O Amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos · Capítulo 8 de 51

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O Amanuense Belmiro

§ 5. Ano-Bom. 23

§ 5. ANO-BOM.

 

DEPOIS de ter andado inquieto com o um a galinha sem ninho (j á viram com o um a galinha desaloj ada cacarej a aflita, sem encontrar lugar no espaço?), pus-m e a pensar no perm anente conflito que há em m im no dom ínio do tem po. Se, a cada instante, m ergulho no passado e nele procuro um a com pensação, as secretas forças da vida trazem -m e de novo à tona e encontram m eios de entreter-m e com as insignificâncias do cotidiano. Pelo oposto, é com um , quando o atual m e reclam a a energia ou o pensam ento, que estes se diluam e o espírito se desvie para outras paisagens, nelas buscando abrigo. Tais solicitações contrárias, em luta constante, levam -m e às vezes a tão subitâneas m udanças de plano, que m inha vida, na realidade, se processa em arrancos e fugas, interm ináveis e sucessivos, tornando-se ficção, m era ficção, que se confunde no tem po e no espaço.

O que hoj e m e sucedeu é bem um sinal dessa luta interior. Eu ia, atento e presente, em busca de um bonde e de Jandira. Foi só ouvir um a sanfona, perdi o bonde, perdi o rum o, e perdi Jandira. Fiquei rente do cego da sanfona, não sei se ouvindo as suas valsas ou se ouvindo outras valsas que elas foram acordar na m inha escassa m em ória m usical.

Depois, o cego m udou de esquina, e continuei a pé o cam inho, m as bem percebi que os passos m e levavam , não para o cotidiano, m as para tem pos m ortos. Desci a Rua dos Guaj aj aras com a alm a e os olhos na Ladeira da Conceição, por onde, num bando alegre, passava Cam ila, tão leve, tão casta, depois da m issa das nove, na igrej a do Rosário. Era precisam ente por ali que estacionava outro sanfonista que não esm olava nem era cego, e tocava apenas por am or à arte, ou talvez para chorar m ágoas. E chorava-as tão bem que cada um que o cercava sentia as suas m ágoas igualm ente choradas. O artista se revelava por esta form a perfeito, extraindo, dos seus m otivos individuais, m elodias aj ustadas às necessidades da alm a dos circunstantes, que ali iam buscar expressão para sentim entos indefiníveis que os povoavam e só se traduziriam por frases m usicais.

Esse traço da generosidade inconsciente dos grandes artistas se encontrava no sanfonista da Ladeira da Conceição. Satisfazendo à necessidade de dar form a aos pensam entos im precisos de suas saudades e de seus am ores, lograva articular um a linguagem que nos servia a todos e que, por igual, nos falava de nossas saudades e de nossos am ores; transportava-nos, assim , à atm osfera de alvoroçado bem -estar em que a gente m ergulha quando encontra a definição de um sentim ento e sua form a de expressão. Proporcionando ao espírito válvulas por onde se evadem as em oções que o com prim em , a expressão—sej a m usical, literária ou plástica — não só o alivia, m as tam bém o excita.

O sanfonista da Vila traduzia para m im as coisas com plicadas de m inha alm a. O cego, que encontrei na esquina, não o fez com a m esm a eficiência, m as, em todo caso, m e lem brou o outro da ladeira de m inha vila, e isso j á foi m uito fazer, porque assim despertou dentro de m im esquecidas harm onias.

A som bra de Cam ila m e subtraiu à realidade de Jandira e reconduziu-m e às estradas perdidas de Vila Caraíbas, que levam àquela serra m uito azul e esquiva.

E desviou-m e no tem po. O Ano-Bom chegaria sem que eu o celebrasse com o rito do costum e, que é um a ceia em casa do Florêncio, se este não m e viesse buscar quase à m eia-noite. A questão, bem se vê, não é o ano velho ou novo, m as a ceia sem pre apetecível, da casa do am igo. Mariana põe nela todo o seu estilo culinário, e o estilo é a m ulher, em capítulos de cozinha. Eis aí o segredo de Florêncio: por isso é que vive naquela bem -aventurança que todos lhe invej am os.

Porventura chegou, tam bém , à conclusão de que a vida é breve, e a arte, longa, e cuida de tratar o irm ão corpo com o bom vinho e a boa vianda. Viva Florência, o hom em sem abism os.

Redelvim e Silviano com pareceram . Glicério m andou desculpas: ia a um baile universitário.

Creio que anda de nam oro com a filha do m eu chefe de Seção, a Nonoca. E Jandira esteve ausente, o que m e pareceu de bom tato. Mariana olha-a com reservas, com aquele instinto infalível e feroz da boa m atrona que quer conservar o seu hom em para si. Tem sido inútil m eu trabalho em favor da m oça.

Mariana desconfia das literatas (assim denom ina todas as m ulheres de idéias m ais avançadas) e fecha a questão: "Pois sim . Com esse j eitinho m esm o é que elas vão entrando. O senhor, que é solteiro, se envolva com elas. Está certo. Mas... seu Florêncio? Já lhe disse que não quero saber dessas intim idades..."