O Amanuense Belmiro
§ 28. Problemas de Proletária. 62
Pai João, pela boca do m édium , declarou que iria fazer uns passes e que todos deveriam aj udá-lo, com suas orações.
O m édium levantou-se, enquanto Francisquinha foi, tam bém , levantada e posta ao m eio da sala. Colocando a m ão direita por sobre a cabeça da m ana e andando em torno dela, fez, com a outra m ão, gesto de lhe tirar do corpo algum a coisa.
Depois, o hom em voltou ao seu lugar, respirou profundam ente e sob as preces dos circunstantes, tornou a si.
Estava term inada a sessão, e Francisquinha foi levada para o quarto, por Josefa e Em ília.
Os espiritistas tom aram um a xícara de café, desej aram -nos paz e se despediram .
Dispus-m e tam bém a sair, para m eu giro habitual pela Avenida, e, j á no portão de casa, ouvi Em ília dizer:
—Chica vai m elhora com o dij itório de Deus. O espírito saiu. Pobre m ana!
§ 28. PROBLEMAS DE PROLETÁRIA.
FOI BOM nada ter concluído, quanto ao Dr. Pereirinha. Muito fora dos seus hábitos, Jandira esperou-m e hoj e à saída da repartição para j antarm os j untos, em um restaurante, e conversarm os à vontade. Estávam os à espera de um bonde, quando um hom em , guiando um a baratinha de luxo, m e atraiu a atenção, por passar m uito vagarosam ente j unto de nós e ter voltado duas vezes. A um olhar interrogativo, que lhe dirigi, explicou Jandira que o fulano era o tal advogado, Dr. Pereira. De um relance, com preendi o resto, dispensando-m e de fazer conj eturas sobre os m otivos que a teriam levado a procurar-m e.
Durante o traj eto de bonde não conversam os. Esse foi, aliás, pequeno, porque, atendendo a um convite da am iga, que observou ainda não ser hora de j antar, com ela desci na Avenida para irm os ao Parque. Sentados à m esinha ao ar livre, onde costum am os reunir-nos, Jandira desabafou-se.
Desde m uito tem po, o Dr. Pereirinha a perseguia. Confessou-lhe que, ao cham á-la para o escritório, j á a am ava. Estava apaixonado. Tal m anobra não a surpreendeu, pois não era a prim eira vez que se via assediada por hom ens, casados ou não. Alguns m ais ousados se aventuraram , m esm o, a fazer-lhe propostas desonestas, a que ela deu a com petente resposta. Mas o Dr. Pereirinha... Era um suj eito incrível, de tenacidade fora do com um . A princípio, seu j ogo foi o de um conquistador apressado. Queria frutos im ediatos. Depois, com preendendo que ela não se prestava a ser obj eto de divertim ento, o pirata m udou de. técnica. Passou a suspirar, a dizer que não exigiria nada, que reconhecia a ilegitim idade de qualquer pretensão sua, j á que era um im pedido, um infeliz. Esse período de suspiros durou uns dois m eses. Nos últim os dias, entrara num período de ação e vivia procurando contatos, apertos de m ão... Por várias vezes, ela am eaçou deixar o serviço. Hoj e, o sedutor foi m ais atirado. Declarou não poder viver sem ela, não saber o que irá acontecer, pois está desesperado. E, ao ouvir palavras de repulsa, abraçou-a à força, tentando beij á-la. O rum or dos passos de um cliente, que entrava na ante-sala do escritório, salvou a situação.
—Em resum o, term inou Jandira, deixei o em prego.
—Isso é o m enos, respondi. Arranj a-se outro.
—Mas o problem a continua. Sem pre haverá um hom em e um a datilografa. Não calcula com o é difícil a gente sustentar esta defesa perm anente. Aquelas a que vocês cham am "m oças em flor"...
—E você é um a, interrom pi.
—Não. Sei que não sou. Há um a distinção, que percebo. Nao basta a virgindade. É preciso que as donzelinhas tenham , tam bém , ar donzelesco e sej am protegidas por todo um sistem a de fortificações—papais, irm ãos, fortuna—que as torne difíceis, respeitadas, e inspire a vocês um a série de lendas rom ânticas.
Protestei inutilm ente. Continuou:
—Essas fulaninhas não conhecem o nosso problem a. Não têm a com panhia forçada de um patrão, de um garanhão, um anim al. Acontece que sou de carne e osso. Não gosto do Pereira, m as aquela insistência... Afinal, era o único hom em que estava j unto de m im . Não sei com o pude resistir sem pre. E am anhã será a m esm a coisa, com outro Pereira qualquer. É um inferno. Olhe,
Belm iro, às vezes m e dá vontade de acabar com isso, de fazer um disparate.