O Amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos · Capítulo 22 de 51

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O Amanuense Belmiro

§ 19. Idiota, Idiota, Idiota. 46

Dissolveu-se a roda, afastaram -se os m óveis e, abandonado pelo Glicério, assentei-m e em um a poltrona, a um canto. As m oças não m e notavam , m as eu bem as via, para festa dos olhos e m alinconia do espírito. Traziam -m e um a im agem da vida que foge, e foge sem dó. Nada m ais depressivo que sentir outras gerações surgirem depois da nossa e nos disputarem espaço. A vida nos ilude cada dia, m as nós a querem os, com ardor recrudescido, com o o am ante que ainda m ais am a a com panheira, quando sabe que ela o engana. Ai de nós, os que vam os passando. Receber o calor dos novos seres e sofrer-lhes o contato ainda é pior que o frio de um a velhice que nos espreita. Com preendi a necessidade de fugir às m oças em flor e, em particular, à m oça Carm élia. A quem vai passando, o m elhor é esconder-se nas cavernas do peito e nelas procurar o panoram a do seu tem po.

Tive invej a daqueles que as enlaçavam e as valsavam . Eram tam bém ágeis, lestos e gráceis. Por um m om ento, experim entei um a transfiguração: senti-m e em Vila Caraíbas, no bom tem po das polcas e das quadrilhas, que ainda alcancei; transportei-m e a um a j anela, idiliei ao pé de um j asm ineiro. Minhas m oças em flor de Vila Caraíbas, hoj e outoniças, tinham vestidos brancos que m odelavam seios m orenos e castos. Cantavam , ao luar, velhas, inefáveis m odinhas. Moças proustianas em flor, que andavam aos bandos e form avam grupos indem arcáveis onde se operava a translação contínua de um a beleza fluida, coletiva e m óvel, tal a das virgens da praia de Balbec.

O baile m e deixou m iserável, pela sensação de aposentadoria. O serviço público não j ubilou, ainda, este burocrata m estre. Mas a vida está m e encostando, nem há dúvida. Se algum dia caírem estas linhas sob os olhos de alguém , rirão de m inha literatura sentim ental. Pouco m e faz: toco trom bone é para m eu uso, com o dizia m estre Rizério, quando o j uiz m unicipal de Vila Caraíbas ia reclam ar contra o barulho do instrum ento.

Mas não poderei suportar, por m uito tem po, a tirania de Glicério. Meu lugar é outro e m eu clim a é bem diverso do desses salões a que ele m e transporta. Meu lugar é nesta Rua Erê, entre Em ília, Francisquinha, Tom e, Prudêncio Gouveia e o velho Giovanni.

 

§ 19. IDIOTA, IDIOTA, IDIOTA.

GLICÉRIO com unicou-m e hoj e, na Seção, seu propósito de ir ao Rio, por um a sem ana. Achei péssim o. Noutra ocasião, isso m e seria indiferente, m as, nesta altura dos acontecim entos, a viagem m e aborrece. Será m ais um a sem ana de atraso nas m inhas tentativas para dele obter, não digo um a aproxim ação— com que j á não sonho—m as pelo m enos referências ou inform ações a respeito de Carm élia.

Não m e anim o a pedir-lhe, diretam ente, que m e fale sobre a m oça. Se eu tivesse dez anos de m enos, venceria a tim idez e atacaria o assunto: estou certo de que, bom cam arada, não se recusaria a servir um nam orado em aflição. Pois, em que pese à m inha percepção do ridículo, m inha situação é essa, de nam orado aflito. Deus sabe quantas vezes tenho passado, horas m ortas, na Rua Paraibuna, só para ver a casa, ou a tenho cruzado, de dia, esperando ver a m oça.

Aos vinte e oito anos eu poderia (não sendo apenas am anuense) pretender essa Carm élia que não terá chegado aos vinte. Mas, aos trinta e oito, é de todo descabido e Glicério haveria de rir-se de m im . Eu próprio m e tenho rido, m uitas vezes, quando não m e enoj o, e escrevo, à m argem destas páginas: idiota, idiota, idiota.

Tenho esperado, por isso, que ele m e diga espontaneam ente qualquer coisa. Passo o dia todo a seu lado, ouço-lhe m il ninharias sobre a vida da sociedade e sobre rapazes ou m oças que conhece, m as o dem ônio lhe fecha a boca, no que se refere a Carm élia. Nada m ais lhe arranquei, além das palavras ditas no m om ento em que passávam os em frente da casa da Rua Paraibuna.

Vai viaj ar agora e terem os sete dias durante os quais não haverá nem m esm o esperanças. Pergunto a m im próprio se, nesta obsessão tola em que vivo, não serei a pessoa m enos equilibrada desta casa. O que Francisquinha faz é, porventura, m ais extravagante que estes devaneios m eus?

Abandonou os ratinhos (ou m elhor, eles lhe fugiram ) e cuida, agora, de pintos. Vive a dar cafiaspirina aos pintainhos, dizendo que se acham gripados. Pegou um colchão velho e tenta fazê-los dorm ir nele, dentro de casa, com o que irrita a cada instante a galinha m ãe. É um a idéia bem fora do com um , m as que não excede os desvarios que ando praticando.