O Amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos · Capítulo 47 de 51

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O Amanuense Belmiro

§ 44. Redelvim Tem, Também, um Diário. 86

Desse consórcio de Maias com Borbas foi que surgiu o am anuense, sem a virilidade destes e sem a polidez daqueles.

A aspereza dos Borbas, que é antes couraça, para defender um coração m ole tem , na Em ília, sua expressão integral. Ao ouvi-la resm ungar, franzir os sobrolhos, penso, com um a ternura que m e um edece os olhos, nesse velho que foi o últim o da raça. Toda sua força, sua dureza de m etal nobre, transferiu-se à m ana. Para m im não restaram senão vagos reflexos e, ainda assim , bem no fundo, bem no fundo.

A autoridade que em ana de Em ília e das som bras fam iliares que povoam esta casa basta, porém , para sustentar nela, em plena vigência, aquilo a que tenho cham ado sistem a Borba. E o leitor j á não se rirá de m im , agora, quando repito as palavras escritas atrás: Mesm o que, algum dia, Carm élia a m im viesse, as bodas seriam im possíveis. O sistem a Carm élia e o sistem a Borba se repelem . Entre Em ília e a viúva Miranda há distâncias interplanetárias.

E, ai de m im , estou que o casam ento não baniria os m itos. Mito tocado é m ito m orto, e a im aginação busca outros, sentindo-se ludibriada. Fique Arabela no seu nicho.

 

§ 44. REDELVIM TEM, TAMBÉM, UM DIÁRIO.

 

HÁ QUATRO dias não ponho os olhos neste caderno. Andei em m aré de ler, e não de escrever. E Silviano tem -m e suprido do bom e do m elhor, no que toca a livros. Ele os com pra aos m etros cúbicos, e m uito lhe devo nesse capítulo, desde os tem pos de república, quando o conheci e j á era professor.

Interrom perei, esta noite, a leitura de um dos volum es que m e m andou (abasteceu-m e, desta vez, de gregos, e estou atacando a Ilíada, que nunca pude ler de fio a pavio), para não m e esquecer de anotar aqui um a visita a Jandira.

Ao entrar em casa, de volta da Secretaria, Em ília m e disse:

—A excomungada mandou um positivo trazê um escrito. Está em riba da mesa do quarto.

Com o de costum e, falou-m e sem se virar para m im . Achava-se de costas, a pôr a m esa, e assim continuou.

Ri-m e, feliz, quando ouvi a palavra "positivo", na acepção que lhe deu e em que há m ais de vinte anos não a ouço. Em Vila Caraíbas, "positivo" quer dizer m ensageiro expresso e especial. O Borba não em pregava tal vocábulo. Usava de outro, que os léxicos adm item com esse sentido: "próprio". Lem bro-m e de que, certa vez, corrigiu um dos nossos em pregados. Ao dizer-lhe o vaqueiro: "Seu Jucá do Riachão mandou um positivo aqui para dizê ao sinhô seu Coroné qui ele já fezo acêro", o velho em endou:—Um próprio; um próprio: "positivo" é outra coisa.

—Propre, seu Coroné?

—Sim , sim , respondeu, im paciente.

Tam bém m e divertiu ouvi-la estender a excom unhão a Jandira. Já lhes disse que isso não significa desestim a e provavelm ente esconde ternura, m as ainda assim continua chistoso.

Eis o escrito, segundo a expressão caraibana da Em ília:

"Honrado amanuense:

preciso falar-lhe. Venha ver-me hoje à noite, se puder.—Jand.”

Mal j antei, saí. Sentia-m e em falta com ela. Havia oito ou dez dias que não a procurava.

Chegado ao pequeno apartam ento, fui recebido por D. Hortênsia, que ficou com igo alguns m inutos, enquanto a am iga arranj ava o penteado. Ou m elhor, ficou consigo a um canto. Está acostum ada a perm anecer horas e horas sem dizer palavra, quando assiste às nossas reuniões, nos dias em que Jandira nos convoca. Mas hoj e, forçada a fazer as honras da casa, sentia-se visivelm ente constrangida, a todo m om ento se m exia na cadeira, com o quem não acha o que dizer e se aflige por isso.

Felizm ente Jandira não se dem orou, e sua chegada tirou a pobre senhora do apuro. Num m ovim ento vivo, em contraste com o seu m odo discreto e ausente, D. Hortênsia fugiu da sala, assim viu a sobrinha. Por certo, teve m edo de que ela volvesse a dar m ais uns toques no cabelo, o que faz freqüentem ente, e a deixasse de novo com igo, na em baraçosa situação.

Foi tão ágil e rápida a saída, que Jandira achou graça:

—A velha está lépida, hoj e...

Depois, disse-m e, andando para lá, para cá, segundo seu costum e:

—Não há nada de novo, seu Belm iro. Escrevi o bilhete pensando que você estivesse zangado com igo. Sum iu tantos dias...

—Zangado por quê, m inha flor?

—Porque eu não o socorri, quando Redelvim com eçou a azucriná-lo.

—Ora, Redelvim é um m enor exaltado, respondi.

Ela riu-se. Depois falou-m e que, se não interveio, foi para não agravar a situação; Redelvim estava irritadíssim o e precisava desabafar-se. Com o eu j á estava acostum ado a servir de pára-raios, ela preferira ficar de lado... A polícia dera-lhe busca na casa, levara-o à delegacia para explicações e lhe tom ara os m elhores livros, bem com o o seu Diário, que nada tem de extraordinário, diz ele, m as o acom panha há longos anos, é coisa de estim ação.

Li páginas desse cartapácio, há tem pos, pelo m esm o processo clandestino por que conheci o do Silviano. Provavelm ente Jandira não o suspeita, m as o nosso am igo, noto-o bem , está irritado não é por causa dos livros, nem pelo cham am ento à delegacia, nem por estar sendo seguido pela polícia secreta: é por causa do Diário...

Com o todos os docum entos dessa natureza, contém histórias m uito íntim as, am ores (inclusive o caso da pequena espanhola, que o torturou bastante) e versos de adolescência. Não perm ite que se lhe fale nos am ores, nem nos poem as. Esse Diário nas m ãos da polícia deve ser-lhe m otivo de profunda inquietação.

—Ele não lhe quis dizer nada, porque acha que você é gente do Governo...

Não deixei de ficar lisonj eado. É a prim eira vez, na m inha carreira de funcionário, que m e consideram pessoa integrada na adm inistração, ou, m ais que isso, "gente do Governo". Redelvim é um pândego.