algo destrói sem pre os cam inhos, por onde se m anifestam as puras e ingênuas em oções do ser, e a agitação que m e percorre não encontra m eios de evadir-se. Reflui, então, às fontes de onde se irradia e converte-se num a angústia com parável à que nos provém de um a ação frustrada.
A m ultidão m e revela, assim , que há coisas extraordinárias, vibrações estranhas, há um m undo diverso do m eu e com o qual tentarei, em vão, com unicar-m e. No seu boj o, tocam os seres cuj a existência nos surpreende quase dolorosam ente, tão certos estávam os de que nada havia no espaço além do nosso sistem a.